Julian Lopetegui foi mais vítima das circunstâncias do que culpado por tudo que aconteceu, embora tenha sua parcela pela maneira como conduziu a situação, mas o que fazer quando, às vésperas de começar a Copa do Mundo no comando da seleção espanhola, chega aquela ligação que aparece apenas uma vez na carreira de um técnico: “quer treinar o Real Madrid?”.

Lopetegui disse sim, qualquer um diria sim, mas o timing não poderia ter sido pior. Desestabilizou o ambiente da seleção espanhola, causou sua demissão e Fernando Hierro comandou um trágico Mundial da campeã de 2010. Pelo menos ele ainda tinha o Real Madrid.

Mas não por muito tempo. O trabalho de renovação após três títulos europeus e a saída de Cristiano Ronaldo era tão difícil que Zidane preferiu ir embora a iniciá-lo. Durou três meses no cargo, e 14 partidas pelo Real Madrid foram tudo que recebeu em troca do sonho de comandar a Espanha em uma Copa do Mundo.

Não foi o melhor momento da vida de Lopetegui.

O mundo dá voltas, e no futebol elas são mais rápidas do que o normal, e menos de dois anos depois, o ex-goleiro conquistou o primeiro título da sua carreira ao vencer a Internazionale, por 3 a 2, nesta sexta-feira, na final da Liga Europa.

Teve o mérito de não pular imediatamente para um novo projeto e esperar uma boa proposta, que chegou no momento em que Monchi retornou da Roma para o Sevilla. O diretor armou uma lista com 25 nomes, segundo o New York Times, e identificou Lopetegui como o homem ideal para sentar no banco de reservas do seu novo projeto.

Lopetegui não havia chegado ao ápice da carreira, pulando de uma Copa do Mundo para o atual tricampeão europeu, à toa. Havia mostrado qualidades no Porto e na própria condução do ciclo da Roja. Seu conhecimento do futebol da Espanha e o histórico de trabalhar bem com jovens devem ter ajudado a convencer o Sevilla de que seria o nome certo.

Não tinha uma missão fácil pela frente porque Monchi havia decidido que o Sevilla precisava de uma revolução. Mandou mais de 20 jogadores embora, contratou mais de uma dúzia e deixou com Lopetegui o desafio de montar um time novo a partir de uma folha que não estava em branco apenas por causa de um núcleo mais experiente que permanecia no clube.

Não demorou muito para encontrar um caminho. Fixou Navas na lateral direita, formou a dupla de zaga com Diego Carlos e Jules Koundé. O meio-campo encaixou com Fernando, Joan Jordán e Banega,  que apresentou seu melhor futebol em muito tempo nesta temporada. O ataque teve mais indefinições. Ocampos foi o que mais atuou, mas Munir, Suso e Nolito se revezaram, e nenhum centroavante se firmou de vez.

Tanto que Lopetegui vinha usando Youseff En-Nesyri no comando de ataque nesta fase final da Liga Europa, mas preferiu um centroavante mais de ofício na decisão e foi recompensado com os dois gols de Luuk de Jong que empataram a partida antes da bicicleta de Diego Carlos selar o título do Sevilla.

E o primeiro da carreira de Lopetegui. Teve uma ascensão meteórica e uma queda ainda mais rápida, mas merecia a chance de recomeçar, escolheu bem onde fazê-lo e não a deixou escapar.

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