Às vésperas de mais uma semifinal de Libertadores entre Boca Juniors e River Plate, só um assunto é capaz de romper o monopólio do Superclássico nas manchetes argentinas: Maradona. E eis que, em uma jogada ousada, o Gimnasia de La Plata exibe seu jackpot no noticiário. Depois de alguns desmentidos e muita especulação, o Lobo apresentou Diego como o seu novo treinador. A pouca aptidão do veterano na casamata nem entra tanto em conta neste primeiro momento. Afinal, é Maradona de volta à Argentina, dirigindo um clube do país pela primeira vez em mais de duas décadas. Não há qualquer garantia de um bom final aos platenses. Entretanto, será uma grande história a se acompanhar.

Maradona não possui grandes feitos como treinador. Dirigiu os seus primeiros times quando ainda não havia se aposentado dos gramados, mas não podia atuar por causa da suspensão por uso de efedrina. A primeira aventura aconteceu pouco depois da Copa de 1994, à frente do Mandiyú de Corrientes – clube da elite impulsionado pelo apoio de um deputado. Venceu apenas um jogo, em 12 que disputou, abandonando a equipe dois meses depois, também com uma série de brigas com os dirigentes. O Mandiyú seria rebaixado à segunda divisão naquela temporada. Ainda assim, Maradona recebeu outra proposta pouco depois e assumiu o Racing, em tempos de vacas magras da Academia. Conseguiu vencer dois jogos e deixou o cargo depois de 11 compromissos.

Foram 13 anos sem que Maradona assumisse outra equipe, até chegar ao comando da Argentina em 2008. A passagem tão apaixonada quanto trepidante não foi exatamente um sucesso. Depois das claudicantes Eliminatórias, em que a Albiceleste chegou a engolir a goleada por 6 a 1 contra a Bolívia, o time se classificou à Copa de 2010 na bacia das almas e fez uma morna campanha na África do Sul, goleado pela Alemanha nas quartas de final. Desde então, os trabalhos de Diego se sustentam por seu nome em mercados alternativos. Dirigiu os emiratenses do Al Wasl entre 2011 e 2012, com 32% de aproveitamento. Teve um pouco mais de felicidade com o Fujairah, também dos Emirados Árabes, e melhorou seu rendimento com 52% dos pontos.

Já o período mais consistente é mesmo o mais recente, no Dorados de Sinaloa, que brigou por acesso à primeira divisão do Campeonato Mexicano. A parceria perdurou por nove meses e Maradona deixou o cargo em junho, dizendo priorizar a saúde. Precisava passar por duas cirurgias e permaneceu de molho nos últimos dias, por causa de uma operação no joelho. Não à toa, diante do rumor sobre o compromisso com o Gimnasia, Diego postou um vídeo em que demonstrava como está apto novamente a caminhar.

Maradona é mais um personagem que um treinador. O Gimnasia deve ter consciência do movimento que faz. A importância de Diego é mais pela aura que oferece e também pela forma que pode motivar seus jogadores. Entretanto, o veterano também possui sua vida intensa e seus próprios entraves pessoais. Apesar da visibilidade que ganha, o Lobo também aposta que o gênio de Maradona não deixará um saldo negativo e que ele poderá desempenhar um bom trabalho, por mais que esse não seja o seu padrão.

Ao menos, em um aspecto a contratação de Maradona já deu certo: a repercussão. O assunto causou grande impacto na Argentina e o craque domina as páginas de esportes pelo país. Antes que o acerto fosse oficializado, torcedores saíram às ruas de La Plata para manifestar seu apoio e, depois, filas de sócios se dirigiram à sede do clube. É natural que o Gimnasia receba mais atenção, especialmente de fiéis fãs do veterano que peregrinarão a La Plata. Ainda assim, a questão tende a ser mais profunda.

O Lobo aposta que Diego poderá atrair patrocinadores e melhorar sua situação financeira, o que é uma faca de dois gumes. Há problemas estruturais básicos que precisam ser resolvidos. Além disso, dentro de campo, a situação é péssima. Os platenses conquistaram um ponto em cinco rodadas no Campeonato Argentino. Ocupam a última colocação no promédio, que determina o rebaixamento. Isso para não falar da famosa seca de títulos na liga que dura desde o início do profissionalismo na Argentina. Maradona precisará trazer consigo também os resultados.

O Gimnasia ofereceu contrato de um ano para Maradona. Além do salário, o craque ganha uma casa próxima do centro de treinamentos do clube. Seu assistente será Sebastián “Gallego” Méndez, que treinou San Lorenzo e clubes médios do país, como Banfield e Belgrano. Por enquanto, a recuperação da cirurgia no joelho deve limitar as primeiras participações de Diego, mas sua apresentação acontecerá já no domingo, com direito a treino aberto – algo pedido pelo próprio craque. A expectativa é de casa cheia para a atividade. Já a estreia acontecerá contra o Racing, no próximo dia 15.

Há quem já chame o período de “A Revolução Maradona”. O craque é felicitado por muita gente na Argentina e antigos companheiros deram as boas vindas no retorno ao país. Resta saber qual será o efeito verdadeiro de toda esta badalação. Em carisma, sem dúvidas, o Gimnasia ganha demais. Parece pouco para resolver outros entraves. Se havia uma aposta para tentar alavancar o clube de alguma forma além do futebol, Diego era mesmo uma aposta válida. Só não dá para esquecer a importância do que acontece em campo.

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