Após a morte de Julio Humberto Grondona em 2014, o futebol argentino passou a viver um vácuo de poder com um legado esportivo singular: trinta clubes na primeira divisão.

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Esse foi o ápice do programa “Fútbol para Todos” instituído por Cristina Kirchner em 2009, que levou a AFA a “se virar nos trinta” e formatar um campeonato com tantos clubes. A solução política e esportiva foi um campeonato de 30 rodadas.

Exato, 30 clubes e 30 rodadas. Essa rodada “extra” ficou conhecida como a rodada dos clássicos. Era um remendo que só ilustraria o que estava por vir, ainda mais após a morte de Grondona e a derrota de Cristina Kirchner, através de seu candidato Daniel Scioli em 2015 para Mauricio Macri.

Macri nunca se pronunciou sobre o fim do “Fútbol para Todos” durante a campanha nem no início de seu governo. Mas deixou o programa se desgastar sozinho com tantos clubes, era óbvio que a própria disputa mostraria que era um modelo inviável e as diferenças entre grandes e pequenos ficaria ainda maior.

Nos bastidores, Macri articulou a formação da Superliga Argentina de Fútbol (SAF), uma entidade independente da AFA para controlar a primeira divisão. Com um vácuo de poder, a AFA mal conseguiu organizar as próprias eleições na qual, com 75 votantes, terminou empatada em 38 a 38. Houve um voto duplicado, e não conseguiram identificar de quem era. A FIFA interveio com um comitê normalizador até que houvesse uma nova eleição.

Sem o respaldo do governo, que era quem injetava o dinheiro para financiar o futebol de elite no país, a Superliga acabou sendo articulada entre os clubes e Mauricio Macri conseguiu silenciosamente acabar com o “Fútbol para Todos”, sem nenhum dano político.

O “Fútbol para Todos” era um programa muito controverso, com apoio de uma grande parcela da população, sobretudo dos apoiadores de Cristina Kirchner. A ex-presidente argentina instituiu o programa após uma guerra declarada ao grupo opositor Clarín, proprietário da TyC (Torneos y Competencias), detentor dos direitos de transmissão do futebol há algumas décadas, com o qual só televisava os jogos via pay-per-view. O “Fútbol para Todos” disponibilizava as partidas gratuitamente na TV aberta.

No entanto, com um economia sempre muito especulativa e frágil, o dinheiro que o “Fútbol para Todos” provia passou a ser pouco, dada a vertiginosa desvalorização do Peso Argentino e de uma inflação descontrolada. Dessa forma, os clubes não tiveram dificuldade em buscar uma solução que rompesse com o modelo vigente. Da mesma forma que aceitaram o “FpT” em 2009, o largaram em 2016.

Com uma AFA enfraquecida politicamente desde a morte de Julio Grondona, que conseguia, independentemente do governo ou da situação do país, convergir interesses e concentrar o poder em suas mãos, a Superliga não teve muitas dificuldades em se consolidar propondo idéias, todas aprovadas pelos clubes membros, de Fair Play Financeiro, de distribuição de receitas mais igualitárias e de transparência, semelhante às principais ligas européias

Os clubes que não cumprissem com seus compromissos financeiros teriam punições esportivas com perdas de pontos além de multas econômicas. Tudo era comunicado de maneira transparente aos clubes. Os repasses estavam sempre disponíveis para que cada dirigente pudesse conferir quanto cada clube estava recebendo, dentro do acordo aprovado pelos próprios membros.

Mas veio o início da temporada 2019/20, e o novo sistema foi colocado à prova. San Lorenzo e Huracán não cumpriram com seus compromissos e deveriam ser punidos com a perda de seis pontos. Uma entidade que prezava pelo profissionalismo acabou tomando uma decisão política.

Os seis pontos não foram tirados dos clubes e foram aplicadas multas financeiras apenas. A Superliga trouxe um benefício de controle e transparência para os clubes, mas a contrapartida era um sistema confiável no qual os clubes que integravam pudessem se sentir respaldados caso desviassem suas gestões para modelos inconseqüentes como acontecia até a formação do órgão responsável pelo futebol de elite na Argentina.

