Há um ano, o Liverpool experimentou uma frustração sem igual. O time que encantava por seu ataque avassalador ruiu na decisão da Champions League. Desmoronou, entre a lesão de Mohamed Salah e a fragilidade defensiva. Jürgen Klopp teve um ano para reerguer os Reds. Um ano para trabalhar a confiança, para tornar o conjunto mais equilibrado. A equipe respondeu. Viveu uma temporada muito mais madura, menos dependente das individualidades. A campanha histórica na Premier League, mesmo sem o título, é a prova irrefutável da evolução. E os milagres na Champions possibilitaram uma nova chance de levantar a taça. O Liverpool não desperdiçou. Dentro do Wanda Metropolitano, exibiu aquilo que faltou em Kiev: foco, solidez, vigor nos combates. Teve também um goleiro decisivo. Mesmo sem fazer uma partida brilhante, os Reds tiveram a decisão sob controle e completaram sua redenção. A vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham premia o trabalho, com o sexto título do clube no torneio. Garante a imortalidade de um grupo que tanto cativa Anfield e outros cantos do mundo.

É importante frisar que o jogo seria condicionado logo nos primeiros minutos, em um pênalti contestado que permitiu ao Liverpool sair em vantagem. Isso direcionou a postura dos Reds e a maneira como o confronto se desenrolou. De qualquer maneira, não se nega a superioridade do time de Jürgen Klopp. Se o Tottenham excedeu as expectativas ao chegar na final, seja pela falta de contratações, seja pelas recorrentes lesões, seja pelo imbróglio causado no atraso de seu estádio, esse desgaste também teve o seu impacto em Madri. Acabou sendo um time de ideias limitadas, que só ameaçou quando teve pressa, mas não conseguiu passar pela defesa adversária. Fatal nos momentos certos e seguro nas lições que absorveu, o Liverpool se proclama novamente como rei da Europa. Por mais que tenha sido uma decisão muito aquém do esperado, até pela identidade dos times, que demoraram a criar uma sequência maior de lances de perigo, os Reds souberam como encarar a ocasião da maneira perfeita.

Antes que a bola rolasse, de qualquer maneira, os prognósticos eram de um duelo repleto de lances de perigo e gols. As próprias escalações reforçavam isso. O Tottenham trazia as maiores novidades. A volta de Harry Kane estava confirmada e o centroavante veio encabeçando o ataque de Mauricio Pochettino, municiado por Son, Dele Alli e Eriksen. Lucas Moura perdeu espaço. Enquanto isso, Harry Winks compôs a cabeça de área ao lado de Sissoko. Já o Liverpool apostou na base costumeira, sem grandes surpresas após o retorno de Roberto Firmino. No meio-campo, uma trinca com a presença física de Fabinho, Henderson e Wijnaldum. Milner, possível candidato ao 11 inicial, permaneceu no banco. Já na frente, a célebre parceria entre Mané, Firmino e Salah.

Mal deu para se acomodar em frente à televisão ou nas cadeiras do estádio após o apito inicial, que os primeiros segundos da partida já guardaram o lance decisivo. O Liverpool partiu ao ataque na saída de bola e Sadio Mané fez o cruzamento no bico da grande de área. Moussa Sissoko estava com o braço aberto. A bola bateu no peito do francês e depois em seu braço, mas o árbitro Damir Skomina assinalou o pênalti logo aos 23 segundos. Uma marcação no mínimo discutível, que não ganhou a revisão do vídeo no monitor, ante a convicção do esloveno. Mohamed Salah se adiantou para a cobrança e bateu ao seu canto direito, cruzado, com força. Hugo Lloris demorou um pouco a esticar o braço e, mesmo acertando o lado, não chegou a tempo. O gol dava uma vantagem precoce aos Reds, mas já tão importante para determinar o ritmo de jogo.

Mo Salah, egyptian king (Foto: Getty Images)

Como era de se esperar, independentemente da interferência do gol, a decisão seguiu em um ritmo intenso, embora não fosse aberta. O Tottenham ficou um pouco mais com a bola depois do tento, mas tinha dificuldades para se livrar da pressão incessante do Liverpool desde os arredores da área de Lloris. Quando teve um pouco mais de espaço, Sissoko errou o alvo na primeira chance de se recuperar. De qualquer maneira, a marcação dos Spurs também estava bastante encaixada e não facilitava o caminho dos Reds, com problemas claros de emendar suas jogadas no ataque. Era uma partida vigorosa, mas não necessariamente vistosa.

