Se você nunca viu “Um Sonho de Liberdade”, filme de Frank Darabont, estrelado por Tim Robbins e Morgan Freeman, trate de fazê-lo o mais breve possível, porque é uma obra formadora de caráter. E pule uma casa. Ou melhor, passe direto para o terceiro parágrafo, do contrário ficará sabendo o final da história.

Se você viu o filme, ou está aqui por pura teimosia, entenderá no decorrer do texto porque a imagem de Andy Dufresne (Robbins), debaixo de intenso temporal, todo coberto de esgoto após atravessar cinco campos de futebol cheirando a merda, como Red (Freeman) não pôde ou talvez não quis imaginar, me veio à cabeça com o retorno do Santa Cruz à Série B, após longos seis anos nos porões do futebol brasileiro. Sem direito a banho de sol ou visitas íntimas. Afinal, não existe intimidade quando até 60 mil pessoas estão presenciando tudo.

Quando se fala na derrocada vivida pelo Santa nos últimos anos, é normal que comecem pelo rebaixamento à Série B, após uma péssima campanha no Brasileirão de 2006. Foram apenas 28 pontos, até então a pior campanha de um clube desde que os pontos corridos foram adotados. Recorde que não durou muito, já que o América-RN somaria apenas 17 já no ano seguinte, pontuação que o Náutico anda se esforçando herculeamente para repetir em 2013.

Eu iria mais longe e diria que tudo começou na final do Pernambucano daquele ano, quando o tricolor foi derrotado nos pênaltis pelo Sport. O clube vinha de uma temporada anterior praticamente perfeita, na qual levantou a taça do estadual com facilidade (ganhou os dois turnos e dispensou a necessidade de uma final) e só não foi campeão também da Série B por conta dos desdobramentos da famosa “Batalha dos Aflitos”.

Conquistar o bicampeonato em plena Ilha do Retiro talvez desse àquele grupo a confiança necessária para fazer uma campanha mais decente no nacional. A derrota teve o efeito inverso e colocou uma pressão com a qual não conseguiram lidar. Na ânsia de salvar o ano, muito dinheiro foi (mal) gasto e o clube acumulou dívidas que vieram a prejudicar a campanha na Série B do ano seguinte, no qual o Santa embicou para baixo de vez, com o segundo rebaixamento consecutivo.

“Ô, Josué, eu nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”

O torcedor coral que ainda conseguia enxergar o copo meio cheio (o que era ilusão de ótica, pois ele já estava até quebrado) deve ter pensado: “pelo menos, daqui é só subida, não tem mais para onde cair”. E era verdade, até que a CBF resolveu criar a Série D, que em seu primeiro ano contaria com os 20 melhores colocados da Série C de 2008. Ainda afundado em uma crise existencial, institucional e financeira, lá foi o Santa cortar a fitinha da nova divisão do futebol nacional.

Se o clube já não cabia direito na terceira, imaginava-se que a passagem pela quarta seria meramente um vergonhoso rito de passagem. Não foi. O Santa precisou de três chances para voltar à Série C, que foi de tão indesejada a loucamente almejada. Lotar o Arruda e ser destaque na mídia nacional e internacional por isso não era o suficiente. Aprendeu-se a duras penas que o peso da camisa não seria o bastante para derrotar os Guaranys de Sobral que cruzassem o seu caminho. Era preciso se organizar. Mudar ou… mudar de vez, já diria o trôpego poeta.

De diretoria nova, a cobra coral entrou nos eixos em 2011. O cenário não conspirava a favor. Nunca o abismo entre o Santa e a concorrência havia sido tão grande. Na base do esforço, da sorte e da coletividade, o tricolor levantou a taça, enquanto o Sport gastava os tubos para alcançar o hexa e o Náutico fazia o mesmo para evitar que a sua marca fosse igualada.

No mesmo ano, sem muito brilhantismo, o Santa subiu à Série C, com um sofrido empate em 0x0 contra o Treze, em um Arruda abarrotado. A maré positiva seguiu no ano seguinte, com uma equipe já mais confiante. Jogando de igual para igual com os grandes rivais, ambos de volta à Série A, o clube chegou ao bicampeonato estadual, celebrado na Ilha do Retiro, em pleno aniversário do Sport. Zé Teodoro, técnico tricolor durante toda esta fase de realizações, até virou “Zé, te adoro” para a torcida, por mais que ela implicasse com o seu estilo cauteloso.

A gratidão ao comandante das conquistas recentes fez com que ele continuasse no cargo até o final do Brasileiro daquele ano, mesmo que nada indicasse que o final seria feliz. A melancólica reestreia na Série C acabaria com a sexta colocação do grupo A, derrotado em Marabá, a Sobral da vez. O sonho de jogar a primeira divisão no ano do centenário (2014) estava enterrado. A retomada não.