A implementação do “Fútbol para Todos” trouxe mais receitas no curto prazo para os clubes, mas a grande maioria das instituições aumentou e muito as suas dívidas no longo prazo. A SAF evitava que isso acontecesse, não permitia que os clubes antecipassem suas receitas e comprometessem as futuras gestões.

Começou neste momento uma crise silenciosa de ruptura da Superliga. Os clubes entenderam que se o sistema não era confiável, que clubes do porte de San Lorenzo e Huracán podiam se endividar, então era melhor um modelo que permitisse práticas mais amadoras.

Ao longo dos três anos em que a SAF existiu até então, a AFA ficou responsável pela organização da Seleção, coisa que não conseguiu muito bem e acabou optando pela permanência de Lionel Scaloni por acaso, pois não encontrou um técnico disposto a assumir uma seleção cuja entidade fosse tão desorganizada e instável. A AFA também organizava as divisões abaixo da Superliga e a Copa Argentina, outro legado de Grondona que não deixava de ser uma ramificação do FpT.

A Copa Argentina tem a missão de levar o futebol de elite para o interior do país. Mas exige que Lanús e Chaco For Ever, por exemplo, joguem em Salta ou em Mendoza. Se fosse pensado somente para os maiores clubes, a idéia faz sentido, pois esses clubes possuem torcidas em todo o território argentino, mas o modelo político se manteve. Prefeituras e governos provinciais mantinham acordos com a AFA que permitiam que o modelo seguisse.

Com o ruído causado na SAF pela não punição de San Lorenzo e Huracán e em paralelo com a AFA conseguindo encontrar uma maré mais mansa após a efetivação de Scaloni como técnico o que trazia um suspiro de estabilidade após anos de caos, a AFA se movimentou e começou a conversar com os clubes.

A AFA, nas mãos de Chiqui Tapia, genro de Hugo Moyano, ex-líder sindical e atual presidente do Independiente, começou a fazer o que melhor sabe: política. Um jantar foi promovido na casa de Chiqui Tapia com a presença de vários presidentes dos clubes de primeira divisão em fevereiro de 2020 simbolizou o princípio do fim da Superliga.

Antes disso, em janeiro, quando a volta da competição coincidia com os jogos do Pré-Olímpico disputado na Colômbia, Chiqui Tapia já começou a colocar as asinhas de fora e disparou: “É uma falta de respeito isso da Superliga”, se referindo à superposição de calendário, já que a maioria dos jogadores da seleção sub-23 pertencia a clubes da Superliga.

Logo depois, a duas rodadas do fim da competição, veio uma bomba que desestabilizaria a SAF. Uma mudança no regulamento aprovado por todos clubes antes da competição iniciar. O rebaixamento mudaria de três para dois e haveria um jogo de playoff entre o antepenúltimo da Superliga nos Promedios (sistema de média de pontos que define os rebaixados no futebol argentino) e um time da segunda divisão que não conseguisse o acesso direto.

A AFA deu uma carteirada, e os clubes aprovaram a iniciativa e deixaram rolar. Passaram algumas semanas daquele jantar e dois dias após o final eletrizante da Superliga 2019/20, o que parecia ser um sucesso, já que Boca e River brigaram pelo título até os últimos segundos de jogo na última rodada da competição, veio a sentença de que a SAF implodiria de vez.

O presidente da entidade independente, Mariano Elizondo, renunciava de maneira indeclinável ao seu cargo, assim como vice-presidente primeiro, Jorge Brito. Neste dia, o vice-presidente segundo da Superliga, Marcelo Tinelli, presidente do San Lorenzo, estava em Salta, e segundo o estatuto ele assumiria o cargo.

Já se falava, então, abertamente sobre a criação da Liga Profesional de Fútbol, que estaria debaixo do guarda-chuva da AFA e seria responsável por organizar o futebol de elite do país. Mas por que não manter a Superliga e voltar à AFA?

Com a instabilidade gerada a partir das não-punições a San Lorenzo e Huracán, os presidentes dos clubes perceberam que seria mais vantajoso se submeter à AFA, com benefícios econômicos e nenhum controle em suas finanças do que obedecer a uma entidade independente.

