A primeira vez que Johan Cruyff viu Eusébio jogar, de perto, foi bem antes dos épicos duelos que eles protagonizaram por competições europeias. Aconteceu em 1962. O holandês tinha apenas 15 anos de idade e já se destacava nas categorias de base do Ajax. Por isso, ganhou o prêmio de ser um dos gandulas na final da então Copa dos Campeões, entre Benfica e Real Madrid, que naquele ano seria disputada em Amsterdam, na Holanda.

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Foi ali, bem ao lado do campo, entre uma bola e outra que repunha em campo, que Cruyff se encantou com a genialidade do Pantera Negra, autor de dois dos gols que deram a vitória ao Benfica por 5 a 3 e o bicampeonato europeu aos encarnados – e se impressionou também com a versatilidade de Di Stéfano e a habilidade de Puskás, que marcou os três gols espanhóis.

Anos mais tarde, já jogador profissional, Cruyff – o rebelde que não utilizava as chuteiras da Adidas – passou a calçar o as chuteiras da linha Puma King, criadas e desenhadas para o próprio Eusébio, que assinava o modelo.  E foi justamente com a ideia de contragolpear o Benfica, que tinha no Pantera Negra um dos maiores jogadores do mundo, que o Porto tentou contratar o gênio holandês. Ao final da temporada 1969/70, em que os dragões terminaram apenas em nono lugar no Campeonato Português (a pior campanha da história do clube), alguma coisa precisava ser feita.

Foi quando o então presidente Afonso Pinto de Magalhães acatou a ideia do técnico escocês Tommy Docherty, de buscar um jovem promissor que fazia muito sucesso no Ajax e que, em Portugal, poderia ser um rival à altura de Eusébio. O mandatário portista convocou uma Assembleia Geral dos sócios e os convenceu a se cotizar para tentar a bombástica contratação.

A vaquinha dos associados rendeu 6 mil contos (o dinheiro da época). E foi com esse valor em mãos que Pinto de Magalhães contatou o clube holandês, na esperança de poder contar com o jogador, de então 23 anos de idade. A resposta, porém, não foi bem o que os portistas esperavam. O Ajax pediu 8 mil contos pelo passe de Cruyff, valor que subiria para aproximadamente 11 mil contos somando os salários do jogador.

O valor impraticável para o Porto na época não foi o único fator que impediu o mito holandês de vestir a camisa dos dragões. Ao saber do interesse do clube português, Cruyff também fez questão de deixar claro que não gostaria de se transferir, por um motivo esportivo: ele preferia ficar no Ajax e disputar a Copa dos Campeões do que ir ao Porto e não jogar nem sequer a então Taça da Uefa.

E foi assim que o sonho portista de contar com um dos maiores jogadores de futebol da história chegou ao fim. Ao invés de Cruyff, o clube contratou meses depois o brasileiro Flávio Minuano, ex-Fluminense, por metade do valor que pagaria pelo holandês. Cruyff seguiu sua vida no Ajax, ganhou títulos, transferiu-se para o Barcelona e tornou-se a lenda que todos reverenciam. E o Porto voltaria a ser campeão nacional somente em 1977/78.