A história do Atlético Paranaense campeão da Copa Sul-Americana 2018 não começou com a vitória por 3 a 0 sobre o Newell’s Old Boys. Talvez o verdadeiro início, entre os descaminhos do destino, tenha desatinado em uma noite primaveril de 2006. Naquele ano, o Furacão disputou o torneio continental pela primeira vez. Eliminou o Paraná na primeira fase, até se encontrar com o River Plate nas oitavas de final. A vitória por 1 a 0 em pleno Monumental de Núñez abriu caminho à façanha. E em uma Arena da Baixada bem diferente da atual, o empate por 2 a 2 valeu a classificação grandiosa. Em campo, o saudoso Jancarlos foi decisivo, ao anotar os dois gols rubro-negros. Já nas arquibancadas, entre os muitos que comemoravam, estava um garoto de 14 anos que acabara de ingressar nas categorias de base do clube: Pablo, um dos heróis do título que rompeu barreiras nesta quinta.

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O Atlético ainda conquistou uma classificação maiúscula contra o Nacional de Montevidéu nas quartas de final daquela Sul-Americana de 2006, até a amarga eliminação para o campeão Pachuca nas semifinais. Pablo, em compensação, prosperou. O adolescente nascido e criado no interior do Paraná enfrentou as dificuldades de se mudar à capital. Encarou os desafios nas diferentes categorias de base do Furacão. Virou uma aposta da equipe principal, mas ainda assim precisou perseverar. Depois de figurar no time principal pela primeira vez em 2010, sua estreia aconteceu apenas na temporada seguinte, aos 19 anos. Precisou conquistar espaço aos poucos, em uma carreira de andarilho, mesmo que sempre tenha permanecido atrelada à Baixada.

Até deslanchar no Atlético, Pablo rodou. Atuou em diferentes funções, de lateral a meio-campista. Fez sucesso com o Figueirense na Série B de 2013. Ganhou uma oportunidade no Real Madrid Castilla, mas não vingou, encarando problemas físicos. Voltou ao Figueira, disputou a Série A, anotou mais alguns gols e ajudou a salvar a equipe do rebaixamento. Aventurou-se na segundona do Campeonato Japonês, treinado por Paulo Autuori no Cerezo Osaka, onde tinha a companhia de Cacau e Diego Forlán no ataque. E retornou de vez à Baixada em 2016, para finalmente se estabelecer como referência no ataque do Furacão.

Se o desenvolvimento de um centroavante costuma levar tempo, absorvendo os macetes da posição, o prata da casa exibe as marcas desta evolução. A leitura tática privilegiada, a versatilidade e o refinamento técnico. Depois de fazer um bom Brasileiro em 2016 e levar os rubro-negros à Libertadores 2017, ano este de dramas pessoais e críticas da torcida, o ápice de Pablo acontece mesmo neste 2018. Virou um dos protagonistas na eficiente equipe de Tiago Nunes, peça fundamental na engrenagem que se aprimorou.

Pablo virou o matador ideal a este Atlético Paranaense. Em um time que toca bem a bola e ataca com objetividade, nada melhor do que contar com um centroavante com presença física e que sabe explorar os espaços. A arrancada no Brasileirão contou bastante com o faro de gol do artilheiro, acumulando tentos entre agosto e outubro, principalmente. E na Copa Sul-Americana, ele seguiu atordoando as defesas adversárias. Deixou sua marca contra Newell’s Old Boys, Peñarol e Bahia. Também serviu assistências importantes. Por fim, estrelaria o time nas finais contra o Junior de Barranquilla.

As atuações de Pablo podem não ter sido tão arrasadoras assim. Mas impressionam pela eficiência quando o centroavante foi exposto a uma situação dolorosa. Lesionado, o matador foi para o sacrifício. Mesmo limitado, anotou o gol que garantiu o difícil empate na Colômbia. E faria mais na Arena da Baixada, nesta quarta-feira, ao abrir o placar. Um lance que resume a inteligência do centroavante em atacar os espaços, bem como sua frieza na finalização. A diferença poderia até mesmo ser maior, aliás. Pablo deu um chute cruzado perigosíssimo, que o goleiro Sebastián Viera salvou com a ponta dos dedos. O jovem de 26 anos seguiu em campo bravamente, até que o corpo não aguentasse mais, substituído já no primeiro tempo da prorrogação. Precisou ver todo o drama dos minutos finais e dos pênaltis a partir do banco de reservas. Espectador, em mais uma noite primaveril de torneio continental.

Festejado na saída de campo, Pablo homenageou a família. Relembrou principalmente os problemas de saúde enfrentados por seu pai no último ano – o que o levou a usar o número 5 na Sul-Americana, o mesmo que Seu Cícero vestia nas partidas amadoras na interiorana Cambé. Além do mais, Pablo também relembrou os tempos em que era só mais um nas arquibancadas, vibrando com os gols de Jancarlos contra o River Plate. O triunfo sobre o Junior, além de oferecer uma taça inédita aos rubro-negros, também permitirá o reencontro com os millonarios na Recopa Sul-Americana. Treze anos depois, Pablo terá a chance de unir passado e presente, Banda Roja pela frente. O complemento à história ele já escreveu.