Por seu poderio financeiro e pela capacidade de suas contratações, o México possui uma das ligas nacionais mais competitivas da América Latina. Não à toa, os clubes do país dominam completamente a Concachampions e costumam fazer frente às outras potências continentais no mercado de transferências. A Liga MX, entretanto, não está isenta de problemas graves que atingem o futebol (e a sociedade) em vários cantos do planeta. E a rodada deste final de semana foi particularmente tumultuada nos estádios mexicanos. Entre protestos frustrados e cenas de violência, o campeonato viveu uma jornada caótica.

O caso mais repercutido aconteceu na sexta-feira, quando Veracruz e Tigres se enfrentaram no Estádio Luis de la Fuente. Alguns jogadores e funcionários dos Tiburones Rojos estão há sete meses sem receber seus salários. Existem relatos de roupeiros dormindo sob as arquibancadas, enquanto os filhos de alguns atletas saíram de suas escolas por falta de pagamentos. O elenco do Veracruz estava disposto a não entrar em campo, o que poderia causar a exclusão do clube. Concordaram em pisar no gramado e, sob acordo com a Associação Mexicana de Futebolistas (AMXPro), decidiram permanecer parados durante os primeiros minutos. O problema é que, mesmo sabendo da situação, o Tigres não foi compreensivo e balançou as redes dos adversários.

Foram dois patéticos gols do Tigres enquanto os jogadores do Veracruz estavam de braços cruzados. Os felinos até pareciam entender a situação e começaram a tocar a bola. Entretanto, demonstraram enfado depois de pouco tempo e Eduardo Vargas bateu às redes vazias para abrir o placar. O jogo recomeçou e, na sequência, André-Pierre Gignac ampliou aos visitantes. Os atletas dos Tiburones Rojos resolveram jogar apenas depois disso, com quatro minutos de protesto. Vargas marcou o terceiro aos oito minutos, enquanto Kazim descontou ao Veracruz no final, fechando o placar em 3 a 1. Durante a saída de campo, os jogadores do Veracruz aplaudiram ironicamente os adversários e se queixaram da falta de solidariedade. Os torcedores, também insatisfeitos, atiraram objetos contra os visitantes.

Por conta do acerto com a AMXPro, outros clubes mexicanos ficaram de braços cruzados durante o primeiro minuto de seus jogos. Duelos como Pumas x León e Monterrey x Chivas Guadalajara ofereceram seu apoio aos jogadores do Veracruz. Os torcedores compreenderam a situação e aplaudiram nas arquibancadas. Porém, não foram todas as equipes que se dispuseram a protestar. Segundo a imprensa mexicana, a diretoria do América proibiu que o mesmo acontecesse no início da partida ante o Necaxa.

Publicamente, membros de diferentes equipes também questionaram o posicionamento do Tigres. “Você precisa ter empatia com os demais, não só no futebol, mas na vida em geral. Por essa situação é que ocorrem muitas injustiças no mundo. Na sexta, tínhamos a oportunidade de mostrar que o futebol é feito de respeito e honra, bem como de solidariedade e empatia, mas não ocorreu assim. Se você não ajuda para que as condições sejam melhores, está do lado contrário”, opinou Oribe Peralta, atacante do Chivas, ao se referir aos felinos.

O Veracruz, enquanto isso, seguirá o seu calvário. Lanterna do Apertura, com apenas quatro pontos em 13 rodadas, o time não vence um jogo pelo Campeonato Mexicano desde agosto de 2018. Deveria ter sido rebaixado na temporada passada, mas conseguiu a permanência após pagar uma compensação financeira à Liga MX – algo vergonhoso que se permite no país. Já Fidel Kuri, dono do clube desde 2013, acumula escândalos com os Tiburones Rojos.

Em 2016, Kuri foi suspenso por um ano após agredir Edgardo Codesal, juiz da final da Copa de 1990, que chefiava a arbitragem no país. Após voltar às atividades, colecionou calotes. Chegou a dizer publicamente que não pagaria as dívidas com o ex-técnico Guillermo Vázquez, assim como levou o time a perder pontos por não pagar a contratação de Matías Santos junto ao Montevideo Wanderers. O dirigentes também já ameaçou tirar os Tiburones Rojos de sua região, caso seu candidato favorito não vencesse as eleições locais, e até recebeu favorecimentos do antigo governador de Veracruz, que atualmente se encontra preso.

