As grandes despedidas no futebol acontecem quase sempre dentro de estádios. Casa cheia, bandeiras com o rosto do ídolo, placas comemorativas, fotos com a família. O aplauso nas arquibancadas coroa, eterniza, emociona. E foi um pouco disso que Danilo sentiu no sábado passado, quando disputou seu último jogo pelo Corinthians em Itaquera. O craque dos tempos de Pacaembu permaneceu adorado no novo palco dos sonhos alvinegros. Ganhou seu adeus, sem tantas pompas, mas bastante tocante. O meia, no entanto, ainda teria outra despedida junto aos seus. Esta sim mais recheada de presentes e ao mesmo tempo simples. Simples como Danilo. O CT Joaquim Grava foi seu lar por oito anos. Ele conhece os corredores como a palma de sua mão. Cumprimenta funcionários como velhos amigos, como de fato são. E certamente a sensação de vazio ocupa seu peito desde quinta, dia de abraços prolongados e lágrimas no rosto. É esta a rotina que o veterano deixa, a casa que sempre foi sua e sempre será enquanto houver um torcedor de braços abertos para agradecê-lo como eterno ídolo. Como o maestro que ajudou o Corinthians a ser ainda maior.

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Quando Danilo chegou ao Corinthians, em 2010, já tinha a sua trajetória estabelecida. Cria do Goiás, viveu alguns sucessos do clube na virada do século. Também deixou sua marca profunda no São Paulo, como um jogador importante nas conquistas inesquecíveis da Libertadores e do Mundial. E arrebentou no Kashima Antlers, tricampeão em uma das equipes mais dominantes da J-League em todos os tempos. Por seu passado tricolor, alguns corintianos poderiam torcer o nariz. Talvez até questionassem o perfil do meia, não exatamente o atleta carnal que os alvinegros costumam idolatrar. Aliás, nem era o mais badalado entre os reforços do centenário, quando Roberto Carlos, Tcheco e Iarley também o acompanhavam nas apresentações.

Depois de um primeiro ano pouco impactante, o sinal de que Danilo ainda não tinha caído no gosto da torcida veio na fatídica eliminação para o Tolima na Copa Libertadores. Como em outras tantas crises no Corinthians, os muros do clube amanheceram pichados. As principais “mensagens” iam para Tite, Ronaldo e Roberto Carlos. Mas o veterano não deixou de ser lembrado pelos revoltados. Por sorte, logo se esqueceriam da besteira. No segundo semestre, Danilo foi um dos protagonistas na conquista do Brasileirão de 2011. A quem duvidava sobre sua relação com o São Paulo, logo na sexta rodada ele teve uma atuação brilhante nos 5 a 0 pra cima do antigo clube. Seguiria orquestrando o meio-campo, dando passes decisivos. E, depois da inesquecível homenagem ao Doutor Sócrates no círculo central, ergueu a taça de campeão nacional. A primeira de muitas que levantaria com a camisa alvinegra.

Se aquela temporada já foi especial a Danilo, ele ainda teria uma nova chance na Libertadores. Seria um dos responsáveis por libertar o Corinthians naquela que se tornara a sua grande obsessão. Danilo foi titular nos 14 jogos daquela campanha. E o que fica não é a onipresença, não é a entrega, não é a regularidade. Não é sequer a categoria, essa virtude escancarada do meia. Mas sim o papel decisivo de quem assumiu a responsabilidade, jogando demais desde a fase de grupos. Dentre os quatro gols que anotou, o mais importante aconteceu na semifinal, contra o Santos, em um confronto delicadíssimo. Já na decisão, seria ele quem abriria o caminho para Emerson Sheik brilhar. Deu o passe para o primeiro gol no Pacaembu. Ajudou o time a jogar com eficiência. Sempre com seu perfil discreto, mas elegante e impressionantemente preciso.

A Libertadores foi o primeiro passo de Danilo à história do Corinthians. O segundo, aquele que o botou numa prateleira já de grandes ídolos, foi o Mundial de Clubes. O meia conseguiu se sair ainda melhor naqueles dois jogos no Japão. Foi gigantesco. Contra o Al Ahly, uma aula da inteligência fora do comum de Danilo. De sua capacidade tática. No lugar certo, na hora certa, ocupando o espaço necessário para o time fluir – suas artimanhas contra a tal “lentidão”. Vitória alcançada sobre os egípcios, mesmo que apertada, viria o maior desafio. Viria o Chelsea. Viria um Danilo implacável. Total dentro de campo para encarar os europeus e possibilitar a maior vitória da história do clube. Jogou de área a área, controlou a bola, ofereceu opção aos passes. Fez o time se encaixar, graças à sua função no meio-campo. Não deixou de dar combate. Até deslumbrou com seus dribles. E também teve sua parte no lance decisivo. Apareceu na área, limpou a marcação, bateu prensado. A bola subiu e ficou livre para Guerrero cumprimentar às redes. O mundo novamente era dele, e agora do Corinthians.