O jogo mudou de cena um pouco mais a partir dos 15 minutos. Trent Alexander-Arnold deu seu aviso, em um chute venenoso do meio da rua, que passou muito próximo da trave de Lloris. Do outro lado, o lateral ainda faria um desarme providencial no mano a mano com Son Heung-min. O Liverpool começou a se postar mais à frente, ditando o ritmo e pressionando a defesa do Tottenham. Conseguia incomodar um pouco mais nas bolas alçadas à área, mas a zaga dos Spurs mantinha um alto nível de atenção. O foco dos times era máximo, concedendo a mínima chance aos erros.

O grande mérito do Liverpool era a maneira como marcava incansavelmente no campo de ataque. O Tottenham não tinha o mínimo respiro, com a pressão dos Reds. E, quando passava da linha central, encarava uma trincheira vermelha muito compacta. Até por isso, as expectativas quanto a um jogo de muitas chances não se cumpria. Ficava bem mais evidente a entrega das equipes sem a bola, o que deixava a final travada, sem espaço aos ataques. Os lances de perigo dependiam de um lampejo ou outro individual, mas sem que a sequência se conectasse. Os marcadores não davam trégua.

Se existia um caminho, era graças aos chutes de longe. E foi assim que Andy Robertson quase ampliou aos 38. Aproveitou um vácuo na intermediária dos Spurs e avançou até a entrada da área, soltando o canudo. Lloris deu um leve desvio para escanteio, evitando o pior. Por mais que não tivesse o controle da posse de bola, o Liverpool administrava a situação e mantinha o jogo sob o seu gosto. Até buscou o segundo gol nos instantes finais, em sequência de escanteios. Discreto, com pouca participação de seus destaques, o Tottenham finalizou apenas duas vezes no primeiro tempo – e longe de sujar o uniforme de Alisson. Precisaria mudar sua postura na volta do intervalo.

Alisson foi buscar (Foto: Getty Images)

Os dois técnicos retornaram para o segundo tempo sem alterações. A partida ficou um pouco mais corrida, mas ainda não era bem jogada. O Tottenham tentou acelerar o passo e se aproximou da área do Liverpool. Ainda pecava demais na hora de definir as jogadas, entre decisões erradas e falta de agilidade nas definições. A defesa adversária se dava melhor, travando sempre em cima da hora. Do outro lado, sobrava mais campo aos Reds e o time contragolpeava. Foram duas boas jogadas em sequência, sem que o time arrematasse em cheio. Salah ficou a um triz de cabecear bola perigosa, enquanto Lloris faria uma saída providencial nos pés de Mané, após cruzamento de Robertson.

Entre os 10 e os 20 minutos, a partida voltou a esfriar. Então, os treinadores passaram a moldar suas estratégias com as alterações. Klopp mandou Divock Origi no lugar de Roberto Firmino, renovando o fôlego na frente. Além de não estar nas melhores condições físicas, o brasileiro teve atuação praticamente nula. Pouco depois, James Milner ganhava um lugar no meio-campo, na vaga de Wijnaldum, mantendo a capacidade física e dando mais qualidade para bater na bola. Já Pochettino finalmente chamou Lucas Moura. O herói de Amsterdã substituiu Harry Winks, com o recuo de Eriksen. O treinador precisava arriscar.

Com marcações tão ajustadas, a partida dependia mais das individualidades. O Liverpool voltou a criar uma chance clara aos 23 minutos. Mané causou um salseiro na faixa central e abriu um clarão no meio-campo adversário. Salah fez o pivô e Milner chegou batendo de fora da área. Tirou tinta da trave. Depois, Salah chegou a linha de fundo e não conseguiu conectar o passe. Já o Tottenham ao menos fazia Alisson trabalhar. Foram duas bolas levantadas na área em que o arqueiro manteve a segurança ao seu time.

