Um chutão, uma dividida polêmica, um chute leve, com efeito suficiente para matar a goleira adversária. Uma atleta às vezes não precisa de muito para se tornar uma heroína, e esse foi o destino de Dagny Mellgren, eternamente lembrada pelo gol que deu à Noruega o título nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, a única medalha de ouro da equipe que por uma década dividiu com os Estados Unidos a condição de bicho-papão do futebol feminino.

Em 1991, na primeira Copa do Mundo das mulheres, na China. As norte-americanas venceram as norueguesas por 2 a 1 na decisão. Quatro anos mais tarde, na Suécia, a Noruega deu o troco, batendo os EUA por 1 a 0 na semifinal — o título viria contra a Alemanha. Em Atlanta-1996, na estreia das mulheres nos Jogos Olímpicos, novo encontro nas semifinais e vitória americana por 2 a 1, na prorrogação.

Em 1999, no Mundial dos Estados Unidos, desenhou-se a partir dos jogos da primeira fase a hipótese de um novo encontro na decisão, mas a China acabou com a brincadeira, demolindo por 5 a 0 as “Grasshoppers” (numa tradução literal, o apelido do time norueguês seria, isso mesmo, “gafanhotas”, palavra que como sabemos não é usada em português). A seleção nórdica, em frase de transição, ainda perderia o terceiro lugar para o Brasil, nos pênaltis.

Essa fase de transição incluía, com a camisa 15, uma pequena atacante, ágil e com faro de gol, chamada Dagny Mellgren. Nascida em Stavanger, em 19 de junho de 1978, ela passou pelas categorias de base da seleção e já tinha rodagem na liga nacional quando passou a ser convocada para a equipe principal. No Mundial, saiu jogando contra o Japão, na última partida da primeira fase, quando o técnico Per-Mathias Hogmo fez alguns testes, e entrou em outras três, inclusive contra o Brasil, mas não chegou a bater pênalti. Ao massacre diante da China, assistiu apenas do banco de reservas.

Mesmo assim, o saldo não foi totalmente negativo: como a melhor seleção europeia daquele Mundial, a Noruega garantiu uma vaga na Olimpíada de Sydney, o que garantiu ao treinador continuar trabalhando na renovação do time. Mellgren foi ganhando mais espaço, e cavou de vez uma vaga de titular ao marcar os três gols numa vitória por 3 a 0 sobre a China, na semifinal da Copa do Algarve, em março de 2000. Nem uma nova derrota para os Estados Unidos na decisão, por 1 a 0, desanimou a atacante, que agora vestia a camisa 14 e se mostrava incansável em campo. Um sinal positivo veio em 30 de julho, num amistoso em Oslo contra as americanas: Mellgren abriu o placar, e a Noruega venceu por 2 a 1.

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Mas a tabela dos Jogos de Sydney, com apenas oito seleções, era ingrata, e reservou um novo clássico já na primeira rodada, em 14 de setembro, véspera da cerimônia de abertura. Com gols de Tiffany Milbrett e Mia Hamm, 2 a 0 para as ianques e sinal amarelo para as nórdicas, que no outro jogo viram a China bater a Nigéria por 3 a 1.

Três dias depois, Mellgren abriu caminho para que a Noruega igualasse o 3 a 1 sobre as africanas, mas a China arrancou um empate por 1 a 1 contra os Estados Unidos e passou a jogar por outro empate na última rodada contra as europeias – o mata-mata chegou mais cedo. Pettersen abriu o placar no começo do segundo tempo, e Mellgren em seguida saiu. A China empatou com a estrela Sun Wen, mas três minutos depois a Noruega voltou à frente com Haugenes – justamente a substituta de nossa heroína.

O segundo lugar na chave jogou a Noruega no caminho da Alemanha. O jogo das semifinais foi duro e de novo o técnico trocou Mellgren por Haugenes no começo da etapa final. O gol da vitória norueguesa veio aos 35 minutos, marcado contra pela zagueira Tina Wunderlich.

No dia da final, não foi surpresa quando Per-Mathias Hogmo decidiu escalar Haugenes desde o início. Do banco, Mellgren viu Milbrett abrir o placar aos cinco minutos de jogo do seu jeito favorito: recebendo livre na entrada da pequena área depois de Mia Hamm driblar um exército de norueguesas. O empate veio só aos 44, com a zagueira Espeseth escorando um escanteio cobrado por Riise. No equilibrado segundo tempo, a Noruega passou à frente num lance fortuito, aos 32: Lenn avançou pela direita e cruzou da intermediária; a goleira Mullinix saiu mal, praticamente tirando a zagueira Fawcett da jogada; Gulbrandsen saltou e resvalou na bola, que ainda raspou em suas costas antes de entrar mansamente no gol vazio.

Foi só depois disso que Mellgren entrou, aos 38, no lugar de Pettersen, com a missão de segurar a bola no ataque. Mas aquele time norte-americano, além de excelente, era teimoso feito o cão. Aos 46, Mellgren tentou puxar um contra-ataque, mas o passe foi interceptado. A bola em questão de segundos foi parar na ponta direita, onde Hamm tirou da cartola um cruzamento na medida para a baixinha Milbrett, a autora do gol do título em Atlanta, aparecer de surpresa e empatar.

A morte súbita fez os dois times jogarem de forma hesitante a prorrogação. Muitos chutões, algumas divididas fortes, nenhuma chance clara de gol. Então, perto 11 minutos, Riise manda a bola por cima em busca da camisa 14, só que o passe sai alto demais e Mellgren não alcança; Fawcett corta de cabeça, mas a bola bate no braço da norueguesa, que descia de seu salto, e sobra em perfeitas condições para o chute, que sai com a força mínima necessária para vencer Mullinix. A goleira ainda chega a encostar na bola, mas não consegue evitar o gol de ouro da Noruega.

Dagny Mellgren marca o gol da vitória da Noruega em Sydney 2000 (PEDRO UGARTE/AFP via Getty Images)

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, em tempos de VAR e de regra que anula qualquer lance de bola na mão de atacante, mesmo que não intencional, fatalmente o gol de Mellgren seria anulado e o jogo prosseguiria até a decisão por pênaltis. A jogada foi tão rápida (o vídeo acima não mostra nem sequer o replay, que pode ser visto apenas na íntegra do jogo disponível no Olympic Channel) que, na hora, as estupefatas norte-americanas nem sequer conseguiram reclamar, embora até hoje o lance seja visto por lá como irregular.

Mellgren depois jogou nos Estados Unidos por três anos, defendendo o Boston Breakers na WUSA, a primeira e mal-sucedida tentativa de liga profissional no país. Lá, foi treinada por Pia Sundhage, hoje técnica da Seleção Brasileira. Seguiu defendendo as “gafanhotas” até 2005, chegando inclusive a ser capitã da equipe, saindo de cena com a ótima marca de 49 gols em 95 partidas.  No mesmo ano, deixou de vez o futebol, despedindo-se da liga norueguesa com a camisa do Klepp, a mesma em que começou a carreira. Aos 27 anos, disse que estava cansada das lesões e da rotina de jogos, e que preferia se dedicar a “outras coisas”.

Agora, aos 42, Dagny reaproximou-se do futebol para treinar a filha, Lea, e mais um elenco com cerca de 50 pré-adolescentes. A herdeira joga nas ligas infantis e já fala em ser “tão boa quanto a mãe, quem sabe melhor”. A conferir: quem sabe o que novos chutões para o alto não podem reservar a essa família?