Um jogo decisivo (na maioria das vezes) reúne a história de vencedores e vencidos. Para Honduras, o resultado desta sexta-feira na Copa Ouro teve ares catastróficos. Em péssimo momento, a seleção sofreu a segunda derrota no torneio continental e já amargou sua eliminação antecipada. Contudo, do outro lado, Curaçao celebrou um momento único ao seu futebol. A ilha caribenha, território autônomo do Reino da Holanda, conquistou o triunfo por 1 a 0. É sua primeira vitória na fase moderna da competição continental – e o primeiro desde 1969, quando compunha as Antilhas Holandesas no antigo Campeonato da Concacaf. A vibração dos jogadores representa o tamanho do feito e também a ascensão da pequena seleção.

Curaçao passou a contar com sua própria equipe nacional em 2011, meses após a dissolução das Antilhas Holandesas. Surgiu como um saco de pancadas na região, com raras vitórias, limitadas a adversários irrisórios. Os primeiros sinais de sua evolução vieram em 2015, batendo Trinidad e Tobago em amistoso. Seu treinador recém-empossado era Patrick Kluivert. O comandante conquistou outros bons resultados na época, classificando o time às fases seguintes da Copa do Caribe. Porém, deixou o cargo para assumir como diretor de futebol do Paris Saint-Germain. Passou o bastão a Remko Bicentini, que manteve o alto nível.

Sob as ordens de Bicentini, Curaçao conquistou o inédito título da Copa do Caribe, o que não havia conseguido nem como Antilhas Holandesas. Eliminou a Martinica nas semifinais e bateu a Jamaica na decisão, em junho de 2017. O título valeu a participação na Copa Ouro no mês seguinte, mas a equipe terminou na lanterna do grupo, derrotada por México, El Salvador e pela própria Jamaica. De qualquer maneira, o retorno aos torneios continentais após mais de quatro décadas (como Antilhas Holandesas) representava um salto. O ritmo se manteve, com vitórias significativas em amistosos contra Catar, Bolívia e Índia. Presente novamente à Copa Ouro de 2019, a ilha brilhou.

A estreia não foi tão promissora assim, com a derrota por 1 a 0 contra El Salvador. No entanto, o triunfo contra Honduras valeu a história para Curaçao. O gol saiu com o jogador mais talentoso do elenco: o camisa 10 Leandro Bacuna, do Cardiff City. Nascido na Holanda, chegou a defender a Oranje na base, mas optou pela terra de seus ascendentes no nível principal. Anotou 10 gols em 20 partidas, desde sua primeira convocação em 2016. Nesta sexta, garantiu o resultado com um chute no cantinho, aos 40 minutos.

Curaçao poderia ter feito mais gols no fim da partida, desperdiçando bons contra-ataques. Ainda assim, o verdadeiro herói no triunfo estava do outro lado do campo. O goleiro Eloy Room fechou sua meta. Ele conteve o bombardeio de Honduras, especialmente em chutes de longe. Realizou nada menos que 15 defesas ao longo dos 90 minutos, quebrando o recorde de intervenções na competição. Como se não bastasse, foi salvo pela trave duas vezes. “Eloy é um goleiro ruim”, brincou o técnico Bicentini, antes de falar sério. “Não ele é um ótimo goleiro, ganhou o jogo para nós. Pegou várias chances de Honduras, cumpriu o seu trabalho”.

Room, assim como Bacuna, nasceu na Holanda e é descendente de imigrantes que saíram de Curaçao. Entre base e profissional, jogou 15 anos de sua vida no Vitesse, atualmente aparecendo como reserva do PSV. E aceitou o chamado da seleção em 2015, em relação se repete. Dos 23 jogadores que compõem o elenco na Copa Ouro, 12 atuam no futebol holandês e 13 nasceram no território europeu. A política de recrutamento desses atletas se intensificou justamente em 2015, com Kluivert. Gera grandes efeitos. Um dos poucos a chegar antes disso foi o capitão Cuco Martina, outro tarimbado, atualmente no Feyenoord.

A classificação de Curaçao aos mata-matas ainda é complicada. O time soma três pontos, um a menos que Jamaica e El Salvador. Disputará seu último jogo na fase de grupos da Copa Ouro contra os favoritos jamaicanos. De qualquer maneira, pelo que apresentaram nos últimos anos, é uma seleção para figurar mais vezes na elite a Concacaf e, quem sabe, almejar saltos maiores. O triunfo desta sexta soa mais como o começo do que como o final.