O objetivo claro de qualquer equipe que sobe da segunda divisão é garantir a permanência na elite. Há todo um processo de readequação do elenco, mesmo que venha de uma temporada vitoriosa, e de readaptação ao novo nível. Extrapolar tal objetivo e fazer uma campanha segura, longe do risco de um novo descenso, já soa como uma vitória. E o Granada encerrou La Liga com uma verdadeira conquista, ao coroar seu excelente desempenho no retorno à primeira divisão com a classificação à Liga Europa. Um feito inédito e que premia uma temporada consistente como um todo dos andaluzes.

Clube com sua tradição entre a primeira e a segunda divisão desde os primórdios de La Liga e com boas aparições na elite durante a década de 1970, o Granada viveu um processo de apequenamento nos anos 1980. Acostumou-se com a terceirona, até cair à quarta divisão em 2002/03. Os rojiblancos atravessavam um difícil momento em suas finanças e correram riscos de bancarrota, até que a chegada de Gino Pozzo (dono da Udinese) marcasse o renascimento a partir de 2009. Os andaluzes conquistaram dois acessos consecutivos e voltaram à primeira divisão em 2011, com campanhas modestas, mas suficientes para mantê-los por seis anos consecutivos na elite.

Cabe lembrar que havia uma promessa de virada no Granada em 2016, quando o empresário chinês Jiang Lizhang chegou ao controle do clube. Os andaluzes fizeram investimentos altos e várias contratações, sobretudo através de empréstimos. Apesar disso, não conseguiram evitar o rebaixamento e fecharam La Liga 2016/17 na lanterna, retornando à segundona. Logo ficou claro aos novos investidores que um caminhão de dinheiro não bastaria e que seria preciso paciência para colher os frutos. Assim seria, especialmente depois que os rojiblancos sequer se classificaram aos playoffs de acesso em 2017/18. Ao menos, o elenco remodelado com novas peças trazidas a custo zero seria preservado à campanha seguinte, com adições pontuais.

O mérito do Granada esteve em acertar no seu projeto esportivo. E nisso tem peso a escolha de Diego Martínez como novo treinador a partir do segundo semestre de 2018. O galego de 37 anos tinha sua experiência resumida basicamente aos bastidores do Sevilla, trabalhando como assistente da equipe principal e como treinador de diferentes times de base, incluindo também a filial. Passou um ano pelo Osasuna sem grande impacto, mas ainda parecia uma opção interessante ao Graná nesta tentativa de conquistar o acesso. No fim das contas, se tornaria realmente uma escolha certeira.

Curiosamente, o Granada conquistou o acesso em 2018/19 ao lado do Osasuna. Já foi uma campanha relativamente segura, de uma equipe que se manteve durante quase todo o tempo entre os dois primeiros colocados. Retornar à primeira divisão, ainda assim, representava um passo muito maior aos rojiblancos. E, preservando o trabalho de Diego Martínez, o Graná encorpou. Metade da base titular seria garantida na elite em 2019/20, mas também o mercado de transferências seria intenso no Estádio Nuevo Los Cármenes. Chegaram novas peças a todos os setores, com Domingos Duarte, Yangel Herrera, Darwin Machís, Carlos Fernández e Roberto Soldado, incrementando a espinha dorsal dos andaluzes.

Mais importante, isso não significou loucuras às finanças do Granada. Muitos atletas foram pinçados em equipes até da própria segunda divisão. A folha de pagamentos permaneceu como uma das mais baixas do Campeonato Espanhol, superando apenas Mallorca e Valladolid. Houve uma segurança para não acelerar demais o desenvolvimento. E as escolhas, no fim das contas, se provaram (de novo) muito bem feitas.

