Cyrille Regis, o artilheiro que se tornou herói de uma geração de jogadores negros na Inglaterra

O ex-atacante Cyrille Regis morreu no domingo à noite, aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco. Ele foi parte de um time histórico do West Bromwich Albion, que teve o trio chamado de Three Degrees, no final dos anos 1970, ao lado de Brandon Batson e Laurie Cunningham. Foram 112 gols em 302 jogos pelo clube, o que o torna o 10º maior artilheiro da história dos Baggies. Além de tudo isso, foi um símbolo de quem enfrenta o racismo de frente, em uma época que ele não só era ainda mais comum, mas também que era muito mais aceito.

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“Ele se tornou um dos grandes símbolos da luta contra o racismo no Reino Unido como um pioneiro para jogadores negros por toda a nação e além”, diz comunicado no site do West Brom.

“Todos na Football Association ficaram chocados e entristecidos ao ouvir que Cryrille Regis morreu nesta manhã, aos 59 anos de idade”, disse o presidente da FA, Greg Clarke, em comunicado. “Cyrill não será lembrado pela região de West Midlands e na Inglaterra por suas qualidades como artilheiro, mas como alguém que abriu novos caminhos para uma geração de jovens negros neste país durante os anos 1970 e 1980”.

Cyrille Regis ficou no West Brom de 1977 a 1984, quando foi para o Coventry City. Ficou de 1984 a 1991 no clube, pelo qual conquistou a Copa da Inglaterra de 1987. Já veterano, jogou ainda por Aston Villa de 1991 a 1993, Wolverhampton em 1993/94, Wycombe Wanderers, em 1994/95 e pendurou as chuteiras atuando pelo Chester City, em 1995/96, aos 38 anos. Foi um jogador marcante, com o seu nome mais ligado ao West Bromwich, seu primeiro clube e pelo qual conseguiu impressionar a Inglaterra.

Início no West Brom

Cyrille Regis marca um gol característico: enchendo a rede pelo West Brom

A história de Cyrille Regis começa na Guiana Francesa. Nasceu em 9 de fevereiro de 1958. Ano de Copa do Mundo. Seu pai se mudou para a Inglaterra em 1962 – outro ano de Copa –, mas a família só chegou para acompanha-lo no ano seguinte. Depois de terminar a escola, Regis se formou eletricista, mas a sua vida seria marcada mesmo como jogador.

Diferente de tantos outros jogadores, ele não esteve em um clube para participar de categorias de base. Jogava em um clube amador, dos chamados non-league, o Hayes, e foi observado por Ronnie Allen, do West Bromwich, em um jogo. Fora das primeiras divisões e trabalhando em uma obra para pagar as contas, a vida do jovem atacante seria mudada para sempre depois daquele dia.

Foi lá que Allen viu Cyrille empurrar bola, goleiro e zagueiro para dentro do gol ao completar um cruzamento. Imediatamente percebeu um talento e o levou para o West Brom, que procurava um substituto para a camisa 9 usada por Jeff Astle. Ele ficou tão impressionado que disse que se o clube não quisesse pagar as 10 mil libras para contratá-lo, ele pagaria do próprio bolso. Em abril de 1977, Cyrille assinou contrato profissional com os Baggies.

O destino sorriu para Cyrille quando o técnico John Giles pediu demissão no final daquela temporada e quem assumiu foi justamente Ronnie Allen, que o tinha visto e indicado sua contratação. Ele já tinha estreado e marcado gols, mas se tornou mesmo um fenômeno na temporada seguinte. Em 1978, em uma excursão do time à China, nascia o que se chamou de Three Degrees, um trio de jogadores negros com Curylle ao lado de Cunningham e Batson.

Naquela época, em uma Inglaterra que praticamente só tinha jogadores brancos e com arquibancadas formadas inteiramente por brancos, havia muito preconceito com jogadores negros. Bom, era uma época que o preconceito contra negros era muito mais forte e muito mais aceito socialmente. Era um tempo que os neonazistas da Frente Nacional, na Inglaterra, tinham relativo sucesso. Por isso, o papel que aqueles jogadores negros tiveram foi muito importante.

