Quando Cuca foi anunciado como técnico do Palmeiras, o torcedor e os analistas colocaram uma pulga atrás da orelha. Perceberam que o estilo daquele Atlético Mineiro campeão sul-americano de 2013 era muito parecido com o que Marcelo Oliveira tentava fazer com o time alviverde – e não estava dando certo. No entanto, essa análise sofre com a proximidade.

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Cuca tem outros bons trabalhos no seu currículo, no Goiás, no São Paulo, no Flamengo, no Fluminense e no Cruzeiro, cada um com suas particularidades e aspectos táticos. Alguns eram ofensivos, com passes curtos e posse de bola. Outros esperavam mais o adversário e tentavam surpreender.

A loucura pura do Atlético Mineiro de 2013 é apenas um dos lados de um treinador multifacetado e com recursos. Chamamos jogadores que atuaram em três das outras equipes de Cuca (e também no Galo Doido) para que eles mesmos explicassem como esses times funcionavam taticamente.

Galo Doido

campinho atlético mineiro

O Atlético Mineiro foi o time com qual Cuca conquistou seu maior título, a Libertadores de 2013, e também um de seus maiores fracassos: a derrota para o Raja Casabranca na semifinal do Mundial daquele ano. Típico de um time de altos e baixos que costumava jogar mal fora de casa e compensava em casa, com muita entrega dos jogadores e apoio da torcida. As reviravoltas frequentes renderam ao time o apelido de “galo doido”.

O Galo apostava bastante nas bolas longas e era espaçado dentro de campo, aproveitando a qualidade de Jô como pivô, os cruzamentos dos laterais, e marcando bastante para dar liberdade para Ronaldinho Gaúcho criar. Isso causava uma certa instabilidade defensiva, que era compensada no volume de jogo extravagante quando as partidas eram disputadas no Independência.

Uma das peças-chave daquele time era o lateral direito Marcos Rocha, que nos conta as principais características do campeão sul-americano:

“O estilo era parecido com o que temos hoje, mas dependia muito do adversário também. Tínhamos um poder ofensivo muito forte, com um jogador aberto em cada ponta e um atacante centralizado, assim como no time do Diego Aguirre. A opção do passe longo muitas vezes funcionava naquela época, com o Jô como referência. O Pratto hoje também é essa referência pra gente. Eu sempre tive liberdade para apoiar, desde o comando do Cuca.”

O Carrossel Alvinegro

Campinho - Botafogo 2007

O Botafogo de 2007 destacava-se muito pela movimentação, a ponto de ser chamado “de Carrossel Alvinegro”, e pelas variações táticas, às vezes dentro de uma mesma partida. No papel, podia ser apenas mais um 4-3-3, mas Luciano Almeida, o lateral esquerdo, fechava como zagueiro, empurrando Joílson para a ala direita (ou o meio-campo), com o atacante Jorge Henrique no outro lado. Quando Jorge encostava no ataque, a equipe parecia um 3-4-3.

O Botafogo brigou pelo título com o São Paulo no primeiro turno do Campeonato Brasileiro de 2007, com um importante confronto na última rodada, mas sucumbiu ao time de Muricy Ramalho, caiu de rendimento e acabou em nono. Ainda assim, foi a equipe mais criativa de Cuca e da qual o torcedor botafoguense mais tem saudade nos últimos anos. Túlio, homem de confiança do treinador e um dos líderes daquele elenco, conta como a equipe funcionava taticamente:

“Era um time bem ofensivo. Agradava ao torcedor. Era até difícil de identificar o sistema de jogo porque variava muito. Tinha dia que jogava com três zagueiros, dia que era um falso 4-4-2, porque o Luciano Almeida era nosso lateral esquerdo e às vezes jogava como zagueiro. Muita gente não percebia que jogávamos no 3-5-2. Cuca sempre escolhia os jogadores que tinham mais versatilidade. Na maioria dos jogos, tivemos mais posse de bola que o adversário, mas não era um time com marcação alta. Apenas em um jogo outro fazia isso. Na maior parte deles, Cuca recuava o time para fazer a marcação na intermediária do adversário, para quando a bola fosse roubada, usar a velocidade de Zé Roberto e Jorge Henrique. Exigia muito dos volantes fazendo a ultrapassagem, apoiando o ataque. A marcação era por zona. Dificilmente fazíamos individual, a não ser quando tinha um jogador fora de série no outro lado.”