Por tudo isso, Danilo mereceria a gratidão eterna da Fiel. No entanto, os seis anos seguintes serviriam para que ele atingisse outro patamar como ídolo. Aquele que ganha muitos troféus, com menção especial à Recopa Sul-Americana, na qual usou a braçadeira de capitão e definiu a vitória sobre o São Paulo. Aquele que resolve jogos grandes, crescendo contra os rivais. Aquele que disputo 358 partidas, com 35 gols, 12 deles somente em clássicos. Mas também, e essencialmente, aquele que entrega a sua vida pelo clube. Que se dedica, que não reclama, que encara qualquer fase. Que se esforça ao máximo, mesmo que as limitações impostas por sua idade cobrem, e não permitam apresentar a assiduidade de outros tempos. Embora fosse uma espécie de 12° jogador no título brasileiro de 2015, a presença de Danilo em campo foi se tornando gradativamente mais rara desde 2014. Nada que encerrasse o trabalho incansável e incondicional de quem trata o centro de treinamentos realmente como a sua casa. Por isso sentia-se ali, no seu ambiente natural, como um companheiro de todos. Era o exemplo a se admirar.

Até parecia que a despedida gloriosa de Danilo aconteceria naquele jogo contra o Fluminense, que consagrou a campanha do título em 2017. Perseguido pelas lesões, o meia saiu do banco durante os minutos finais, substituindo Jô. Os aplausos ao craque do campeonato se estenderam ainda mais para agradecer àquele que já se tornara uma entidade no clube, uma instituição. Virava o jogador mais velho a atuar pelo Corinthians. Tinha sua parte no oitavo título desde então. Não seria aquele, porém, o último ato. O veterano perseverou. Ofereceu outras imagens memoráveis aos alvinegros. No Paulistão, os pênaltis nos clássicos também caíram sob sua responsabilidade e ele não decepcionou.

E se a torcida do Corinthians não teve Danilo por muitos momentos nas últimas temporadas, o teve por completo nos últimos, recuperando o seu auge. A vitória sobre o Bahia em outubro, na Arena, será daquelas lembranças indissociáveis quando se pensar no ídolo. Saiu do banco, arrancou os três pontos cruciais, anotou dois gols – e isso quando um pênalti poderia transformá-lo, veja só, em vilão. Depois de dois anos sem balançar as redes, e quase tanto tempo nem bem participando dos jogos, o craque viveu a sua noite. Completou o cruzamento para marcar o primeiro e, depois do malfadado ato que gerou o empate, apareceu na área para uma bicicleta gloriosa. A história de redenção. A artimanha do destino para coroá-lo num ato sublime. O corpo, cansado e limitado, foi capaz de se estirar ao máximo para a acrobacia mortífera. Aos 39 anos, sob a chuva, para lavar a alma.

Danilo seguiu entrando nos jogos do Brasileirão, mesmo sem novos gols. Também deve encarar o Grêmio neste final de semana, no confronto que fecha a campanha do time já a salvo do rebaixamento – muito graças àquela bicicleta. A entrada do veterano, que resiste a parar e seguirá em frente com outras cores, será uma maneira de transmitir o muito obrigado. E de mostrar que ele não desiste, que ele quer. Que ele pode honrar mais uma vez o escudo que levou no peito ao longo dos últimos nove anos, com a mesma sinceridade, com a mesma entrega, com o mesmo caráter. Com a personalidade que conquistou a torcida alvinegra, e não só ela, transformando-se em um símbolo respeitado por outras torcidas. O meia alcançou a proeza de ser admirado também pelos rivais. Méritos de seu futebol, de sua autenticidade.

No último treino, afagos dos companheiros. De presente, a foto ampliada do jogo contra o Bahia. A entrevista final, ao lado da família. A humildade inescapável: “Minha história é muito bonita. Não sei se posso falar que sou ídolo, mas saio com a sensação de dever cumprido”. Se as palavras do meia não admitem o evidente, o pensamento dos torcedores não mente. Danilo não apenas foi ídolo, como também se coloca entre os maiores. Termina como um dos principais símbolos da era mais vitoriosa do clube. A Libertadores, o Mundial, os Brasileiros: tudo está lá, na sala de troféus, para não deixar dúvidas. Para reluzir a figura do maestro. O Zidanilo que tratou tão bem a bola e os seus torcedores. Será tratado assim, eternamente, por quem reconhece talento e coração.

As fotos são de Daniel Augusto Jr., da Agência Corinthians