A entrega do envelope errado, justamente no principal prêmio da noite, ofuscou aquele que realmente foi o momento mais importante do Oscar 2017. Durante o anúncio aos candidatos à estatueta de ‘melhor ator’, Viggo Mortensen exibiu um escudo do San Lorenzo. Fato é que, com envelope trocado ou não, erraram em não condecorar o protagonista de ‘Capitão Fantástico’ por tamanha mostra de paixão. Se não venceu, ao menos, o americano deu a deixa para explicarmos sua torcida pelo Ciclón.

Embora tenha nascido em Nova York, Mortensen teve uma vida de nômade durante a infância. Morou na Venezuela, na Dinamarca e na Argentina, sempre acompanhando o pai, que trabalhava com avicultura. E, durante os oito anos que passou em Buenos Aires, conheceu o fanatismo que se alimentava desde Boedo. O garoto cresceu nas vizinhanças do Estádio ‘Viejo’ Gasómetro, ainda casa dos cuervos na época. Assim, tornou-se azulgrana doente. E, mesmo voltando para os Estados Unidos aos 11 anos de idade, o americano carrega aquela velha paixão pela vida.

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Quando ainda morava em Boedo, Mortensen pôde acompanhar grandes times do San Lorenzo. Durante o início dos anos 1960, o Ciclón eternizou os ‘Carasucias’, equipe de futebol ofensivo e protagonizada por diversos garotos que haviam saído recentemente das categorias de base – entre eles Narciso Doval e Roberto Telch. Já em 1968, durante seus últimos meses na Argentina, o futuro ator comemorou a primeira taça do clube em 11 anos, com ‘Los Matadores’. Treinados pelo brasileiro Tim e estrelados pelo artilheiro Rodolfo Fischer, os azulgranas conquistaram o Campeonato Metropolitano de 1968. Aquele foi o primeiro título invicto da competição desde que o futebol argentino adotou o profissionalismo, na década de 1930.

Ao retornar para os Estados Unidos, Mortensen deixou a torcida adormecer um pouco. Mas ela voltou com tudo em 1995, quando Héctor ‘Bambino’ Veira (parte dos Carasucias e dos Matadores em seus tempos de jogador) comandou o San Lorenzo ao título de 1995, encerrando 21 anos de jejum. Desde então, a febre de bola impulsiona o torcedor a ver todos os jogos dos cuervos pela televisão. O ator se tornou fã principalmente do atacante Alberto Acosta, que soma quatro passagens pelo Ciclón e é o sexto maior artilheiro da história do clube. Com os gols de Beto, o americano comemorou as conquistas da Copa Mercosul de 2001 e da Copa Sul-Americana de 2002. Não à toa, passou a usar a camisa do ídolo em diversas ocasiões, inclusive nas gravações de Senhor dos Anéis, por baixo de seu figurino como o rei Aragorn.

A loucura de Viggo Mortensen pelo San Lorenzo ficou mais conhecida ao longo da última década. Em 2008, ele foi convidado especial nas comemorações do centenário do clube. Naquele mesmo ano, havia também concorrido ao Oscar de melhor ator por seu papel em ‘Senhores do Crime’. Não exibiu as cores azulgranas durante o evento, mas levou uma bandeira na festa posterior à premiação – e certamente teria subido ao palco com ela, caso tivesse vencido Daniel Day-Lewis na oportunidade. Além disso, as aparições do astro no Nuevo Gasómetro viraram costumeiras. Era o principal embaixador cuervo, até a escolha do Papa Francisco. Inclusive, quando o americano bancou a construção de uma capela dentro da sede do San Lorenzo, foi o então cardeal Jorge Mario Bergoglio quem benzeu.

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“Sou torcedor desde que me recordo. Vou falando do San Lorenzo por todo o mundo. Agora, escapei do set e não sei se saberão onde estou. Não me importa se entendem. Eu, sim, entendo”, declarou, nos festejos do centenário. “Vim porque sinto paixão pelo San Lorenzo, porque é algo que incorporei à minha vida desde menino e cultivo sempre, onde estiver. Muitos me dizem que sou simpatizante do exterior, mas eu me sinto parte do interior, do interior do coração cuervo. A maior honra da minha vida é ser do Ciclón”.

Em 2014, ano no qual o San Lorenzo conquistou o sonhado título da Copa Libertadores, Mortensen ficou em chamas. Durante o Festival de Cannes, em maio, levou um cartaz pedindo: ‘Queremos la Copa’. Além disso, escreveu uma coluna ao jornal ‘Marca’ sobre a final do Mundial de Clubes. Embora também simpatizasse com o Real Madrid, durante os tempos em que viveu na Espanha, não teve dúvidas sobre sua torcida – tratou o Ciclón como “o clube que sempre terá o primeiro lugar em meu coração”. O ator, inclusive, esteve presente nas arquibancadas para a decisão, disputada no Marrocos.

Já neste domingo, além do escudo escancarado na transmissão oficial do Oscar, Viggo Mortensen também exibiu outro detalhe azulgrana: um broche de um corvo, preso na lapela de seu smoking. Mero detalhe, mas que escancara o nível de fanatismo do ator. “Creio que ter vivido na Argentina me deu mais senso de humor. Como torcedor do San Lorenzo, apesar do sofrimento, sempre rimos quando perdemos ou ganhamos”, declarou, no tapete vermelho. Se pudesse, porém, daria o Oscar a outro representante azulgrana: José Sanfilippo, por ‘O Golaço entre Potes de Maionese’.