Enquanto planeja seus próximos passos no futebol, Luiz Felipe Scolari tem morado no Rio Grande do Sul desde que deixou o comando do Palmeiras, em setembro de 2019. Foi em sua casa que o treinador recebeu o jornalista Joshua Law, do site Yellow and Green Football, para uma entrevista exclusiva (em inglês). Dos diversos temas abordados por Felipão, desde seleção brasileira à portuguesa, um aspecto chamou bastante atenção: o crédito dado pelo técnico à sua comissão no sucesso da Copa do Mundo de 2002.

Scolari recebeu os devidos aplausos pelo trabalho à época especialmente em termos de administração do grupo, criando a famosa “família Scolari” e unindo assim não só os jogadores do plantel, mas também a torcida, que andava meio afastada. Os atletas, por sua vez, brilharam individualmente e também tiveram seu reconhecimento. Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Marcos são alguns dos que se imortalizaram por aquela campanha. Mas Felipão fez questão de destacar o trabalho dos bastidores.

“Nossos médicos foram fundamentais. Nosso sistema de logística foi extremamente bem organizado. As pessoas pensam: ‘Ah, o Brasil tem qualidade’. Elas não imaginam que a logística é importante, mas é. Elas pensam: ‘Os jogadores brasileiros não precisam de cuidado, porque são altamente técnicos’. Não, eles precisam de cuidados”.

Uma das grandes narrativas do Penta foi a recuperação improvável de Ronaldo a tempo de disputar o Mundial e, por fim, ser o grande destaque técnico, além de artilheiro da competição. E Scolari lembra que nem mesmo os médicos do clube que o Fenômeno defendia no momento, a Internazionale, acreditavam na recuperação.

“Não nos esqueçamos que Ronaldo não vinha jogando na Itália. Os médicos do clube (Internazionale) disseram que era improvável que ele jogasse (a Copa do Mundo). Mas nosso médico, o Dr. Runco, garantiu que o Ronaldo estaria pronto. No almoço e no jantar, o especialista de preparação física, Paulo Paixão, se sentava com o Ronaldo e dizia: ‘Não, você não pode comer isso, não pode comer aquilo. Não, não’. Isso durante um ou dois meses”, relembra.

Rivaldo não sofreu o mesmo drama que Ronaldo, mas Felipão conta que ele também vinha com um problema físico e até mesmo a possibilidade de fazer uma operação. A intervenção da comissão brasileira foi essencial para garantir sua boa participação na Copa: “O Rivaldo ia fazer uma cirurgia no joelho em Barcelona, mas nosso médico disse: ‘Não! Vou ajudá-lo a se recuperar só com fisioterapia’”.

Por fim, Scolari destacou o extenso trabalho de Américo Faria, responsável de logística daquela equipe. “Ele passou 20 dias viajando por toda a Coreia do Sul e o Japão. Foi esse o grande diferencial para o Brasil naquela Copa do Mundo.”

Ainda que sua influência naquela conquista seja atribuída quase sempre à sua relação com os jogadores e sua forma de comandar, Felipão destacou uma escolha tática que para ele fez toda a diferença.

“O Brasil só tinha jogado com três zagueiros uma vez, com Lazaroni, na Copa do Mundo de 1990. Eu desenvolvi esse plano para que o Cafu e o Roberto Carlos fossem liberados para fazer o que faziam de melhor. Foi uma surpresa para as outras equipes. Você tinha Roque Júnior, Edmílson e Lúcio, mas um deles sempre ia à frente, Lúcio ou Edmílson. Foi o Roque Júnior quem comandou a linha de defesa. Ele era o líder e dava liberdade aos outros.”

A estratégia de Felipão contou com outro nome importante para dar solidez ao time. Gilberto Silva, solução de última hora diante da lesão nos treinamentos de Emerson, virou um pilar à equipe.

“Tive a sorte de encontrar um jogador que sabia como se posicionar à frente desse grupo. Foi obra do destino. ‘Muro Invisível’ (Apelido dado por torcedores do Arsenal a Gilberto Silva) é a melhor definição que já ouvi”, aprova Scolari, ao saber da alcunha por meio do repórter. “Ele deu uma plataforma ao Edmílson, aos alas. Permitiu que eles trabalhassem.”

Vale a pena conferir a entrevista na íntegra no site de Law. Felipão fala ainda de 7 a 1, Copa América, proposta da seleção inglesa em 2006 e muito mais. Veja mais aqui.