A federação mexicana não toma as atitudes necessárias contra Kuri e também deixa a desejar em seu trato com os jogadores. Há no país uma “Comissão de Controvérsias”, cujo encarregado foi se encontrar com os jogadores do Veracruz na última semana. Os atletas, entretanto, precisavam apresentar provas dos atrasos, o que não aconteceu por seus acordos verbais com a diretoria dos Tiburones Rojos. Nos próximos dias, a Comissão de Controvérsias voltará a viajar para Veracruz na tentativa de solucionar o caso. A federação disponibilizará 18 milhões de pesos mexicanos (cerca de US$940 mil) para atenuar a crise.

Violência nas ruas e nas arquibancadas

Enquanto muito se discutia sobre a solidariedade ao Veracruz, porém, o Campeonato Mexicano enfrentou outras situações graves relacionadas à violência. Na última quinta-feira, parte da população do país mergulhou em horas de terror. A prisão de Ovidio Guzmán López, filho do narcotraficante El Chapo, levou o Cartel de Sinaloa às ruas da cidade de Culiacán. Para forçar a libertação do criminoso, pego pelo exército do país, a organização realizou tiroteios e bloqueios. O governo não conseguiu conter a violência e optou por libertar Guzmán López, temeroso pelas mortes de inocentes. Diante do tumulto, era natural que o futebol na região fosse suspenso.

Principal time de Sinaloa, o Dorados teve a sua partida contra o Atlante adiada. O duelo, válido pela segunda divisão, deveria acontecer na própria quinta-feira. Os jogadores de ambos os clubes estavam hospedados em hotéis próximos à zona de terror e, segundo os relatos da imprensa mexicana, também conviveram com o medo. Todavia, alguns também menosprezaram o caos. Goleiro do Dorados, o argentino Gaspar Servio postou vídeos em suas redes sociais tirando sarro dos tiroteios. A torcida passou a exigir sua saída do clube e a diretoria abriu uma investigação. Em resposta, o arqueiro justificou que foi “hackeado” e prestou condolências às famílias das vítimas.

Já neste domingo, outra região do país seria marcada pela violência, desta vez nas arquibancadas. Atlético San Luis e Querétaro possuem torcidas rivais, em jogo considerado de risco no Campeonato Mexicano. No entanto, apenas mil policiais foram deslocados a fazer a segurança na partida, menos da metade do número geralmente designado a clássicos na Cidade do México. Não conseguiram conter a briga generalizada que aconteceu no Estádio Alfonso Lastras Ramírez.

A batalha entre as torcidas cresceu a partir do segundo tempo e teve seu estopim aos 38 minutos, quando o Querétaro vencia por 2 a 0. Torcedores visitantes partiram para cima do setor onde estavam os apoiadores do Atlético San Luis e centenas de pessoas precisaram se abrigar dentro de campo – inclusive mulheres e crianças. Além disso, diversos objetos foram atirados em direção ao gramado e ao setor adversário das tribunas. Os jogadores se refugiaram nos vestiários, sem encerrar o jogo. Ao todo, 33 pessoas ficaram feridas, algumas delas retiradas de ambulância. Apesar dos rumores, a polícia negou que a existência de uma vítima fatal.

Nesta segunda-feira, os dirigentes do Atlético San Luis vieram a público para assumir as responsabilidades em uma coletiva de imprensa. Por mais que a própria polícia aponte que a violência começou entre os visitantes, o clube declarou que deveria ter feito um planejamento melhor e aceitará qualquer tipo de punição. “Cumpriremos com toda a responsabilidade para que sirva como precedente ao futebol mexicano. Estamos preparados a qualquer tipo de castigo, porque isso não pode se passar no Alfonso Lastras ou em qualquer estádio do mundo”, afirmou o presidente Alberto Marrero.

Já o técnico do Querétaro, Victor Manuel Vucetich, não foi nada feliz em suas declarações. Disse que seu clube não deveria ser punido, pela condição de visitante, e apontou que “isso não é mais grave que em Culiacán”, comparando a briga nas arquibancadas com o terror ocorrido em Sinaloa. Falta de tato que não se viu entre os seus jogadores. Curiosamente, antes que a bola rolasse em San Luis Potosí, os dois times permaneceram parados em apoio aos colegas do Veracruz. De uma forma ou de outra, todo o caos se interligou.