Por Eryck Gomes*

O relógio marcava 22h02 do dia 25 de setembro de 2018. Três dias após o Operário-PR conquistar o inédito título da Série C do Campeonato Brasileiro, Bruno Fressato Cardoso, ou Bruno “Batata”, autor do gol solitário frente ao Cuiabá no segundo jogo da decisão, estava no terminal rodoviário de Ponta Grossa. Em alguns minutos, partiria para encontrar a esposa Tayara e o pequeno Leonardo, seu filho, de quatro anos, em Maringá. Cerca de 5h de estrada – 314 km – e na bagagem a sensação de dever cumprido. Bruno completa 34 anos exatamente neste dia 26/09 e ganhou como presente o nome na história de um clube centenário. A quase aposentadoria em 2017 deu lugar ao planejamento para a Série B do Brasileirão em 2019. E tudo isso sem abrir mão dos estudos.

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Após um disputado primeiro confronto, que terminou com o placar marcando 3 a 3, Cuiabá e Operário-PR já tinham cumprido a missão de ascender à Segunda Divisão do Brasileiro – mas queriam ir além. Nas primeira fase da competição, o time mato-grossense passeou e venceu o Fantasma por 4 a 0. A segunda e decisiva partida da final da Série C 2018 dava mostras de que não seria só mais um jogo para as equipes que ali chegaram.

“O principal objetivo do clube era o acesso à Série B, mas, por ser contra o Cuiabá, acabou criando-se uma história. Tínhamos perdido para eles na primeira fase e teve muita tiração de sarro. Quando chegou a final sendo esse confronto, criou-se uma rivalidade. O primeiro jogo da decisão foi bom, um 3 a 3, chegando até a ter um princípio de confusão. Isso transformou o segundo jogo numa final de Copa do Mundo, vamos dizer assim, mesmo com os dois times já tendo conquistado o acesso”, explicou Bruno.

Bruno Batata, do Operário-PR (Foto: Arquivo pessoal)

O palco da decisão foi a Arena Pantanal, que ficou abarrotada de gente. Estiveram presentes 41.311 torcedores, recorde na história do estádio de Copa do Mundo. A caminhada do clube paranaense foi a seguinte: vice-líder do Grupo B – três pontos à frente do próprio Cuiabá -, e venceu Santa Cruz e Bragantino no mata-mata. Foram 12 vitórias, 8 empates e 4 derrotas. Naquele momento, Batata conquistava o seu principal título da carreira que começou na categoria dente-de-leite do Coritiba.

“Sou natural de Curitiba e iniciei no dente-de-leite do Coxa, por volta de uns 10 anos de idade. Acabei ficando por lá por quase 15 anos. Joguei por todas as categorias do clube e me profissionalizei em 2004, com o professor Antônio Lopes, que me deu a primeira oportunidade. Depois disso, comecei a rodar”, contou.

A promoção ao profissional do Coritiba deu a oportunidade de jogar com nomes pesados com Fernando Prass, Miranda, o lateral Adriano e outros renomados jogadores que atuaram pelo Brasil. “Quando subi para o profissional, eu peguei um ano fantástico. Na época, o trio de ataque era o Luís Mário, Tuta e Aristizábal, que já estava parando mas era um cara fenomenal. Me marcou e virei fã, era muito diferenciado. O time tinha ido bem no Campeonato Brasileiro, ficou em quinto lugar e conseguiu a vaga na Libertadores em 2004. Com 18 anos, eu entrei em duas partidas da Libertadores da América. Não passamos da primeira fase, mas joguei contra o Rosário Central na Argentina e contra o Olímpia, no Couto Pereira. Foi muito legal para mim”, disse o jogador do Operário.

