O São Paulo amanheceu nesta quinta-feira, 26, com a dor da derrota para o Goiás no Morumbi. Foram incríveis 36 cruzamentos para a área ao longo do jogo, que soou como um desespero de quem não sabe o que fazer para evitar a primeira derrota em casa. Não conseguiu. Jogo à noite, com garoa, frio, time jogando em casa com terceiro uniforme azul, baixo público no Morumbi (12.505 torcedores). O time parecia não fazer o bastante, mas Cuca, depois do jogo, disse que ele fez tudo que podia e os jogadores também. Um time sem ideias claras, sem alternativas, sem saída. E, assim, Cuca pediu o boné. Nesta quinta-feira, pediu demissão do São Paulo alegando não saber mais como fazer o time jogar mais.

Depois de anunciada a sua saída, ele deu justificativa no CT do clube, em entrevista coletiva. “Não sei te dizer ao certo qual o problema. Se eu soubesse qual o problema, eu falava. Vocês bateram muito no padrão de jogo. Eu queria explicar que todo ser humano tem sua característica, eu tenho a minha. Qual é a característica do Cuca? Eu gosto de marcação na frente, rápido. Não gosto de time que tem morosidade. Às vezes, ser mais objetivo. Infelizmente o meu estilo não casou com o estilo do São Paulo. Não combinou. Não é por isso que eles não são bons, eles são ótimos. Mas não encaixou”, explicou Cuca.

O São Paulo de Cuca parecia um time em busca de uma identidade. Muitos jogadores pareciam não se encaixar. Alexandre Pato, o reforço que ele não pediu e chegou mesmo assim, sempre pareceu estar longe do que o treinador entendia como o melhor jogo possível. Hernanes também. Nenhum dos dois parecia encaixar na ideia de um jogo muito intenso que Cuca parece querer. Um tipo de jogo que exige muito fisicamente dos jogadores nas posições dos dois, Pato na ponta ou Hernanes no centro do campo.

Os dois não conseguiram render tão bem quanto esperado e ainda sofreram com lesões – um problema que assolou o treinador em boa parte da sua segunda passagem pelo Morumbi. Só que a sua chegada é só mais um capítulo de uma história conturbada e cíclica que tem acontecido no Morumbi. As lesões diminuíram as opções do técnico, sem dúvida, mas o problema é que não havia identidade de jogo nem com todos os jogadores, nem sem ele.

O ano de 2019 do São Paulo começou com esperança. O técnico era André Jardine, que tinha muito sucesso na base do clube. A escolha já tinha parecido precipitada em 2018, quando ele assumiu nos últimos cinco jogos do Campeonato Brasileiro. A atabalhoada eliminação diante do Talleres na fase preliminar da Libertadores foi um vexame grande demais para a curta carreira de Jardine, que caiu.

O substituto foi escolhido, mas não podia assumir: justamente Cuca, que se recuperava de um problema de saúde. Foi anunciado, deu entrevista, mas não assumiu. Foi Vagner Mancini, o gerente de futebol que disse que não assumiria, mas assumiu. Ficou alguns poucos jogos antes de Cuca, o escolhido, chegar em meio às finais do Campeonato Paulista. O time vinha em uma ascensão, um pouco mais arrumado, mas ainda sofrendo muito para jogar. Não havia um padrão, o time não tinha uma ideia definida de jogo, que mudava demais. Era um prenúncio.

Vieram os dois empates sofríveis com o Palmeiras (o primeiro ainda com Mancini), mas seguida da classificação nos pênaltis no Allianz Parque, primeiro ponto que o time do Morumbi conquistou no novo estádio do rival. Veio a final contra o Corinthians, com empate em casa e derrota em Itaquera, e o título ficou com o alvinegro. Cuca, porém, tinha o Brasileiro. Só que no nacional, o time seguiu sem conseguir um grande futebol, embora, em alguns momentos, tenha conseguido vitórias.

Logo depois do retorno da Copa América, o São Paulo empatou com o Palmeiras e enfileirou cinco vitórias seguidas: Chapecoense, Fluminense, Athletico Paranaense, Santos e Ceará. Em todos eles, o time teve problemas, uns mais, outros menos, mas o único jogo realmente empolgante acabou sendo contra o Santos. Mesmo assim, foi um jogo com falhas individuais clamorosas da defesa santista. O São Paulo não tinha grandes atuações coletivas, mas ia vencendo.

