Da prata ao tetra, a jornada de Dunga na Seleção atravessa o Rose Bowl

A primeira passagem do volante pelo Rose Bowl terminou com a agridoce medalha de prata nos Jogos de Los Angeles-1984

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Estádio Rose Bowl, em Pasadena, Califórnia, Estados Unidos. O Brasil entra em campo contra um time de azul para a decisão com um volante brigador de apelido Dunga, camisa 8 às costas. O jogo é tenso, disputado, com muita correria. Não é à toa: a conquista em jogo é inédita para as duas seleções.

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Pausa. Não estamos falando da conquista do tetra, afinal esta é a coluna Histórias Olímpicas. Mas há algumas coincidências saborosas que marcam a carreira de Dunga com a camisa da Seleção. E esta é uma delas: em 11 de agosto de 1984, com o mesmo número de camisa, ele estava em campo para enfrentar a França na decisão da medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, na primeira vez que o “país do futebol” chegava ao pódio olímpico.

A mudança no regulamento ajudou. Depois de décadas brigando com o amadorismo marrom dos países do bloco socialista, que conquistaram todas as oito medalhas de ouro em disputa entre Helsinque-1952 e Moscou-1980, a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional decidiram que, a partir de Los Angeles-1984, os jogadores profissionais estavam liberados para ir à Olimpíada – mas, no caso das seleções da Europa e da América do Sul, apenas se não tivessem disputado jogos de Copa do Mundo, inclusive Eliminatórias.

Dunga já estava no elenco do Pré-Olímpico, disputado no começo do ano em Guayaquil. Assim, nada mais normal do que ele estar na Olimpíada, uma vez que, perto de completar 21 anos, já mostrava seu talento no Internacional e tinha um vasto currículo nas categorias de base da Seleção – no ano anterior, foi titular e figura importante na conquista do Mundial sub-20, no México, e da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Caracas, da Venezuela.

O estranho mesmo é a volta que o mundo deu para Dunga estar lá. No Pré-Olímpico, o Brasil foi treinado por Cleber Camerino, ex-companheiro de Claudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira na Escola de Educação Física do Exército. Parreira, aliás, tinha sido o técnico da Seleção principal no ano anterior, quando conquistou o vice-campeonato de uma Copa América sem sede fixa, e até viajou ao Equador para fazer observações – inúteis, segundo ele mesmo revelou ao jornal “O Globo” na edição de 26 de fevereiro daquele ano: “O torneio não ofereceu muitas oportunidades para uma avaliação correta, em termos de capacidade dos jogadores, para a Seleção principal”.

Em meio à queda de braço da CBF com o Comitê Olímpico Brasileiro, que ainda não se convencera de seguir as novas regras e pretendia mandar somente amadores a Los Angeles, Camerino deixou o cargo – assim como Parreira, logo depois, também seria dispensado da equipe principal e assumiria o Fluminense, pelo qual ganharia o Brasileirão daquele ano.

Jair Pereira, comandante do time sub-20 campeão mundial, foi cogitado, mas a CBF acertou no começo de maio com outro Jair, o Picerni, então técnico do Santo André e ainda em começo de carreira. Ele chamou inicialmente 25 atletas, todos sem muita experiência, sendo 13 de clubes do interior paulista – o nome que ganharia mais fama seria o de Júlio César, então zagueiro do Guarani e futuro astro de Juventus e Borussia Dortmund. Do Internacional, veio o zagueiro Pinga.

A CBF escalou Edu Antunes para comandar a Seleção principal em três amistosos, e colocou a seleção olímpica na preliminar. Em 10 de junho, no Maracanã, o time fez um magro 1 a 0 contra o Campo Grande, antes de o time principal levar 2 a 0 da Inglaterra. Uma semana depois, a equipe de Edu ficou no 0 a 0 com a Argentina, no Morumbi – antes, os jovens de Picerni empataram por 3 a 3 com o Santo André, ex-time do treinador. No dia 21, no Couto Pereira, os olímpicos fizeram 2 a 0 no Coritiba, e no jogo de fundo a outra seleção fez 1 a 0 no Uruguai.

Os resultados magros não agradaram, e a equipe foi dispensada para uma folga depois de mais de um mês de trabalho – mas, na prática, foi desfeita. Curiosamente, entre os convocados por Edu havia muitos atletas com possibilidade de ir à Olimpíada, uma vez que não havia mais limite de idade. Por exemplo, jovens como o zagueiro Ricardo Gomes, que havia brilhado no Fluminense campeão brasileiro, ou o ponta Renato Gaúcho, voando no Grêmio. Mas essa ideia nem sequer passou pela cabeça dos cartolas.

Com o tempo cada vez mais escasso, a opção passou a ser levar um time inteiro – e o primeiro cotado foi o Fluminense, recém-consagrado campeão nacional, mas sem Parreira, que já havia pedido o chapéu rumo ao Oriente Médio. O problema era conciliar a ida a Los Angeles com… a tabela da Taça Guanabara. Não teve negócio.

No fim, a solução veio do Sul. No dia 29 de junho, Jair Picerni convocou o time inteiro do Internacional – o goleiro Gilmar Rinaldi, os laterais Luiz Carlos Winck e André Luiz, os zagueiros Mauro Galvão e Aloísio, os meias Ademir e Milton Cruz, os atacantes Paulo Santos, Kita e Silvinho – e, ora vejam só, Dunga. O técnico ainda manteve Pinga, um dos remanescentes da leva inicial.