Ao todo, foram onze clubes defendidos até aqui. Coritiba, Paranavaí, Cianorte, J. Malucelli, Vila Nova, Ipatinga, Oeste, Joinville, Maringá, Operário e sua única experiência internacional, o Brondby, da Dinamarca, por onde atuou na temporada 2010/11. “A experiência da Dinamarca foi muito boa, mas é aquela coisa: o brasileiro sempre sonha em jogar na Europa, mas nunca se prepara. Comigo não foi diferente. Sofri com o idioma, não falava nada do inglês na época. No meu clube tinha um tradutor, mas ele só ia para os jogos”, conta Bruno.

“Nos treinamentos, a língua da bola, como a gente fala, é universal, mas tem hora que queremos argumentar algo com o treinador, interagir com os companheiros, e não pode. Nos primeiros seis meses, eu praticamente não abri a boca. Me arrependi por não ter me preparado para esse momento. Teve vez que eu fui pedir para comprarem uma passagem para a minha esposa ir me visitar e tive que ficar fazendo mímica de um aviãozinho, para ver se eles entendiam. Hoje é engraçado, mas na época foi constrangedor. Mas no final deu tudo certo”, disse ainda o jogador formado pelo Coritiba.

Bruno Batata com a esposa e o filho (Foto: arquivo pessoal)

Hoje, não projeta quando deve encerrar a carreira de jogador. O fato de nunca ter sofrido com problemas físicos deixa o prazo de validade em aberto. Enquanto este dia não chega, vai se dedicando aos estudos. Bruno não se vê como treinador, mas quer usar a experiência que vem adquirindo para continuar no meio, mas na área administrativa. Já fez curso específico para isso, continua buscando outros e pretende inclusive estagiar no interior.

“Eu terminei o ensino médio normalmente e ainda cheguei a cursar um ano de educação física. Mas, com a rotina do futebol, ficou pesado para conciliar e acabei trancando o curso. Hoje, não faria essa graduação. Me inscrevi em um curso de Gestão Técnica, porque é um setor que me agrada. Como vivi toda a minha vida nesse esporte e agora busco a parte mais científica, vejo uma possibilidade de seguir nisso futuramente. Não me imagino como treinador, não é algo que me motiva tanto, me vejo na área administrativa e quero me preparar muito para quando chegar esse momento. Não vai ser só um ex-jogador, quero ser um cara que se especializou, estudou muito para entrar nesse mercado. Fazer mais cursos, tentar estágios fora do país. Confesso que estou muito motivado para o pós. Isso me ajuda a não ficar triste ao pensar em quando terminar a carreira”, ele explica.

O complicado calendário brasileiro quase fez de Bruno mais uma vítima. Por conta das dificuldades em encontrar um bom contrato, quase abandonou o futebol em 2017. Não queria mais ficar muito longe da família e aceitar qualquer proposta que aparecesse. De última hora, surge o Maringá-PR com um pré-contrato para o Campeonato Paranaense deste ano. Aquela porta foi aberta e deu acesso a oportunidades que nem passava pela cabeça de Batata.

“Cheguei a repensar a minha carreira no ano passado. Eu estive no Joinville, saí de lá sem receber, foram quase três meses assim. E aí o que foi surgindo para mim não era vantajoso, não ia poder levar a minha família. Fiquei por Curitiba o segundo semestre inteiro e refleti se valeria a pena continuar jogando ou não. Mas aí surgiu uma proposta do Maringá para o estadual deste ano e pensei: por que não? Eu estava bem fisicamente decidi ir e as coisas foram bem. Fiz bastante gol (10 em 20 partidas) e isso proporcionou poder vir para o Operário”, relembra.

Neste dia 26 de setembro, seu aniversário, Bruno é só sorrisos junto à esposa e o filho. Em mensagem, me disse que o “moleque” está impossível – acompanhado de risos. O momento não poderia ser diferente. “Fomos campeões, ano que vem tem Série B e a expectativa é muito boa”, projeta o atacante.

*Eryck Gomes é jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco e Analista de Desempenho com curso pela CBF Academy. Acredita que o futebol tem muito a dizer – não só sobre o jogo em si, mas também acerca da construção da sociedade.