Não bastasse a situação difícil, o Tottenham sofria com problemas físicos. Trippier, Sissoko e Son acabaram sentindo dores quase ao mesmo tempo. Só o volante deixou o campo, com a entrada de Eric Dier. O relógio sufocava os Spurs. Não restava outra opção a não ser tentar. Quando Son recebeu uma enfiada e partiu em velocidade, Van Dijk realizou um senhor desarme dentro da área. A arma mais acionada eram os cruzamentos, à exaustão, mas Dele Alli cabeceou para fora na única brecha. Assim, chutar de longe parecia uma boa alternativa. Son mandou um míssil e provocou a primeira grande defesa de Alisson, que depois pararia um tiro mascado de Lucas Moura na sobra.

Origi comemora o segundo gol do Liverpool (foto: Getty Images)

Diante do cenário da partida, a entrada de Fernando Llorente era praticamente compulsória. O centroavante foi essencial nas duas classificações anteriores do Tottenham e daria inegável força ante à insistência na bola pelo alto. Veio aos 37 minutos, no lugar de Dele Alli, outro muito mal. Nestes instantes, os Spurs martelaram e esboçaram o empate. Após uma falta no limite da grande área, Eriksen chutou direto e Alisson deu uma linda ponte, espalmando para escanteio. Na sequência, a bola pipocou na área e, depois de um desvio de Lucas, Son desperdiçou uma oportunidade gigantesca. Na pequena área, errou o tempo de bola e mandou para fora. De qualquer forma, estava impedido. Um lance fatal.

A partida se definiu aos 42 minutos. O Liverpool ganhou um escanteio a seu favor. Nem foi o lance dos mais bonitos, mas, depois de errar a conclusão, Van Dijk brigou pela sobra. A bola caiu limpa para Matip e ele rapidamente entregou a Origi, sozinho pelo lado esquerdo da área. Dominou e realizou uma finalização cirúrgica, no cantinho da meta de Lloris. O gol do título. Por mais que o Tottenham tenha sido capaz de milagres nesta Champions, estava claro que não tiraria a taça das mãos dos Reds. Neste momento, a torcida vermelha enlouquecia nas arquibancadas. Cantava num volume altíssimo, aguardando o apito final. Os Spurs ainda teriam uma chegada ou outra, no desespero do acreditar. Terminaram de consagrar Alisson, com duas defesas firmes nos instantes finais. Era um dos heróis. E quando “You’ll Never Walk Alone” começou a tomar a atmosfera, restou aguardar a comemoração ensandecida do Liverpool. A redenção estava completa.

A comunhão gigantesca entre jogadores e comissão técnica no gramado, engrandecida pela emoção dos torcedores nas arquibancadas, evidenciava a força do conjunto do Liverpool. É essa a maior virtude da equipe em sua reconstrução, se não necessariamente trocando tantas peças, sim no estado anímico e na maneira de encarar as ocasiões ainda com mais fome. Quando não exibiram o melhor futebol, assim como em Kiev, os Reds agora contaram com um espírito de luta incansável. É o que os elevou novamente ao topo da Europa pela sexta vez. O rei está de volta, com um time que vinha batendo na trave, mas realmente merecia a eternidade.

Klopp celebra com Salah (Marc Atkins/Getty Images)

Ficha técnica

Liverpool 2×0 Tottenham

Local: Wanda Metropolitano, em Madri (ESP)
Árbitro: Damir Skomina (ESL)
Gols: Mohamed Salah, (2’/1T), Divock Origi (42’/2T)
Cartões amarelos: nenhum
Cartões vermelhos: nenhum

Liverpool
Alisson, Trent Alexander-Arnold, Virgil van Dijk, Joel Matip, Andrew Robertson; Fabinho, Jordan Henderson, Georginio Wijnaldum (James Milner); Mohamed Salah, Roberto Firmino (Divock Origi), Sadio Mané (Joe Gómez). Técnico: Jürgen Klopp.

Tottenham
Hugo Lloris, Kieran Trippier, Toby Alderweireld, Jan Vertonghen, Danny Rose; Harry Winks (Lucas Moura), Moussa Sissoko (Eric Dier); Son Heung-min, Dele Alli (Fernando Llorente), Christian Eriksen; Harry Kane. Técnico: Mauricio Pochettino.