Foi em maio que o vice-presidente do Cruzeiro, Itair Machado, convocou uma entrevista coletiva constrangedora, na nascente da crise da Toca da Raposa, quando os resultados do começo do Campeonato Brasileiro eram ruins, ao lado do capitão Henrique para anunciar que estava tudo bem, o grupo estava unido, as vitórias voltariam, e nenhum salário estava atrasado: “Da nossa parte, o esclarecimento é este: não existe crise aqui no Cruzeiro”.

Bom, se não existia (e todos sabem que existia), em quatro meses ela nasceu e cresceu muito rapidamente a ponto de estar martelando na cabeça de todos os cruzeirenses, como um trash metal de baixa categoria, atingindo o seu ápice, nesta quinta-feira, com a demissão de Rogério Ceni.

Nesse período, a diretoria cruzeirense se viu investigada por pagamentos suspeitos, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, Itair machado foi afastado e voltou mediante liminar, os salários estão mesmo atrasados, a dívida segue galopante, o time foi eliminado da Libertadores e da Copa do Brasil, limitando seus objetivos a escapar do rebaixamento, Mano Menezes foi embora e os resultados, acredite se quiser, conseguiram até piorar.

E o cargo de Henrique como capitão está aparentemente sub judice porque quem manda no Cruzeiro mesmo é Thiago Neves.

Ninguém do Cruzeiro está particularmente nas graças da torcida neste momento, mas, entre dirigentes acusados de fraudar o clube e jogadores que foram campeões menos de um ano atrás, o segundo grupo talvez ganhasse um concurso de popularidade, na recontagem, excluídos votos brancos e nulos, e nenhum cartola quis testar essa tese mandando Thiago Neves baixar a cabeça e jogar bola depois de ele publicamente desafiar o comando de Rogério Ceni.

Era a semifinal da Copa do Brasil. Ceni avaliou que as condições físicas de Edilson não eram as ideais e escalou Jadson na lateral direita. Thiago Neves não gostou e o cobrou em declarações à imprensa. Ceni respondeu que Neves reclamou por “ver o amigo no banco” e, depois da goleada sofrida para o Grêmio por 4 a 1, colocou o meia-atacante no banco de reservas. No empate por 0 a 0 contra o Ceará, ele nem entrou no segundo tempo. Após esse tropeço na última quarta-feira, quinto jogo seguido sem vitória da Raposa, Dedé pediu a palavra no vestiário para defender o colega e discutir com Ceni, a gota d’água da relação entre técnico e elenco.

Na queda de braço, a diretoria do Cruzeiro ficou ao lado dos jogadores. “O Cruzeiro informa que Rogério Ceni não é mais o técnico da equipe. A decisão foi tomada nesta quinta-feira, e o treinador foi comunicado em reunião realizada com o vice-presidente de futebol Itair Machado”, confirmou o clube, em nota.

Nesse cenário, fica até difícil avaliar a passagem de Ceni pelo Cruzeiro. Não foi nem boa e nem ruim: foi inexistente. Ele chegou com uma ideia de futebol e conseguiu até derrotar o então líder Santos, mas, depois de levar algumas pancadas, decidiu dar um passo atrás no seu estilo e, embora tenha vendido com inflação as derrotas para Palmeiras e Flamengo, estava há cinco partidas sem vencer e na zona de rebaixamento.

Tudo isso aconteceu em um intervalo de 46 dias e oito jogos, recorde até para os padrões brasileiros de hipervelocidade na degradação de trabalhos de treinadores. O erro de Ceni foi provavelmente ter subestimado os problemas do Cruzeiro, quando aceitou sair do Fortaleza, mas a maneira como a história se deu não deve causar sérios danos à sua imagem.

Por outro lado, o Cruzeiro está à deriva. Precisa convencer algum ser humano sensato a assumir a batata-quente de um clube endividado, com dirigentes checando as páginas policiais, sem coragem para desafiar um elenco formado por medalhões que não estão rendendo o que podem e que também não parecem muito dispostos a serem incomodados, dentro da zona de rebaixamento.

Boa sorte.