A história de Boca Juniors e River Plate não se conta em 90 minutos. Afinal, o futebol representa apenas uma parte da rivalidade entre os gigantes argentinos. Na realidade, o esporte serve como um pretexto. Aproveitando o início das semifinais da Libertadores 2019, relembramos um pouco o folclore (pelo bem ou pelo mal) que reconta o Superclássico. Provocações, festas e outras cenas que ficaram marcadas.

Os mascotes

El Chancho Riquelme x Fantasma de la B

O Monumental de Núñez se consagra como um palco histórico na Argentina não apenas por conta do futebol. O mítico estádio também costuma abrigar shows históricos em Buenos Aires, sobretudo de bandas de rock. E foi uma das muitas apresentações de Roger Waters na capital que inspirou os torcedores do River Plate em uma de suas brincadeiras mais famosas. Em referência ao álbum ‘Animals’, o veterano do Pink Floyd levava um porco inflável às suas apresentações desde a turnê que relembrava o álbum “The Dark Side of the Moon”. Os millonarios copiaram a ideia e fizeram sua versão do animalzinho, com as cores do Boca.

O porquinho é uma referência ao apelido nada lisonjeiro de ‘bosteros’ dado aos rivais. Em 2012, quando o River acabara de voltar da segunda divisão, eis que o mascote inflável passou a voar bem em frente do setor visitante no Monumental de Núñez. Ganhou um apelido: Riquelme. Os torcedores millonarios “homenageavam” o craque rival, naquele momento de pura galhofa. O placar terminou empatado em 2 a 2.

A resposta do Boca Juniors é repetitiva. A cada duelo com o River Plate, o “Fantasma de La B” costuma atormentar os rivais. A fantasia, que tira sarro dos millonarios por terem sido rebaixados à segundona, foi vestida em diversas partidas por torcedores boquenses e surge com frequência nos alambrados da Bombonera. Mas a entrada mais triunfal da assombração aconteceu em 2015, exatamente nos tensos momentos provocados pelo gás de pimenta nas oitavas de final da Libertadores.

Um drone começou a pairar sobre o gramado da Bombonera, carregando consigo o fantasminha e o enorme “B” vermelho à sua frente. Não era o melhor momento, já que os jogadores ainda sentiam os efeitos lacrimogêneos. Se aquele mascote não deu tanta sorte ao Boca, a referência já apareceu até mesmo em comemoração de título dos xeneizes. Em 2017, após a conquista do Campeonato Argentino, foram os próprios jogadores que vestiram lençóis brancos para tirar uma casquinha dos millonarios.

As voltas olímpicas

Irrigação ligada x chuva de objetos

Em 1969, River Plate e Boca Juniors se enfrentaram na rodada final do Campeonato Nacional. Os millonarios estavam dois pontos atrás dos xeneizes na tabela, mas poderiam melar a conquista dentro do Monumental. Não aconteceu. Norberto Madurga foi o herói do Boca dentro da casa rival, ao anotar dois gols no primeiro tempo e abrir o caminho ao empate por 2 a 2, que valeu o título ao seu time – o primeiro no território inimigo. Durante a volta olímpica, o espírito esportivo até prevaleceu aos torcedores da casa, mas não aos dirigentes.

Enquanto as arquibancadas em Núñez aplaudiam a vitória dos rivais, a diretoria do River Plate mandou ligar o sistema de irrigação do gramado. Os jogadores do River Plate tomaram um banho em meio à festa com a taça. Isso, porém, não foi suficiente para que interrompesse a alegria. Pelo contrário, o capitão Silvio Marzolini puxou a fila para duas voltas olímpicas. Mesmo molhados, os xeneizes não deixavam de ser campeões.

Ao River Plate, um episódio emblemático aconteceu em 1986. O time havia sido campeão argentino na rodada anterior e enfrentava o Boca Juniors dentro da Bombonera. Apenas para espezinhar os rivais, que atravessavam uma incômoda seca, os jogadores millonarios resolveram dar uma volta olímpica antes que a bola começasse a rolar. Choveram objetos das arquibancadas, que sequer permitiram o trajeto completo dos visitantes. Além disso, os próprios gandulas (que eram barras xeneizes) foram peitar os jogadores adversários.

