Nem sempre os confrontos de mata-mata são garantia de emoção. No entanto, quando toda a dramaticidade da ocasião é aproveitada, alguns jogos são capazes de se tornar clássicos instantâneos. É o que aconteceu nesta quarta-feira, dentro do Mineirão. O Cruzeiro x Fluminense destas oitavas de final já tinha bons ingredientes prévios, entre a disparidade da ida no Maracanã e o troco tricolor dias depois pelo Brasileirão. Ainda assim, havia uma classificação a se resolver, e os dois times não ficaram devendo em um embate cardíaco. Foi uma partida deveras tumultuada, é verdade. Os pênaltis e as interrupções do VAR ofereceram pausas repletas de tensão. Apesar disso, acabaram virando elementos essenciais à noite em que os dentes rangeram, em que as equipes se alternaram na iniciativa, em que não faltaram surpresas. O empate por 2 a 2, com um gol de bicicleta de João Pedro para resgatar o Flu aos 51 do segundo tempo, já sacramentou o épico. Mas quis o destino que, em uma disputa de pênaltis repleta de erros, o Cruzeiro fosse premiado por sua atuação. O triunfo por 3 a 1 na marca da cal reforça o sonho celeste pelo tri consecutivo no torneio.

O empate por 1 a 1 no jogo de ida mantinha a situação completamente aberta. O Fluminense mandou na partida do Maracanã, mas tomou o gol na única chegada do Cruzeiro e precisou recobrar o prejuízo nos minutos finais – na primeira prova da iluminação de João Pedro. Três dias depois, a goleada do Flu por 4 a 1 na Série A referendava a superioridade tricolor e pressionava bastante os celestes, em mau momento da temporada. Os jogos recentes pareciam jogar o favoritismo aos visitantes, por mais que a Raposa pudesse jogar em casa. Para isso, a força da torcida se tornou fundamental, ajudando o time de Mano Menezes a se reerguer. Antes disso, contudo, viria a provação.

O drama se desenhou desde os primeiros minutos. Apesar da chegada inicial do Cruzeiro, forçando a defesa de Agenor, o Fluminense partia para cima e tentava resolver o jogo o quanto antes, sem abdicar de sua vocação ofensiva. Era outra exibição dominante dos cariocas. E eles conseguiram um pênalti aos nove minutos, assinalado após o auxílio do árbitro de vídeo. O roteiro cruel da partida já ficava escancarado. Fábio defendeu a cobrança de Ganso e Luciano marcou no rebote, mas a invasão de ambos os times na área causou a anulação do tento. Então, o armador manteve a confiança e botou os tricolores em vantagem, na segunda batida. Decisão correta do juiz, apesar do imbróglio.

O Cruzeiro pareceu sentir o gol e o Fluminense esteve próximo de ampliar, em cruzamento que deu trabalho a Fábio. Demorou um pouco até que os celestes esboçassem uma mínima reação. E eles tiveram que se virar sem Fred, lesionado, deixando o campo para a entrada de Sassá. Era um jogo de ímpeto, apesar das muitas paralisações. O Flu, de qualquer maneira, se mantinha superior. Sabia fechar bem os espaços dos cruzeirenses, administrava as situações e gastava o tempo. Além disso, era mais perigoso. Os mineiros precisariam de outra atitude para o segundo tempo.

Mano Menezes começou mexendo no time, tirando Marquinhos Gabriel para a entrada de Pedro Rocha. O Cruzeiro ganhou profundidade na volta do intervalo, movimentando-se bem e criado mais ocasiões. O gol de empate saiu aos 13 minutos. Após cobrança de escanteio, a bola pipocou na área e Thiago Neves apareceu livre para cumprimentar de cabeça. Apesar da situação mais confortável, a Raposa não diminuiu o ritmo. Aproveitou o momento e continuou com uma postura mais incisiva em campo. Aos 20 minutos, novo pênalti, desta vez para os cruzeirenses. O árbitro Rafael Traci nem olhou no vídeo, em marcação discutível após a queda de Pedro Rocha. Agenor se garantiu. Sassá deu uma paradinha, mas não botou força na bola e o goleiro do Fluminense manteve o empate no placar.