A desculpa usada por muitos dirigente era que a Superliga não estava otimizando o potencial que tinha. Falou-se que os direitos internacionais de transmissão seriam melhor vendidos pela LPF. Os mesmos clubes que criaram a Superliga, terminariam implodindo a entidade poucos anos depois. O que muitos países como o Brasil sonha ter, uma Liga profissional independente, os clubes argentinos jogaram pelo ralo e optaram por voltar a um modelo rudimentar e político.

Marcelo Tinelli assumiu o cargo de presidente da Superliga e já falou com total convicção de que a primeira divisão do futebol argentino voltar à sua verdadeira casa era um bom caminho. O futebol hermano deixava Puerto Madero e voltava à Calle Viamonte, no centro de Buenos Aires.

Chiqui Tapia propôs que a Liga Profesional de Fútbol tenha seis vice-presidentes e não apenas dois, como era na Superliga. Quatro seriam dirigentes dos clubes da primeira divisão e os outros dois viriam da segunda divisão, sendo um deles do interior o outro da região metropolitana. Um modelo político, sem a interferência de pessoas que não pertencessem aos clubes.

Um dos vice-presidentes seria Rodolfo D’Onofrio, o manda-chuva do River Plate, mas o curioso é que D’Onofrio não estava naquele jantar e nem sequer foi convidado para uma reunião após o fim do campeonato no qual se decidiu que seriam três os rebaixados de maneira direta e não haveria mais o play-off. Um anúncio claramente político.

A derrota de Mauricio Macri teve um papel silencioso. O governo não interferia na Superliga, mas deixava via livre para seguirem o caminho que pretendessem, garantindo não interferência de uma AFA desorganizada como no período 2015–19.

A vitória de Alberto Fernández cuja vice-presidente é ninguém menos que Cristina Kirchner, autora do Fútbol para Todos de 2009, trouxe um respaldo (ou falta de) para que a AFA pudesse se mexer novamente em direção do futebol.

Chiqui Tapia ficava fortalecido com um poder de barganha que a Superliga não oferecia: adiantamento de receitas e ausência de controle sobre as finanças dos clubes. A primeira divisão voltava à AFA dessa forma mas ainda faltava disputar a Copa da Superliga no momento em que o país entrava no circuito da pandemia de coronavírus.

As entidades determinaram o fechamento dos estádios. Gimnasia e Banfield jogaram sem público na sexta-feira (13/03) e ao final do duelo, veio a notícia de que o River Plate não entraria em campo contra o Atlético Tucumán no sábado. Perguntado sobre, Diego Maradona, técnico no Gimnasia foi afiado: “não me dou com Las Gallinas, mas eu banco eles nessa até a morte!”.

Maradona saiu em defesa do River Plate, deixando o coração boquense de lado. Naquela noite, diversos jogadores do River Plate postaram em suas redes sociais o comunicado oficial do clube Millonario e apelaram para que não se jogasse futebol em um momento tão delicado da saúde pública do país.

Leonardo Ponzio, veterano e líder riverplatense, chegou a ligar para vários jogadores de diferentes clubes pedindo para que não jogassem alertando para o risco. Na sexta-feira (13/03) de manhã, um jogador do time reserva do River Plate foi dado positivo no teste da Covid-19. Por mais que haja uma batalha política em questão, não é um absurdo que os jogadores não queiram entrar em campo. Nem Maradona quis.

A Superliga emitiu um comunicado no qual ela dizia estar cumprindo com as exigências feitas pelos órgãos de controle sanitário do país e das províncias onde se realizariam as partidas no final de semana. O clube que não acatasse sofreria as punições previstas no regulamento.

D’Onofrio não abriu os portões do estádio Antonio Vespúcio Liberti, o Monumental de Núñez, no sábado, a delegação do Atlético Tucumán, a comissão de arbitragem e todo a equipe de televisionamento deram de cara com as grades fechadas do estádio.

O presidente dos Millonarios jogou com o que tinha nas mãos e se mostrou o único clube contrário à desintegração da Superliga. E se a SAF se desintegrou, quais seriam as punições cabíveis a partir de uma entidade que além de estar implodindo não puniu severamente conforme previsto no seu regulamento os clubes que não cumpriram as regras?

O futebol argentino nas últimas semanas mostrou que o slogan da Bandnews FM faz muito sentido. Em vinte minutos tudo pode mudar. E assim foi.