O Barcelona das Américas

campinho cruzeiro 2011

Cuca teve uma passagem bem sucedida pelo Cruzeiro, que durou um ano. Assumiu o clube na metade de 2010, na oitava rodada do Brasileirão, e conseguiu ser segundo colocado, a dois pontos do campeão Fluminense. O grande momento veio no primeiro semestre da temporada seguinte. A equipe mineira voou na fase de grupos da Libertadores, com cinco vitórias e um empate. Além dos resultados, destacou-se o estilo de jogo ofensivo, com muito toque de bola, que valeu à Raposa o apelido de “Barcelona das Américas”.

Era evidentemente exagerado, mas o Cruzeiro colecionou goleadas naquele período. Enfiou uma em cada adversário da chave da Libertadores – Estudiantes (5 a 0), Guarani (4 a 0) e Tolima (6 a 1) –, fez 7 a 0 no Democrata-GV e passou o carro duas vezes sobre o América-TO na semifinal do Mineiro, do qual foi campeão, com 8 a 1 na ida e 5 a 1 na volta.

O time variava entre o 4-4-2 e o 4-2-3-1, com Wallyson juntando-se à linha de armadores, que tinha Roger e Montillo, ou encostando em Wellington Paulista ou Thiago Ribeiro. Marquinhos Paraná e Henrique eram os volantes, com aparições especiais de Leandro Guerreiro, e a defesa tinha Pablo, Gil, Victorino e Diego Renan. As opções no banco também eram abundantes: Dudu (hoje no Palmeiras), Ernesto Farías, Ortigoza e Gilberto, ex-jogador da seleção brasileira, que jogou na lateral esquerda e no meio-campo dessa equipe do Cuca e nos conta os seus pormenores táticos:

“Nosso time era muito bom, com Fabrício, Wallyson, eu, Gil, Caçapa, Montillo, Taticamente, ele é muito capaz. Como treinador, acho excelente, no nível do Tite. O time jogava praticamente por música. Todo mundo sabia o que tinha que fazer. Era muito toque de bola, jogava compacto, criava muitas chances de gol. Em Belo Horizonte, diziam que jogávamos que nem o Barcelona, principalmente na Libertadores. Não dava para comparar, claro, mas nosso time jogou muito com o Cuca. A marcação era mais adiantada. Não dava chance para o adversário. Sempre tentando roubar a bola. Marcávamos um pouco mais na intermediária do adversário, mas compactos entre a intermediária deles e a nossa. Deixávamos o goleiro ou os zagueiros saírem jogando, pressionávamos o lado em que estava a bola, esperava o abafa e geralmente conseguíamos recuperá-la. Era a maneira que ele trabalhava.”

A base do trimundial?

campinho são paulo

Muitos creditam a Cuca plantar a semente da fase recente mais gloriosa da história do São Paulo, o terceiro título sul-americano e mundial, que precederam o tricampeonato brasileiro. Embora não seja uma tese unânime, de fato muito da estrutura tática e dos jogadores que brilhariam com Leão, Paulo Autori e Muricy Ramalho nos anos seguintes começaram com o atual treinador do Palmeiras no primeiro semestre de 2004. O sistema com três zagueiros, que seria tão utilizado pelo clube, foi usado na Libertadores (jogo de volta das quartas da Libertadores contra o Deportivo Táchira).

A campanha no torneio sul-americano foi ótima, com cinco vitórias na primeira fase, uma classificação suada contra o Rosário Central e um passeio contra o Deportivo Táchira, nas quartas de final. Caiu para o Once Caldas nas semis e para o São Caetano nas quartas do Paulista.

Alguns jogadores do ótimo time do Goiás que o treinador comandou em 2003 acompanharam-no para o São Paulo, como Danilo, Grafite e Fabão, ex-zagueiro que nos conta as principais características daquele time:

“Cuca armava um esquema tático forte, um time que marcava e jogava. Foi o que fez no Goiás e no São Paulo. Era um time que esperava um pouco mais o adversário, mais compacto, que fechava os espaços. Usava o passe curto, era tudo juntinho. O ataque subia e a defesa tinha que subir junto. Na hora que o time estivesse com a bola, era para acelerar um pouco. Quando abria vantagem, ele pedia para mantermos a posse de bola. Era uma marcação mais individual. Quando jogava com três zagueiros, marcava-se os atacantes e o outro sobrava; os volantes pegavam os meias.”


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