O pai morreu antes que nascesse. A mãe, em suas próprias palavras, “ficou louca” e a tia precisou assumir sua criação. Um acidente doméstico deixou marcas em sua pele que nunca desaparecerão. Para completar, a trilha sonora de sua infância foram os tiroteios do bairro de Fuerte Apache, um dos mais pobres de Buenos Aires. Carlos Tevez atravessou todos esses obstáculos para se tornar jogador de futebol profissional, um dos mais famosos do mundo, e agora terá sua história contada em uma série dramática que estreia no Netflix em 16 de agosto.

A série, da infância difícil de Tevez à estreia pelo Boca Juniors, começou a ser produzida ano passado pela Torneos y Competencias e foi adquirida pela Netflix da Argentina, que busca aumentar seu catálogo de conteúdo do país. O diretor escolhido foi o uruguaio Israel Adrián Caetano, oriundo de Cerro, bairro humilde de Montevidéu.

“Quando era criança, meu bairro tinha um monte de garotos como Tevez”, afirmou ao jornal argentino La Nación. “Logo, eu sei do que estamos falando na série. Eu me preocupei em contar um pedaço da vida de Carlos que nem todos conhecem. Não falo da vida difícil de uma família humilde. Essas generalidades vocês podem imaginar sozinhos. Eu me refiro a um olhar um pouco mais antropológico, que vá além da superfície do que pode ser entendido como uma vida dura de alguém que nasce na pobreza”.

“A televisão normalmente aborda esses submundos como marcos para contar histórias como meras curiosidades ou para incentivar o mórbido. Tevez foi uma exceção em um mundo muito rude, onde há uma aceitação das complicações cotidianas porque a vida é vista como algo difícil. Tevez se rebelou, foi um em um milhão”, completou.

Tevez esteve próximo ao projeto. Ele próprio apresenta cada um dos oito capítulos. Descartou os primeiros roteiros porque “esta não é minha vida, não me vejo aqui”. “Carlos estava muito interessado que também contássemos a história dos que não chegam lá. Não se trata unicamente de celebrar o herói. Não quisemos filmar uma idealização da pobreza. Sua participação foi muito importante. Teria sido uma falta de respeito contar a história sem sua participação”, explicou Caetano.

A proximidade, porém, não significa que Tevez vetou partes de sua história. “Quando nos juntamos com a produção, dissemos que contaríamos minha história como ela foi. Não faltará nada: do dia em que ganhei minha cicatriz à estreia no Boca depois de passar pelo All Boys”, afirmou o jogador de 35 anos do Boca Juniors, segundo o La Nación.

As conquistas pelo Corinthians e na Europa não farão parte da história. “Será a parte mais difícil da vida de Tevez. Depois, teve outra vida, com outras problemáticas, as de um homem rico e famoso. Mas antes disso, passou por várias situações muito fodidas”, explicou Caetano. Balthazar Murillo, ator de 14 anos, fará o Tevez Criança. Sofía gala será a mãe biológica do jogador. Alberto Ajaka e Vanesa González, os pais adotivos. Patricio Contreras será seu avô.