O problema de quem não sabe por que o time ganha é que não sabe também por que deixa de ganhar. A derrota para o Vasco iniciou uma série de seis jogos, com uma vitória dois empates e três derrotas. Os empates vieram diante do Grêmio, que jogou com reservas, e CSA, na zona do rebaixamento. Ambos no Morumbi. As derrotas foram para Vasco, Inter e Goiás, este último a primeira derrota em casa. Jogar em casa vinha sendo um problema para o São Paulo. Dos 11 jogos que atuou como mandante, o time venceu apenas quatro, com seis empates e adicionou uma vitória ao cartel nesta quarta-feira.

No total, Cuca teve um aproveitamento de pontos muito ruim no São Paulo: apenas 47,4% em 26 jogos, sendo nove vitórias, 10 empates e sete derrotas. O São Paulo vinha sem um padrão de jogo, sem conseguir ver seus principais jogadores renderem e, em campo, bastante espalhado. A defesa afundada, o meio-campo longe das duas pontas do campo, o ataque isolado. Por várias vezes, o que pareceu é que o time ia no abafa e se fiava em estatísticas como número imenso de chutes a gol, mesmo que poucos deles fossem realmente chances de gols.

Embora Cuca tivesse uma espinha dorsal do time, as mudanças foram constantes. O São Paulo não era um time com um jogo característico. Não é um time que prioriza a posse de bola, mas também não é um time muito vertical, de transições rápidas. Não é um time que tem uma base defensiva sólida e parte daí, nem é um time que tem um ataque muito forte. Isso é parte do problema. O São Paulo oscila em tudo – no que é bom e no que é ruim – e isso, dentro dos jogos, acaba tornando o time pouco confiável, irregular e insuficiente para disputar na ponta da tabela.

Cuca deixa o clube sem saber qual era o problema do time e, ao menos, entendeu o que parecia claro já há alguns jogos: ele não sabia como tirar mais da equipe. Sai do clube e abre espaço para outro. A questão para o São Paulo passa a ser quem. Raí, diretor de futebol, confirmou que no próximo sábado quem dirige a equipe é Vagner Mancini, novamente alçado a técnico interino. Até quando? Eis o mistério. É possível que ele fique enquanto não tiver outro – e isso pode durar até o fim do ano.

Apesar do futebol de pouca criatividade e a dificuldade em marcas gols, o São Paulo ainda está em uma posição razoável no Campeonato Brasileiro. A sequência negativa deixou o time em sexto lugar, com 35 pontos. O quarto colocado neste momento, Internacional, tem 36, só um a mais. O Santos, terceiro, tem 37. Palmeiras, com 42, e Flamengo, com 48, já parecem muito distantes para um time tão inconstante.

O desafio do próximo treinador – ou mesmo de Vagner Mancini – será como usar melhor um elenco caro, mas que rende pouco. O Bahia, comandado por Roger Machado e do artilheiro Gilberto, tem 34 pontos, é o sétimo colocado e vem em alta. Se o São Paulo seguir patinando – e o próximo jogo é contra o Flamengo no Maracanã, talvez o pior jogo possível neste momento -, pode ser ultrapassado pelo tricolor baiano já na próxima rodada. O grêmio, oitavo, tem 31 pontos e também pode encostar.

O que se sabe é que Cuca parece um treinador que não conseguiu ter uma ideia de como jogar com o time do São Paulo, que lhe ofereceu recursos, um elenco qualificado e tempo de treinamento, conquistado pelos fracassos, diga-se, na Copa do Brasil e na própria Libertadores, lá no começo do ano. É preciso jogar melhor e ao menos parecer ter uma ideia de jogo.

Diego Aguirre, que era o treinador nos melhores momentos do time em 2018, tinha uma ideia de jogo, mas sofria com o futebol pouco criativo – e por isso degringolou até perder o rumo e ficar fora dos quatro primeiros colocados, o que levou à sua demissão, à contratação precipitada de Jardine e ao ciclo que vimos no começo deste texto. Acho que deu para entender que é preciso pensar agora para não ter que repensar em meados de 2020, certo?