A lateral direita talvez seja uma das posições mais críticas da seleção brasileira rumo à Copa do Mundo. Que Daniel Alves tenha feito algumas partidas abaixo da média na temporada com o Paris Saint-Germain e que não seja um poço de segurança defensiva, ele sobrava na posição. Nome incontestável na convocação e entre os titulares, por tudo o que oferece, mesmo aos 35 anos. E que também despontaria para ser o capitão nas partidas mais importantes, como aconteceu em amistosos de peso em meio à rotação da braçadeira proposta por Tite. A notícia de que o camisa 2 não viajará à Rússia, divulgada por vários veículos nesta sexta-feira, após a lesão sofrida pelo veterano contra Les Herbies na final da Copa da França, cai como um duro golpe. E em diferentes aspectos.

As dúvidas para Tite são óbvias, quando pouco se buscou alternativas ao setor. Quem levar à Copa do Mundo? Quem será o titular? As opções até existem, mas muito distantes de provocar a satisfação como Daniel Alves. Fágner supriu a ausência do veterano algumas vezes e possui uma característica mais associativa com os meio-campistas, mas não goza da confiança de muita gente. Danilo também teve os seus momentos no Manchester City, e talvez esteja um passo à frente pelo posto, só que foi um coringa de Pep Guardiola e nem sempre demonstra a consistência necessária. Rafinha tem experiência com o Bayern de Munique, apesar de ter sido pouco testado na Seleção, e de ficar marcado pelo erro capital na Liga dos Campeões. Alguém mais corre por fora? Fabinho poderia ser uma cartada tardia? Vale a pena investir na adaptação de alguém da lateral esquerda? Vale reposicionar Marquinhos, que tantas vezes atuou pelo lado direito, e talvez liberar mais Marcelo pela esquerda? Há tempo a uma mudança tática?

A perda de Daniel Alves é pesada à seleção. Em contrapartida, a perda da Copa do Mundo também é pesada à carreira de Daniel Alves, a analisando como um todo. Podem dizer que a sua história vitoriosa não depende de um grande Mundial para colocá-lo entre os maiores, o que é um fato. O que ele protagonizou principalmente com Sevilla e Barcelona, um pouco menos com Juventus e Paris Saint-Germain, fala por si. Mas não que uma Copa bem jogada não fosse um lustre valioso a uma trajetória tão brilhante. Apesar de tudo, é algo que provavelmente acabará faltando ao camisa 2.

Daniel Alves tem 12 anos de Seleção. Tem mais de cem jogos pela equipe nacional. Entretanto, se for para listar, quais seriam os seus melhores momentos? A decisão da Copa América em 2007, na qual o Brasil arrebentou a Argentina, só que acaba marcando um período agridoce sob as ordens de Dunga? A Copa das Confederações de 2009, na qual outra vez foi decisivo, mesmo jogando fora de posição nas poucas participações, ou a Copa das Confederações de 2013, em uma campanha afirmativa de quase todos na Seleção? Eliminatórias que, por mais importantes que sejam, não tem um apelo tão grande entre a torcida? Nas duas Copas do Mundo em que jogou, afinal, o lateral ficou abaixo do que é e do que poderia ter sido.

Em 2010, não há muito questionamento, Maicon era absoluto na posição. Daniel Alves se tornou uma carta na manga, saindo do banco nos dois primeiros jogos, até se tornar o substituto de Elano no meio-campo. Não foi tão preponderante como se via no Barcelona, onde era peça-chave no esquema de Pep Guardiola. Em 2014, mais quatro jogos para Dani, que começou como dono da lateral direita durante a fase de grupos, mas entrou em campo pela última vez na agônica batalha contra o Chile. Embora fosse titular durante toda a era Felipão, as atuações ruins o levaram ao banco de Maicon, que já não era o mesmo de outros tempos. De fora, assistiu à humilhante eliminação.

Após o 7 a 1, aliás, Daniel Alves ganhou protagonismo pela maneira como se portou. O que pode ser visto como uma “saída em defesa do grupo” também rendeu uma porção de declarações arredias, que pouco ajudavam. Em suas redes sociais, chamou de “babacas” e “perdedores da vida” aqueles que faziam chacota ou se alegravam com o revés contra a Alemanha. Já diante dos microfones, quase um ano depois, afirmou não aceitar que ninguém falasse, criticasse ou tivesse opinião sobre o dia fatídico. “Só quem viveu pode falar, pode sofrer ou não sofrer. O resto vai opinar sempre à distância. Não adianta vir falar que ‘o Brasil sofreu’… Quem mais sofreu fomos nós mesmos”, garantiu.

A aspereza não se transformou em ressentimento a Daniel Alves. Pelo contrário, o período de Tite talvez tenha sido o melhor do lateral na Seleção. Não necessariamente em forma física ou nível de atuações, mas sim pelo respeito que desfrutava, com um técnico que soube carregar a história do veterano para dentro do ambiente. Ele se mostrava uma liderança importante e colecionou algumas boas partidas no apoio, com passe livre para impor o seu jogo pelo lado direito do campo. Uma das variações do time ao longo das Eliminatórias e que não se repetirá justo no momento mais decisivo, a Copa do Mundo.

Daniel Alves não fica menor sem o Mundial, o terceiro de sua carreira. No entanto, ao mesmo tempo que pode se alçar a um panteão raro de laterais históricos do Brasil (Djalma Santos, Carlos Alberto, Nelinho, Leandro, Cafu) por aquilo que fez em seus clubes, a falta de uma grande Copa serve de argumento aos críticos. Dani não é pior que Josimar por isso, por exemplo. Mas a quem já conquistou tudo na vida, faltou um pouco mais de brilho no maior dos palcos. Esta, aparentemente, seria a ocasião ideal.

Não se imagina que a notícia vá abalar a altivez de Daniel Alves, motivo de amor e ódio a quem vê. Não se duvida que ele possa até se aproximar do restante do elenco durante a Copa, dada a sua ligação com boa parte dos jogadores. Só que este é o golpe que muitos não gostariam de ouvir, sobretudo ele. Em uma Copa de expectativas altas ao Brasil, mesmo que não faturasse o título, esta poderia ser a grande chance de deixar uma boa impressão definitiva com a camisa amarela, que reconhecesse o jogadoraço que foi. Agora, 2022 parece distante demais.


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