Boa parte das principais apostas da diretoria deu certo de imediato no Estádio Nuevo Los Cármenes. Formaram uma equipe agressiva e veloz, que soube incomodar os adversários também pela marcação desde o campo de ataque. Mesmo os mais novos reforços abraçaram a proposta de Diego Martínez. Apesar do estilo definido, o Graná soube se adaptar aos oponentes e muitos jogadores desempenharam mais de uma função ao longo do campeonato, garantindo variações táticas. Foi um time, em essencial, inteligente dentro de campo e também eficiente.

Que esta temporada de La Liga tenha sido especialmente aberta, isso não tira os méritos do Granada em ocupar até mesmo a liderança durante o primeiro turno. Venceu o Barcelona e mostrou que as adições foram cirúrgicas. Como era de se esperar, a novidade não se manteve e os andaluzes despencaram ao meio da tabela ainda no final do primeiro turno. Mas, mais importante, souberam se refazer. O mês de fevereiro já indicava a recuperação do time, com uma série invicta e a classificação sobre o Valencia na Copa do Rei, que valeu a primeira semifinal em 51 anos. E, no fim, o Graná esteve entre as equipes que melhor retomaram sua rotina na conclusão do Campeonato Espanhol a partir de junho.

O elenco coeso do Granada contribuiu ao momento, assim como a intensidade exibida pelo time dentro de campo. Além do mais, a equipe ganhou confrontos-chave diante de Getafe e Real Sociedad. O espírito exibido contra o Real Madrid na antepenúltima rodada, quando quase desbancaram os campeões, reforçava como os andaluzes ainda estavam centrados em seu objetivo na reta final. Algo que se confirmou com a vitória por 2 a 1 sobre o Mallorca, que terminou por rebaixar os bermellones, e a revanche contra o Athletic Bilbao neste domingo. Uma pena que o Nuevo Los Cármenes estivesse vazio à apoteose, com a goleada por 4 a 0 e a confirmação da inédita participação na Liga Europa, entrando nas preliminares. Numa edição equilibrada de La Liga, os rojiblancos também tiraram proveito disso ao salto final.

O Granada tem jogadores para fazer um bom papel na Liga Europa – ou, se assim preferirem, buscarem um clube maior. Rui Silva esteve entre os melhores goleiros de La Liga, Domingos Duarte liderou muito bem a defesa, Darwin Machís costuma ser infernal em seus dias mais inspirados, Carlos Fernández garantiu qualidade na conclusão das jogadas. Dos mais antigos do grupo, Antonio Puertas merece destaque especial por sua importância na reconstrução do time desde o acesso na segundona. E o veteraníssimo Roberto Soldado, num papel mais abnegado de seu trabalho, foi o exemplo e a entrega que os andaluzes precisavam para abrir seus caminhos. É um personagem histórico dentro desta campanha.

Os próximos passos do Granada, de qualquer maneira, precisam ser observados com cuidado. Os andaluzes abriram suas portas a empresários e acertaram a mão na montagem do elenco, mas não podem se pautar apenas pelo entra e sai de nomes. Precisam preservar sua qualidade e sua solidez para manter o sucesso. A passagem pela segunda divisão, ao menos, já indicou essa lição. Diego Martínez continua como a cabeça do projeto, algo essencial aos rojiblancos. Mas encontrar o equilíbrio entre um plantel mais recheado para a frente continental e não deixar que a campanha desande no Campeonato Espanhol é um novo tipo de desafio. O exemplo do Espanyol, que não suportou as duas tarefas, está bem fresco no país.

O próprio discurso de Diego Martínez segue neste sentido, entre aproveitar a temporada europeia e consolidar a estadia no Campeonato Espanhol, pensando desde o início na permanência como objetivo primordial. O sucesso no futebol se constrói bem mais com minucias do que com pressa. Isso precisa ser captado também pelos donos do clube. Garantir a continuidade é, neste momento, muito mais importante que já querer vislumbrar a Champions. O momento, afinal, já se torna histórico. E talvez aquele insucesso inicial, quando os investidores foram com muita sede ao pote, tenha dado o compasso do feito que se desfruta no Estádio Nuevo Los Cármenes.