“Entre eles, no ano seguinte, eles destruíram todos os estereótipos estúpidos e preguiçosos que existiam sobre jogadores negros, deslumbraram a nação e lideraram uma onda de talento negro que, em última instância, se tornou central do nosso jogo nacional”, escreve o site do West Brom sobre o seu famoso trio. Estereótipos que fundamentavam um racismo que eles não escaparam e influenciaram suas carreiras na seleção inglesa.

Contra o racismo, futebol

Cyrille Regis em 11 de março de 1978, com a camisa do West Bromwich Colorsport/REX/Shutterstock (3137793a)

“Eles não conseguem lidar com isso. Eles têm um ressentimento”, disse Cyrille certa vez, sobre os racistas. “Eu tinha o meu talento. Eu usei isso em vez de responder”. Estamos falando de uma época de imitações de macaco que eram tão fortes que os torcedores levavam bananas e os torcedores do Tottenham cantavam no estádio que “o grande Cyrille está em uma árvore”. O pensamento dele era não se afetar por isso e mostrar resiliência, ser mais forte. Se deixar afetar seria deixar que eles vencessem.

O comportamento racista era tão comum e tão aceitável que alguns episódios que hoje parecem absurdos eram vistos como naturais. Na estreia de Cyrille Regis pela seleção sub-21 da Inglaterra, em setembro de 1978, Garth Crooks marcou três gols contra a Dinamarca e, mesmo assim, ouviu diversos cantos racistas de alguns torcedores da própria Inglaterra. Sim, da própria torcida inglesa, que deveria comemorar seus gols. Ele foi alvejado com xingamentos e cantos racistas dos seus compatriotas nas arquibancadas.

Em sua autobiografia, Cyrille fala com uma certa resignação sobre o fato. “Aquilo nos surpreendeu”, escreveu Regis. “Por que vaiar seus próprios jogadores?”. Cyrille ignorava a intolerância dirigida a negros como ele, porque ele olhava para um contexto maior. Em uma época de tamanha intolerância, ele não queria mostrar fraqueza e nem dar força a um discurso de vitimização. Sabia que precisava resistir para não ser massacrado. Se o racismo é um problema em 2018, em 1978 a situação na Inglaterra era muito pior.

De tantos gritos racistas dirigidos a ele, o único que o tirou do sério foi um que falava sobre lamber botas. “Era carregado com tons de colonialismo supremacista, escravidão e subserviência”, descreveu Cyrille. Ele nunca se curvou ao racismo, enfrentando como era possível naquela época, com a força que empurrava a bola para as redes, junto com zagueiros e goleiros. “Julgar alguém pela cor da pele mostra medo e insegurança sobre quem você é. Graças a Deus eu sabia quem eu era”, disse Cyrille Regis sobre o racismo que enfrentou. Não se furtava a falar sobre o assunto, mas sempre com calma e uma tolerância que o caracterizava. Quem o conhecia dizia que era impressionante o quanto ele era tolerante e que a sua humanidade era um dos traços mais marcantes.

Um jogo entre brancos x negros

Cyrille Regis com a camisa do West Bromwich em 1984 (Photo by David Cannon/Allsport/Getty Images)

Um dos momentos que Cyrille Regis destacou como marcantes na sua vida foi um episódio que precisa ser entendido na época que aconteceu: um jogo festivo entre brancos e negros, em 16 de maio de 1979. Era uma partida para comemorar a carreira de Len Cantello, defensor do West Bromwich Albion. Um jogo festivo, como tantos que vemos hoje, com estrelas do Campeonato Inglês. Mas divididos entre brancos como Cantello e negros como Cyrille.

Um jogo separando jogadores por raças é absurdo nos dias de hoje, mas na época essa separação era socialmente aceita e aquela partida teve um papel para ajudar a mudar a percepção que havia. Hoje em dia, um jogo assim seria tratado como segregacionista e racista – e é mesmo -, mas naquela época foi um marco importante em um ambiente social de muita intolerância e separação de etnias.

“Nós todos pensamos: ‘Grande ideia’”, lembrou Brendon Batson, um dos negros que jogou aquela partida. “Foi apenas uma novidade e nós nunca pensamos sobre os aspectos sociais. Nenhuma vez alguém nos ligou para dizer ‘Vocês percebem as implicações?’ Foi diversão. Não se esqueça que desde pequenos nós sempre fomos minoria. E agora podíamos fazer um time formado por nós [negros]. Isso era uma atração”, continuou.