Já a partida aconteceu com uma curiosa bola laranja. Por conta dos papéis picados no gramado, o veterano Hugo Gatti, goleiro do Boca Juniors, solicitou que a pelota colorida fosse utilizada. Nada que evitasse a festa completa do River Plate. O ídolo Beto Alonso abriu o placar. Mesmo com um jogador expulso, os millonarios seguraram a diferença graças ao goleiro Nery Pumpido. Nos minutos finais, concluíram a diferença com mais um tento de Beto Alonso.

Os gestos

A galinha de Tevez x O nariz tapado de Labruna

Falar de Boca Juniors x River Plate na Copa Libertadores é lembrar da histórica semifinal de 2004. Os xeneizes nem levaram o título, mas o triunfo acabou marcado como uma façanha inesquecível. E que teve a provocação de Tevez como ponto alto no Monumental. Após a vitória na Bombonera por 1 a 0, os xeneizes buscaram o empate fora de casa aos 43 do segundo tempo, o que parecia ser a confirmação da classificação. Foi então que a loucura desatou em Carlitos.

A imitação da galinha fazia referência ao apelido pejorativo do River Plate, de que sempre fraquejavam nos momentos decisivos. A celebração nem gerou confusão, mas o árbitro resolveu expulsar Tevez. E isso quase custou caro. Cristian Nasuti marcou o segundo gol dos millonarios nos acréscimos e a vitória por 2 a 1 forçava os pênaltis. Para sorte de Carlitos, outra ave surgiu no Monumental: Pato Abbondanzieri pegou a cobrança de Maxi López e levou o Boca à final. A galinha ficou recordada como um símbolo vitorioso.

Fazer um gesto tirando onda dos rivais não é primazia de Tevez. Pelo contrário, Ángel Labruna adorava zoar com o Boca Juniors em suas visitas à Bombonera. Um dos maiores ídolos da história do River Plate, El Feo também é o jogador com mais gols na história do Superclássico. Costumava “tapar o nariz” quando entrava em campo na casa dos rivais, sobretudo na época em que dirigia os millonarios. Fazia referência ao mau cheiro do rio que passa próximo ao estádio e que, segundo versões, seria uma das motivações ao apelido de bosteros.

“Eu sempre vivi do Boca. Graças a eles, fiquei famoso”, gostava de dizer Labruna. Os gestos eram repetidos especialmente nos duelos contra os rivais disputados na década de 1970, sob as ordens do velho craque. Labruna conduziu os millonarios a seis títulos argentinos entre 1975 e 1980. Seria seguido por outros discípulos, inclusive Marcelo Gallardo.

As cenas lamentáveis

Gás de pimenta x Ataque ao ônibus

Cabe dizer também que a rivalidade entre Boca Juniors e River Plate resultou em alguns episódios nada honrosos. Dois deles, ocorridos ao redor da Copa Libertadores. Nas oitavas de final em 2015, os jogadores do River Plate foram atacados quando saíam para o intervalo na Bombonera. Um torcedor atirou um gás de pimenta, que fez diferentes atletas passarem mal. A partida não pôde continuar, os tribunais da Conmebol deram a classificação aos millonarios. Responsabilizado como autor do ataque contra os visitantes, o barra conhecido como “El Panadero” foi sentenciado a dois anos e oito meses de prisão.

A “resposta” do River Plate veio na decisão passada, com o deplorável ataque ao ônibus do Boca Juniors no caminho do Monumental de Núñez. As pedras lançadas contra os vidros do veículo feriram o capitão Pablo Pérez, enquanto alguns jogadores terminaram afetados pelas bombas de efeito moral atiradas contra os torcedores ao redor do local. A punição aos millonarios acabou sendo até “pequena”, com o maior entrave gerado pela transferência da final ao Estádio Santiago Bernabéu. Longe de sua torcida, ao menos o River voltou com a taça.

As pancadas

Faça sua escolha

Muitas vezes, a bola se torna mero detalhe no Boca Juniors x River Plate. E, bem, isso não significa necessariamente algo bom. Num clássico em que os nervos estão tantas vezes aflorados, há pancadas tão célebres quanto gols. A lista abaixo foi elaborada pela Fox Sports Sur, dando uma vantagem aos xeneizes pela violência:

Os recebimentos

Nada mais tradicional que a festa realizada nas arquibancadas por River Plate e Boca Juniors. Cada qual à sua maneira, Bombonera e Monumental de Núñez carregam doses enormes de misticismo ao seu redor. Abaixo, relembramos duas entradas em campo célebres, ocorridas nas oitavas de final da Libertadores de 2015. A festa que todos desejam que prevaleça também nestas semifinais.