Na lista final, de 17 atletas, Aloísio foi cortado, e 11 colorados viajaram com o goleiro Luis Henrique e o atacante Chicão, da Ponte Preta; o ponta direita Tonho, do Aimoré, o zagueiro Davi, do Santos; o lateral Ronaldo, do Corinthians; e o meia Gilmar Popoca, do Flamengo, visto por parte da torcida rubro-negra como o sucessor de Zico – que um ano antes fora vendido à Udinese.

Sem amistosos, só na base dos treinos coletivos e do entrosamento prévio, o Brasil estreou em 30 de julho nos Jogos com uma vitória tranquila sobre a Arábia Saudita, por 3 a 1 – Dunga, em sua primeira visita ao Rose Bowl, marcou o terceiro gol.

Dois dias depois, no Estádio de Stanford, em Palo Alto, onde 10 anos depois o Brasil iniciaria a caminhada do tetra, vitória suada por 1 a 0 sobre a Alemanha Ocidental, gol de Gilmar Popoca em cobrança de falta. No time germânico estavam dois futuros campeões mundiais em 90, o zagueiro Buchwald e o lateral Brehme.

A primeira fase se encerrou com nova vitória, 2 a 0 sobre o Marrocos treinado pelo brasileiro José Faria. Dunga marcou o primeiro, e o segundo foi de Kita, futuro herói da Inter de Limeira e de triste memória para os palmeirenses.

O duelo das quartas, em Stanford, parecia fácil, mas o Canadá fez jogo duro, segurou o 1 a 1 e levou o jogo para os pênaltis. Brilhou então a estrela de Gilmar Rinaldi, que defendeu duas cobranças e assegurou a vitória brasileira, 4 a 2. Viria então a semifinal contra ninguém menos que a Itália. O fantasma recente do Sarriá ainda assombrava os brasileiros, e o rival tinha nomes que aprenderíamos a reconhecer nos anos seguintes: Tancredi, Vierchowood, Galli, Massaro e Baresi.

Foi um jogo duríssimo em Stanford – porque seria coincidência demais um Brasil x Itália com Dunga x Baresi no Rose Bowl, até para essas brincadeiras do destino há limites. Gilmar Popoca abriu o placar, Fanna empatou e Ronaldo, já na prorrogação, definiu para o Brasil, que pela primeira vez garantia uma medalha olímpica, após três décadas de frustrações.

A decisão, como dissemos lá em cima, foi em 11 de agosto. Dunga era dúvida, porque levou uma entrada violenta na semifinal e saiu com a canela inchada – mas obviamente foi a campo. O time francês era treinado por Henri Michel, que havia sido auxiliar de Michel Hidalgo na conquista da Eurocopa, em junho, e já havia sido nomeado para a seleção principal. Convocou também um time jovem, pinçando dos campeões europeus apenas o goleiro reserva Albert Rust, que virou titular em Los Angeles.

O caminho francês tinha começado menos tranquilo, com empates com Catar e Chile e vitória apenas sobre a Noruega na primeira fase. Nas quartas, 2 a 0 sobre o Egito; na semi, 4 a 2 em cima da Iugoslávia, também na prorrogação. Na abafada noite de sábado no Rose Bowl, os franceses souberam ser mais eficientes, administrar melhor o cansaço e definir o jogo com dois gols em menos de dez minutos: Brissou aos 10, Xuereb aos 18. A França conquistava seu ouro inédito no futebol e deixava o Brasil na saudade – ainda que, depois da partida, os brasileiros destacassem a importância da primeira medalha, como demonstra esta reportagem de 2015 da Globo.

O jornal O Globo deu nota 5 para a atuação de Dunga. “Irreconhecível”. A Folha de S.Paulo, por sua vez, acertou: “Perdeu-se uma boa chance para montar o time da Copa”. Dos 17 de Los Angeles, de fato, só Mauro Galvão foi ao México em 1986, como reserva, sem jogar um minuto sequer.

As notas do jornal O Globo para as atuações do Brasil
As notas do jornal O Globo para as atuações do Brasil

Dunga seguiu sua carreira de forma brilhante que conhecemos: do Inter foi para o Corinthians, passou por Santos e Vasco antes de seguir para a Europa, onde defendeu Pisa, Fiorentina, Pescara e Stuttgart. Ainda teve tempo e fôlego para ser ídolo do Jubilo Iwata e jogar mais um ano no Inter até se aposentar. Foi rotulado como símbolo da Seleção que fracassou na Copa de 1990 para, com Gilmar, dar a volta por cima no mesmo Rose Bowl, em 17 de julho de 1994.

Ainda ganhou nova chance de buscar o ouro olímpico como treinador, mas seu Brasil sub-23 parou na Argentina de Riquelme e teve de se contentar com o bronze em Pequim-2008. Anos depois, reencontrou Gilmar Rinaldi como chefe em sua segunda passagem como técnico da Seleção, entre 2014 e 2016. Foi demitido após a eliminação na primeira fase da Copa América Centenário, na qual a estreia brasileira, um modorrento 0 a 0 contra o Equador, foi justamente no Rose Bowl.

Em 2026, a Copa volta aos Estados Unidos, e em 2028 Los Angeles recebe de novo os Jogos Olímpicos. O interminável estádio de Pasadena, construído em 1922, já está definido como sede em ambos os eventos. Por ora, Dunga está em Porto Alegre, à espera de um emprego que o agrade. Quem sabe numa dessas voltas seu destino não se cruza com o Rose Bowl novamente?