Para um clube que milita nas divisões inferiores do Campeonato Paulista, a Série B parece um sonho distante. Quem figura na A-2, na A-3 ou na infernal “Bezinha” conhece bem as penúrias de ter um calendário esburacado, recursos escassos, elencos sazonais. Há quatro anos, era essa a realidade do São Bento de Sorocaba. Rebaixado à terceira divisão estadual em 2011, o Bentão vivia a incerteza comum a tantos outros clubes tradicionais do interior paulista. Sabia que a reconstrução deveria acontecer passo a passo. Em 2013, o mero acesso na Série A-3 já representava um imenso alívio. O que talvez nem os torcedores mais otimistas esperavam é que esta conquista seria apenas a primeira etapa de uma escalada meteórica pela pirâmide do futebol nacional. A cada ano, o São Bento subiu um degrau. E continua subindo. Neste domingo, a celebração ficou por conta da promoção na Série C, graças ao empate por 0 a 0 com o Confiança, o suficiente para levar o Estádio Walter Ribeiro à loucura.

Principal representante do futebol de Sorocaba, o São Bento atravessou 28 anos disputando a primeira divisão do Campeonato Paulista. De 1963 a 1991, o Azulão se manteve como um notável coadjuvante do estadual. Dificilmente se metia entre os primeiros colocados, registrando no máximo um honroso quarto lugar em sua temporada de estreia. Ainda assim, tornou-se um clube que as demais torcidas paulistas aprenderam a respeitar. O declínio dos sorocabanos começou na década de 1990, seguindo nas divisões inferiores. Teve uma efêmera volta à elite entre 2006 e 2007. De qualquer forma, nesta época estava em voga na cidade o “projeto” do Atlético Sorocaba. O Bentão parecia preso ao seu passado.

Em 2011, o novo rebaixamento do São Bento foi doloroso. Voltar à Série A-3 parecia jogar fora tudo o que haviam esboçado nos anos anteriores. Todavia, o desabamento significou também a reconstrução do clube. Sob nova direção, o trabalho gerou frutos. Em 2013, ano do centenário, o Azulão deu-se por satisfeito em conquistar a terceira divisão paulista e assegurar o acesso. Na temporada seguinte, subiu também na A-2. E o retorno à elite estadual, oito anos depois de sua participação anterior, foi bastante satisfatório. O São Bento terminou na décima colocação do Paulistão 2015, longe de correr o risco de ser rebaixado. Ótimo para um planejamento mais longo.

Então, em 2016, a ascensão estadual se refletiu nos campeonatos nacionais. O Bentão foi o quinto colocado do Paulistão. Terminou a fase de classificação com apenas duas derrotas e caiu nas quartas de final, eliminado pelo campeão Santos. Já se garantia na Série D do mesmo ano. Que o tempo fosse curto para preparar o elenco, os sorocabanos entravam na competição já entre as principais forças, considerando o aporte financeiro que a primeira divisão de São Paulo possui. Desta maneira, o clube fez uma campanha excelente na quarta divisão nacional. Passou com sobras por seu grupo, antes de eliminar Brusque e J. Malucelli nos mata-matas. Já na etapa decisiva, contra o Itabaiana, duas vitórias selaram o acesso à Série C. Só não resistiram ao CSA na corrida pelo títulos, caindo nas semifinais.

Por fim, a manutenção acabou sendo o grande trunfo na terceirona. Com passagens intermitentes pelo banco de reservas desde 2014, o técnico Paulo Roberto Santos é a mente por trás do Azulão. A campanha no Paulistão 2017 foi abaixo do esperado, uma posição acima da zona de rebaixamento. Nada que tirasse o treinador do comando. O traço mais marcante de seu trabalho se escancarou ao longo da Série C: a defesa fortíssima. O São Bento terminou a fase de classificação com a primeira posição do Grupo B, sofrendo apenas dez gols em 18 partidas. Despontou como favorito para os confrontos de vida ou morte com o Confiança.

O passo fundamental para o acesso aconteceu na última semana, em Aracaju. A torcida proletária lotou o Batistão e botou pressão. Nada que intimidasse os visitantes. O São Bento conquistou uma vitória fabulosa, construída logo nos primeiros 17 minutos de jogo. Anderson Cavalo e Everaldo anotaram os gols que deram o triunfo por 2 a 0, garantindo uma valiosa vantagem para o reencontro no Walter Ribeiro. Faltava pouco para a festa se completar. E a torcida sorocabana faria a sua parte, também enchendo as arquibancadas. Neste domingo, quase 10 mil pessoas aguardavam a noite gloriosa. Ela veio, em jogo mais tenso do que muitos esperavam.

bento

Os nervos estavam à flor da pele. Isso ficou claro desde o primeiro tempo, de entradas duras, cartões e discussões. O Confiança tentava pressionar, sem muito sucesso, e também tomava seus sustos na defesa. As necessidades aumentaram no segundo tempo. O São Bento criou ótimas oportunidades, até que os sergipanos respondessem. E o jogo acelerou quando os paulistas ficaram com um a menos, depois que João Paulo recebeu o segundo amarelo. Seriam mais 20 minutos para sofrer com apenas dez homens. Sem criatividade, o Confiança se limitava às bolas alçadas e aos chutes de longe. Faltava muito para tirar a diferença de dois gols. Segurando a vantagem na unha, o Bentão pôde vibrar ao apito final.

O São Bento voltará a disputar a segunda divisão do Campeonato Brasileiro depois de 35 anos. Os sorocabanos participaram da antiga Taça de Prata em 1983, assim como em 1981, além de integrarem a inchada edição do Brasileirão de 1979. Outros tempos, nos quais o torneio nacional estava diretamente interligado aos estaduais. Atualmente, a presença na Série B representa uma sustentabilidade bem maior da estrutura. O Azulão contará com um calendário cheio, maior aporte financeiro, maiores possibilidades comerciais. E uma torcida que vem empurrando seu sucesso.

O público deste domingo foi o maior do São Bento em 10 anos, desde a estreia no Paulistão de 2007, contra o Corinthians. E o mais legal desta vez é que os sorocabanos estavam nas arquibancadas, indubitavelmente, pelo Bentão. Manter uma média tão alta na Série B se coloca como um desafio. Mesmo assim, há um potencial enorme de engajamento. Sorocaba realmente abraça o seu clube mais tradicional. É diferente de tantos outros representantes paulistas que pintaram na segundona durante os últimos anos. Clubes com dinheiro e com força política, mas sem capacidade de mobilizar os torcedores ao seu redor.

E a importância do que o São Bento protagonizou não se limita a si. A façanha provoca os sonhos em outros emblemas do interior. Os feitos recentes do Guarani, apesar do exemplo do renascimento, eram um pouco mais distantes da maioria, considerando a grandeza do Bugre ao longo de décadas. Os sorocabanos oferecem uma realidade mais palpável. Obviamente, o caminho das pedras trilhado desde 2013 é dificílimo de se reproduzir, ainda mais com tamanha sucessão de conquistas. Independentemente disso, o Bentão é o que motiva Botafogo, Ferroviária, Rio Preto, XV de Piracicaba, Taubaté, Comercial, Inter de Limeira, Marília, Noroeste, Paulista, Rio Branco, América, São José, XV de Jaú e uma lista infindável de camisas tradicionais. É o norte que ajuda a recobrar a grandeza do futebol do interior paulista, um tanto quanto adormecido e maltratado por más gestões, mas ainda capaz de se colocar entre as principais forças nacionais.