Era um jogo imprevisível, embora o Cruzeiro desse um passo à frente pela classificação. Agenor voltou a se agigantar em uma saída diante de Pedro Rocha. E na marca de 33 minutos, mais um pênalti, agora só assinalado depois da intervenção do árbitro de vídeo. A torcida gritou o nome de Thiago Neves, enquanto Rafael Traci olhava no monitor e conferia a jogada. Quando confirmada a infração, o veterano não titubeou, tirando do alcance de Agenor. Restavam dez minutos no relógio, mais acréscimos. Foi então que a loucura desatou de vez.

O Fluminense não se entregava. Um gol ainda forçaria os pênaltis e o time de Fernando Diniz foi com tudo para cima. Fábio começou a acumular milagres. Realizou três grandes defesas na reta final, especialmente em uma cabeçada colocada de Ganso no segundo minuto dos acréscimos. Não que o Cruzeiro só tomasse sufoco. Pouco antes, em um contra-ataque, Pedro Rocha arrancou e exigiu ótima intervenção de Agenor, antes que Sassá isolasse o rebote. Porém, este não era um jogo para terminar assim, sem um desfecho catártico. Ele viria de novo com João Pedro, o iluminado.

Por conta das paralisações, os minutos dilatados de acréscimos eram plenamente compreensíveis. Foi quando o garoto apareceu. O Fluminense tentava encontrar uma brecha de qualquer maneira e seguia insistindo no jogo aéreo. Daniel levantou uma bola na área e então, da maneira mais sublime possível, João Pedro decretou o empate. Com espaço, o atacante foi inteligente, ao mesmo tempo que esbanjou habilidade. Virou uma bicicleta fatal, de primeira, que não deu chances a Fábio e determinaria a disputa por pênaltis. A definição do classificado estava mesmo fadada à marca da cal.

Quando o desânimo pelo gol no final poderia abater o Cruzeiro, o time foi mais eficiente nas cobranças. Não de imediato. Lucas Silva começou finalizando e mandou para fora. Ganso deu sequência e carimbou o travessão. Depois, Lucas Romero bateu e também parou na barra, enquanto Caio Henrique converteu o seu, deixando o Flu em vantagem. A situação da Raposa só começou a mudar quando Pedro Rocha deslocou Agenor, antes que Fábio pegasse o chute de João Pedro. Sassá se refez do trauma batendo do mesmo jeito, desta vez longe de Agenor, nas redes. Gilberto carimbou a trave mais uma vez, consolidando a virada dos mineiros. Por fim, a classificação ficou nos pés de Thiago Neves. Ele não desperdiçaria, com um arremate seguro, para selar sua participação fundamental na reação cruzeirense. O meia, que gosta de jogos grandes, mais uma vez seria decisivo – pelos gols e mesmo pela liderança no segundo tempo.

O Cruzeiro permanece sete partidas sem vencer com bola rolando. Mas ninguém nega que este é um triunfo maiúsculo, dramático, cardíaco. Daqueles que moldam o caráter de um time e reforçam sua veia copeira. O Fluminense cai em pé. Mesmo tendo um time inferior no papel, foi melhor na somatória de minutos e pecou principalmente pelo empate no Maracanã. De qualquer maneira, o começo e o final de sua exibição no Mineirão foram ótimos, mas não suficientes para a vitória, permitindo aos cruzeirenses ressuscitarem suas esperanças. Não se pode menosprezar o potencial desta equipe de Mano Menezes, mesmo com seus poréns e com a fase reticente. A classificação tem um peso enorme, pela forma e por manter a Copa do Brasil na mira. E a Raposa adora a Copa do Brasil, sobretudo quando a passagem vem desta forma. É uma noite inesquecível, em que os corações celestes passaram pelo teste mais exigente. Foi impossível acompanhar o duelo sem sentir taquicardia.