Os olhos marejados durante a entrevista escancaravam a emoção, diante o momento que se viveu na Arena Condá. Danilo falava aos microfones como o herói de um jogo de futebol. Naquele instante, porém, ele já tinha se eternizado como uma entidade viva em Chapecó. Um monumento que se ergueu sob as traves. O que o goleiro fez diante do San Lorenzo merece não apenas a chave da cidade, e sim o cargo vitalício de prefeito, ato justo ao homem que proporcionou à toda a população o momento mais reluzente de sua história. A Chapecoense está na final da Copa Sul-Americana graças ao 0 a 0 contra o Ciclón, suficiente após o 1 a 1 em Buenos Aires. O Verdão do Oeste, o time do interior que sequer estava nas divisões nacionais há oito anos e lidava com o risco de queda no estadual. Nesta quarta, o oeste de Santa Catarina se torna o epicentro do futebol no continente. Um terremoto que durará mais algumas semanas, venha a taça ou não.

O épico vivido pela Chapecoense possui diversas capas. Pode ser contado de diversas maneiras. É o time desconhecido da maioria do país até pouco tempo, que se impõe diante de um gigante continental. É o clube que vem em uma ascensão fulminante e não vê limites, seja para subir pelas quatro divisões do Brasileirão em seis anos e dar um passo a mais também além das fronteiras. É a humildade de uma gestão consciente da pequenez, e nem por isso fadada à modéstia. Mas é, sobretudo, a valentia. A coragem de peitar cada adversário com o mesmo vigor. Algo que toma as arquibancadas e se espalha também dentro de campo, em cada um dos jogadores, enfrentando qualquer dividida como uma verdadeira batalha. O suor que qualquer torcedor deseja ver em seu próprio time, e admira qualquer que seja a camisa.

Nesta quarta, a Chapecoense esteve distante de apresentar seu melhor futebol. Poucos foram os lances de perigo do time da casa. No entanto, o caráter valeu demais ao time de Caio Júnior, mesmo que suas principais referências na linha não se destacassem individualmente. A forma como o time se entregou, mantendo a disciplina tática, dando todas as energias, não esmorecendo por nenhum minuto. O San Lorenzo pressionou, criou mais oportunidades, foi melhor com a bola. Mas não venceu. Porque, do outro lado, prevaleceu o esforço da Chape em busca da decisão histórica. E porque, na meta da Arena Condá, havia Danilo em uma noite iluminada.

O jogo era amarrado e o San Lorenzo tinha pressa, pelo placar desfavorável. Precisava de qualquer maneira do gol e começou com a bola. Porém, a Chape se defendia com excelência. Já aos 19 minutos, na primeira vez em que foi exigido, Danilo apresentou suas credenciais, com uma boa defesa. A partir de então, o Verdão começou a se soltar mais. Vez por outra ameaçava no ataque. Chegou até mesmo a marcar um gol, com Thiego. O êxtase tomou o corpo do jogador na comemoração, a ponto de não perceber que o tento havia sido anulado pela arbitragem. No mais, em outra chegada, Torrico espalmou bem para manter o zero no marcador.

No segundo tempo, Danilo tomou a meta onde já tinha sido beatificado contra o Independiente, e ganhou sua canonização com os novos milagres. Mesmo quando não pôde fazer nada, a trave o salvou. Aquele mesmo era o seu dia. No abafa do San Lorenzo, o camisa 1 fez sua primeira grande intervenção saindo nos pés de Cauteruccio. Com a entrada de Lucas Gomes, a Chape melhorou sua presença ofensiva e começou a responder à altura. De qualquer maneira, o Ciclón não desistiria. Quando o relógio quase batia 49, completando os acréscimos dados pelo árbitro, houve uma chance de levantar a bola na área. Ela sobrou limpa para Blandi fuzilar. E para Danilo salvar com as pernas. Ali, a certeza de que nada derrubaria a Chapecoense se confirmou. Instantes depois, o apito final só tornou mais eloquente a loucura que tomava a Arena Condá.

A torcida da Chapecoense, aliás, merece um destaque à parte. Porque, afinal, não é uma mera torcida. É uma população que vê o orgulho por suas origens se materializar em campo. Não à toa, a comoção tomou as ruas ao longo de toda esta quarta-feira. A festa para a recepção do time nos arredores da Arena Condá foi imensa. Já nas arquibancadas, 17.569 eram os representantes de 210 mil habitantes de Chapecó. Ou até mais do que isso, diante da forma como o clube conquistou admiradores em diversas partes do Brasil. Estes escolhidos ofereceram o seu grito durante os noventa minutos. Não perderam a voz, para berrar ainda mais alto quando a classificação se confirmou.

Chapecó não dorme esta noite. Ninguém quer deixar a festa. Ninguém deseja fechar os olhos, pegar no sono e começar literalmente a sonhar. O sonho acordado, tão verdadeiro que até parece inacreditável, de olhos bem abertos e vidrados naquele time que veste verde, já tem sido bom demais para correr-se o risco de qualquer interrupção ilusória da mente. O carnaval fora de época, em que todos se fantasiam de índio, segue em frente até o começo de dezembro. Seja em Medellín ou em Assunção, ou seja mesmo em outro estádio que não a Arena Condá por causa da capacidade mínima exigida, há um compromisso com a própria identidade. Há a esperança de que a Chapecoense ainda vá além. Ímpeto e valentia nunca faltaram. É o que empurrou o time a encarar tantos gigantes, do Brasil ou de fora, sem temer. É o que coloca a Chape às margens de uma façanha para ser contada por anos e anos, não só no interior de Santa Catarina. Também em todo o continente.