Moreno Torricelli completou 50 anos nesta quinta-feira e está longe de aparecer em listas tão seletas de melhores do futebol italiano. Foi, sim, um notável lateral na virada dos anos 1990 para os anos 2000 – a ponto de fazer parte de uma memorável Juventus campeã europeia, de ser ídolo também na Fiorentina e de disputar uma Copa do Mundo como reserva da seleção italiana. No entanto, o mais legal na trajetória do veterano não é exatamente sua grandiosidade, mas sim a pequenez da qual saiu. A quem trabalhava como marceneiro até os 22 anos de idade e defendia uma equipe da quinta divisão, saltar diretamente à Serie A e participar das principais competições do planeta é o enredo sensacional de um conto de fadas boleiro.

Nascido na região de Como em 1970, Torricelli nunca ganhou uma oportunidade nas categorias de base dos clubes profissionais. O defensor chegou a ser testado pelo próprio Como, mas não foi aprovado e rodou durante a sua adolescência por clubes amadores. Disputava as competições regionais da Lombardia, até ganhar uma chance na semi-profissional Caratese, da Serie D – equivalente à quinta divisão na época. Aos 20 anos, a carreira no pequeno clube não era suficiente ao jovem e ele precisava conciliar a rotina de jogador com o trabalho como marceneiro em uma fábrica de móveis.

Torricelli passou dois anos vestindo a camisa da Caratese. O futebol era um lazer aos finais de semana, sem grandes perspectivas além disso. Sua equipe, afinal, estava acostumada a fazer campanhas de meio de tabela em uma divisão inter-regional. Ao menos, ele recebia importantes lições de Roberto Antonelli, antigo atacante do Milan que iniciava sua carreira como treinador. Nesta época, o jovem deixou de ser líbero para se tornar lateral. Embora torcesse pela Internazionale, era um confesso apreciador de Franco Baresi e Paolo Maldini.

“Minha rotina era a mesma de muitos jogadores amadores apaixonados. Dos 15 anos aos 22, trabalhava até as seis da tarde. Ser marceneiro não me incomodava, o futebol era apenas para me divertir e ganhar uns trocados. Eu já tinha uma vontade de ferro na época. Era daqueles que encerram o expediente com a mochila preparada para correr ao campo. Treinava até tarde, pelo menos três vezes por semana. Eu me lembro desses sacrifícios com grande prazer. Também seria bonito mesmo se não tivesse chegado à Serie A”, lembrou, à Gazzetta dello Sport, em 2009.

A sorte do lateral só mudou em 1992, quando Claudio Gentile, então diretor esportivo do Lecco, procurava um defensor à sua equipe. O antigo ídolo da Juventus assistiu a uma partida da Caratese e se impressionou com o empenhado lateral de 22 anos. Em vez de levá-lo ao seu clube, recomendou-o à Velha Senhora. A oportunidade de se testar em uma potência nacional transformaria a vida do marceneiro. Giovanni Trapattoni, então treinador juventino, aceitou o conselho de Gentile (seu antigo comandado, um especialista na posição) e convidou o jovem para disputar uma série de amistosos ao final da temporada. Completaria o time da Juve, que estaria desfalcado de alguns atletas a serviço de suas seleções.

Torricelli disputou dois amistosos com a Juventus, contra Vicenza e Ancona no início de junho, e sua determinação na lateral direita deslumbrou Trapattoni. No entanto, o marceneiro até imaginou que a Velha Senhora tinha desistido do negócio, diante do silêncio nas semanas posteriores. O clube demorou a entrar novamente em contato. Na verdade, os bianconeri erraram o endereço do jogador e enviaram um telegrama para outra casa. Nele, estava um novo convite, para que se juntasse à pré-temporada. A confusão seria desfeita através de uma ligação, dias depois, reiterando a chance. Ainda sem contrato, o jovem da Serie D poderia treinar com seus ídolos, incluindo Roberto Baggio.

Neste período de preparação, Torricelli dizia a si mesmo que “deveria ter a curiosidade para entender por que eles são melhores e fazer mais para se tornar tão bom quanto eles”. Contudo, quando os amistosos de pré-temporada começaram pra valer, o nervosismo bateu no novato. “Minhas pernas tremeram durante o amistoso contra o Bayern de Munique e no Torneio de Cesena. Eu esperava que alguém aparecesse do nada e interrompesse o sonho. Trapattoni interveio e me convenceu. Eu prometi que seguiria em frente, como um digno juventino. E o resto vocês sabem…”, declarou Torricelli ao Corriere della Sera, em setembro de 1992.

O convite para integrar o time numa excursão ao Japão, no final agosto de 1992, sinalizava que a permanência estava próxima. Trapattoni sabia o que tinha visto naqueles primeiros jogos e nos treinamentos, por isso deu um voto de confiança a Torricelli. Assim, ele correspondeu nas oportunidades seguintes e assinou seu primeiro contrato profissional. A Juve pagou 50 milhões de liras na transferência, um valor baixo para a época, equivalente a quatro anos de salários na fábrica de móveis. Chegava no mesmo verão em que Gianluca Vialli era anunciado com pompas pelo clube, numa transferência recorde que custou 40 bilhões de liras.

“Trapattoni foi tudo para mim. Não sei quantos treinadores arriscariam a própria cara para lançar um garoto na Juventus. Seguramente o clube não precisava de um desconhecido Torricelli. Trap se atreveu: ele viu minha atitude, de alguém que poderia estar naquele time, e teve coragem para me lançar. Foi o homem que mudou minha vida e me ajudou a realizar um sonho”, comentou Torricelli, em entrevista recente à revista online Il Posticipo.