Remontado sob o comando de Marcelo Martelotte, o Santa conquistou o tri do Pernambucano. De novo, em cima dos rubro-negros. Mais uma vez, na Ilha do Retiro. Agora, com um time que poderia até ser considerado superior tecnicamente aos adversários. A vingança leonina viria com a cooptação do treinador campeão, que, de brinde, colocava o rival na mão de Sandro Barbosa (AQUELE ex-zagueiro do Botafogo), um cara cheio de boas intenções e frases feitas, mas nenhum preparo para aguentar o tranco.

“Eu corri, saí no tombo / senão, ia me lascar”

2013 começava a ficar perigosamente parecido com 2012. A diferença para o G-4 era pequena, é verdade. Mas a distância para a zona do rebaixamento também era mínima. Sandro tanto se fez de vítima em entrevistas, que acabou guilhotinado. Vica chegou para dar um mínimo de organização ao time e acabou classificando o Santa com a melhor campanha da primeira fase. O adversário nas quartas de final seria o Betim.

Digo, o Mogi Mirim.

Não, o Betim mesmo.

Há de se dizer que, durante a passagem pela Série C, o Santa pagou não apenas pelos próprios pecados, mas também comeu o pão que os imbróglios jurídicos de terceiros amassaram. No ano passado, o embalo pelo bicampeonato estadual se desfez, porque o início do torneio foi atrasado em mais de um mês, enquanto Treze e Rio Branco se enfrentavam nos tribunais. Agora, enquanto Betim e Mogi se resolviam, o Santa esperava. E a angústia devorava os estômagos corais.

Ao menos, serviu para enfeitar a festa. Como Sampaio Corrêa, Luverdense e Vila Nova já tinham conquistado seu lugarzinho na Série B, as atenções podiam se voltar todas para o Arruda. Ainda mais porque a rodada da primeira divisão caminhava sem maiores emoções, no embalo contagiante do Corinthians. O estádio esteve lotado, como era de se esperar. Mas lotado mesmo, daquele jeito que se você deixasse cair algo, teria de esperar o final do jogo para recolher.

O Betim, patinho feio pela menor tradição e pelo aspecto itinerante, foi um valoroso oponente, dominando as ações na segunda etapa e alimentando o drama que não poderia faltar. Tiago Cardoso, o grande nome do processo de retomada do Santa, presente sempre com atuações decisivas nos três títulos locais e nas duas campanhas do acesso, fez um daqueles milagres que explicam todas as suas frequentes demonstrações de religiosidade. Olho nele, Papa Francisco.

E o gol decisivo tinha de ser dele: Flávio Caça-Rato, que não tem a técnica de Walter (muito pelo contrário), nem marca gols a rodo como o brocador Hernane (mais uma vez, muito pelo contrário), mas completa a tríade de carisma que não anda, mas desfila pelos gramados brasileiros em 2013. Vale lembrar que o CR7 de fabricação nacional já havia se mostrado predestinado ao marcar um gol na final contra o Sport.

O gol do acesso premiou não apenas a persistência do atacante, mas também da torcida que o abraçou. Foram incontáveis as vezes que o torcedor coral viu Flávio se enrolar com a bola, por vezes de tanta vontade. Persistência que impediu com que o clube o rebatizasse de Flávio Recife, num surto de conservadorismo. Ficou Caça-Rato e acabou. Que nos perdoe a mãe dele, que não curte ver o filho ficando famoso por tal alcunha. E quem poderia culpá-la? Logo ela, que escolheu com tanto carinho o nome do menino Flávio Augusto.

“Só tem caranguejo esperto saindo desse manguezal”

Muitos podem se orgulhar de que nunca passaram nem perto da beira do poço. Outros podem afirmar sem medo que, caso venham a cair dentro dele, sairão ainda mais fortes. Pouquíssimos foram até o fundo dele e mostraram que o discurso não é só da boca para fora. O torcedor do Santa Cruz volta de seu passeio maldito pelas Séries C e D com as marcas de um soldado que sobreviveu a uma guerra.

Ninguém dá mais valor ao que é bonito do que quem viu o que há de mais feio. Contextualizando, fica claro que o retorno à Série B de um clube que tantas vezes esteve na elite é motivo de alívio, e não de felicidade. Mas os sentimentos acabam se confundindo quando já não se sabe mais onde começam as lágrimas e termina o sorriso. Onde terminam as arquibancadas do Arruda e começam os seus apaixonados frequentadores.