Foi Cyrille Regis o responsável por organizar um time de negros para a partida. Ele, evidentemente, chamou seus dois companheiros de West Brom, Laurie Cunningham para formar o trio com Batson. Chamou também Garth Cooks, Remi Moses e a dupla do Wolverhampton, George Berry e Bob Hazell.

Mais do que separar os times por raça, na época os que participaram sentiram que aquilo trouxe algo de multiculturalismo, destacando o crescente surgimento de talentos negros para um público majoritariamente branco. O próprio Cyrille Regis ressaltou esse aspecto.

“Para nós, foi histórico, da jornada de chegar até aqui, dizerem que não somos bons o suficiente, não ver jogadores negros e então, nós conseguimos montar um time. Foi incrível, descreveu Regis. Havia, porém, uma ponta de disputa que normalmente não estava presente em jogos festivos como esse. “Todos tínhamos uma coisa na cabeça: nós iremos vencê-los”, disse.

Eles se chamaram de “All Blacks” e cumpriram a promessa que fizeram a si mesmos. Venceram o time de brancos por 3 a 2, assistidos por um público de 7.023 pessoas, com um grande número de pessoas de minorias étnicas nas arquibancadas. E o motivo é a principal razão de pessoas como Cyrille Regis serem tão importantes: eles se sentiram mais seguros lá do que em um jogo comum, porque se sentiam representados dentro de campo.

Pioneiro, referência e herói de uma geração

Cyrille Regis posa para foto quando foi convocado para a seleção inglesa, em 1982 (Foto: Getty Images)

Cyrille Regis teve apenas cinco jogos pela seleção inglesa entre 1982 e 1987, algo que parece pouco pelo talento que ele tinha. É inevitável associar que eram outros tempos e Regis era apenas o terceiro jogador negro a vestir a camisa da Inglaterra, depois de Viv Anderson e Cunningham. Mas ele abriu o caminho para nomes como Andy Cole ou Emily Heskey.

Os jogadores negros, mesmo crescendo em número, ainda eram vistos como atletas, não jogadores. Em português claro: havia uma crença que os negros eram intelectualmente piores. Os técnicos da seleção inglesa não apostavam em jogadores negros, a não ser um ou outro que atuasse como pontas, porque era uma posição que exigia mais físico e velocidade.

Um centroavante negro, na época de Cyrille Regis, era algo absolutamente incomum. Richard Williams, no jornal Guardian, faz uma descrição que indica um pouco o tamanho do talento do jogador: “Ele lembrava um Jairzinho, transferido para as áreas centrais, ou um prenúncio do poderoso George Weah”. Ele lembra que naquela época, alguns dos grandes jogadores do mundo eram negros, como Pelé, recém saído do Brasil para o Cosmos, já nos momentos finais da carreira, e Jairzinho, o furacão da Copa de 1970, que deixou marca forte nos ingleses, campeões do mundo em 1966 e derrotados pelos brasileiros quatro anos depois. Na Inglaterra, porém, os negros eram raros, menos ainda para serem considerados craques desta categoria.

Dave Bowler, editor do site do West Bromwich, fez uma descrição emocionante sobre um dos seus heróis. “Se a Marvel não fosse americana e, portanto, imune ao futebol até comparativamente tempos recentes, eles teriam inventado Cyrille Regis anos antes de encontra-lo jogando em um time amador enquanto trabalhava em uma construção”.

“Quem era ele? O jogador impossível. Vestindo uma camisa muitos tamanhos menores que ele – Brendon Batson insiste que ele fazia isso de propósito, mas eu suspeito que foi simplesmente porque a Umbro não tinha material suficiente na sua fábrica para cobrir um corpo musculoso como Popeye quando comia espinafre -, ele claramente se trocava em uma cabine telefônica, jogando sua capa sobre os ombros antes de sair dos vestiários como Supercirylle, pronto para salvar o mundo. Ou, ao menos, o Albion, que é muito mais importante, se você pensar bem”, escreve Bowler.

Cirylle deixou a vida, mas estará para sempre entre as lendas do futebol inglês. Um personagem histórico, lembrado como um pioneiro, que usou a força dos seus músculos em campo para bater de frente com o racismo, vencê-lo e seguir, fora de campo, como alguém que não baixava a cabeça. Um herói sem capa que terá sempre um lugar no coração dos torcedores do West Bromwich Albion. Eterno na história de um esporte tão apaixonante.


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