Torricelli integrou o elenco principal da Juventus na temporada 1992/93. Trapattoni nem demorou a utilizá-lo: a estreia oficial aconteceu logo em setembro, durante a goleada por 4 a 1 sobre a Atalanta na Serie A. Três dias depois, anotou seu primeiro gol, nos 6 a 1 sobre o Anorthosis pela Copa da Uefa. Ao final daquela temporada, o ex-marceneiro disputou 48 partidas, tomando a posição de Marco de Marchi. Foram 30 aparições pela Serie A, com assistências em vitórias sobre Milan e Napoli, apesar da “modesta” quarta colocação. Ao menos ergueu seu primeiro troféu, com a conquista da Copa da Uefa sobre o Borussia Dortmund.

“Eu asseguro que agora os nervos estão perfeitamente sob controle e que não sinto diferenças abismais entre os torneios amadores e a Serie A. Pelo contrário, acredito que muitos talentos são perdidos nessas categorias menores, que são muito abandonadas”, afirmou também ao Corriere, em setembro de 1992. Ao receber o primeiro salário, Torricelli prometeu até pagar uma rodada de champanhe aos jornalistas para comemorar. A humildade e a força mental eram duas de suas virtudes, que se uniam à combatividade e à potência física dentro de campo.

Não demorou para Torricelli se tornar um personagem querido nos vestiários da Juventus. Sua aplicação nos treinamentos era contagiante. O capitão Roberto Baggio, aliás, deu um apelido sugestivo: Geppetto, pelo passado do lateral como marceneiro. “Não sabia o que esperar do vestiário. Todos diziam que o mundo do futebol era formado por jogadores mimados, que ganhavam muito dinheiro, que tinham carrões e andavam com mulheres bonitas. Felizmente, a dinâmica dos vestiários na Juventus e na Caratese eram as mesmas: sempre um grupo de rapazes que se divertem praticando um jogo estupendo e dedicando a vida à sua paixão. A dinâmica é a mesma, com as devidas proporções”, relembrou recentemente, ao Il Posticipo.

O futebol de muita garra falaria mais alto à afirmação de Torricelli do que sua inexperiência ou sua técnica limitada. E ele seria uma peça constante no sucesso dos juventinos, mesmo com a saída de Trapattoni e a chegada de Marcello Lippi. O lateral não tinha boa relação de início com o novo treinador, assim como outros jogadores que já estavam no elenco, e até pensou em procurar novos rumos. Mudou de ideia no meio do caminho e se provou essencial à era vitoriosa que se ampliaria. As taças vieram aos montes a partir de 1995, quando a Velha Senhora faturou a Serie A, a Coppa Itália e a Supercopa.

O ano de 1996 seria mais especial a Torricelli. Ele chegou à seleção italiana e realizou sua estreia em janeiro daquele ano, durante um amistoso contra Gales. Estaria presente também na Eurocopa, realizada na Inglaterra. Ainda assim, o ápice aconteceu com a Juventus. A conquista da Champions League marcou uma geração brilhante dos bianconeri, que tinha o Geppetto entre suas figurinhas carimbadas. O defensor viveu uma atuação excepcional na decisão continental de 1995/96, com ótima marcação sobre o perigosíssimo ataque do Ajax e velocidade para iniciar os contragolpes. Seria eleito o melhor em campo por parte da imprensa italiana. “Super Torricelli” era o elogio do Corriere della Sera.

Em março de 1997, Torricelli teve uma séria lesão no joelho. Nada que o impedisse de incluir mais dois Scudetti no currículo e de estar em campo no vice da Champions em 1998, contra o Real Madrid. Nesta época, atuava em outras funções além da lateral direita, sem perder suas virtudes. Também foi convocado à Copa do Mundo de 1998. Reserva na equipe de Cesare Maldini, acompanharia do banco a campanha encerrada nas quartas de final, com a derrota nos pênaltis para a França.

Após o Mundial, Torricelli trocaria Turim por Florença. Ele tinha uma boa proposta do Middlesbrough na mesa, mas preferiu dar uma prova de gratidão a Trapattoni e se juntar ao antigo mestre na Fiorentina. O lateral faria parte de equipes não menos memoráveis da Viola, incluindo aquela que liderou a Serie A até o início do segundo turno em 1998/99. Seriam quatro temporadas no Artemio Franchi, disputando até Champions com o clube. O passado como juventino não o impediria de ser ídolo dos violetas.

Somando seus dois clubes, Torricelli superou as 250 partidas pela Serie A. Um bom número a quem, dez anos antes, não via alternativas além da Serie D. A queda física teve seu preço a Geppetto e sua carreira começaria a entrar em declínio no início dos anos 2000. Deixou a Fiorentina em 2002, após a falência do clube, e se transferiu à Espanha. Passou sem muito impacto pelo Espanyol, antes de pendurar as chuteiras em 2004, defendendo o Arezzo na Serie B. O carinho das antigas torcidas, todavia, seguiu muito além de sua aposentadoria.

Torricelli trabalhou como técnico, inclusive na base da Fiorentina, mas abandonou a carreira após a morte de sua esposa em 2010, vítima de uma leucemia. Passou a viver com os filhos em uma cidade do interior, trabalhando em uma escolinha de futebol – como contam os amigos da Calciopedia. Também faria participações esporádicas como comentarista na RAI e na Juventus TV. Se não foi o jogador mais brilhante, a entrega dentro de campo rendeu muita consideração. E a memória fica àquele que, através de uma baita história de vida, ajudou a ressaltar o lado mais humilde e romântico do futebol.