Johan Cruyff elevou o futebol em seus mais diversos aspectos. O garoto que cresceu com dificuldades para caminhar tornou-se um dínamo, de enorme capacidade física. A técnica amansava qualquer bola em seus pés, ludibriava qualquer marcador à sua frente, auxiliava qualquer companheiro ao seu lado. E, unida à inspiração e à transpiração, a tática se mapeava nas linhas de suas mãos. Se a velocidade de raciocínio colocava o camisa 14 sempre no controle do tempo, ele também sabia dominar os espaços como ninguém. Em um jogo que se pratica basicamente com a bola no chão, a percepção de quem ocuparia cada centímetro quadrado através do trançar de passos incessantes revolucionou o futebol. Uma das bases do Futebol Total.

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O diferencial do craque era, independentemente de sua excelência, potencializar o jogo coletivo. Entendia-se não como um solista nos sistemas de Rinus Michels e Stefan Kovacs, mas como o maestro. O homem que conduziria a orquestra. “Nós discutíamos o espaço o tempo todo. Cruyff sempre falava sobre onde as pessoas deveriam correr, onde elas deveriam ficar, onde não deveriam ir. Tudo era sobre criar espaços e ocupar espaços. É um tipo de arquitetura no campo. Nós sempre falávamos sobre a velocidade da bola, espaço e tempo. Onde há mais espaço? Onde está o jogador que tem mais tempo? É onde temos que jogar. Cada jogador precisa entender a geometria completa do campo e o sistema por inteiro”, declarou o defensor Barry Hulshoff, companheiro de Cruyff no tricampeonato europeu pelo Ajax, em entrevista ao livro ‘Laranja Brilhante: O Gênio Neurótico do Futebol Holandês’, de David Winner. Durante aquelas três campanhas, a arquitetura do camisa 14 chegou ao seu ápice.

Para resgatar este momento, publicamos o documentário ‘Nummer 14: Johan Cruijff’, filmado em 1972 e lançado no ano seguinte. A produção holandesa traz, com linguagem cinematográfica, as imagens de algumas partidas daquele esquadrão do Ajax – inclusive, nos 15 minutos finais, da vitória por 2 a 0 sobre a Internazionale, que valeu o bicampeonato da Champions. Oferece um olhar de arte à arte de Cruyff. Infelizmente, os diálogos em holandês não contam com legendas. Ainda assim, as imagens valem demais por si, retratando o gênio em sua melhor forma e também em seu cotidiano. Tributo à sua memória no dia em que completaria 70 anos:

Faixa bônus

Se você quiser ouvir Cruyff, outra alternativa é este episódio do programa Fútbol Pasión, que conta com a participação de outras duas mentes privilegiadas: do escritor Eduardo Galeano e do jornalista Ezequiel Fernández Moores. Em espanhol, o velho craque fala sobre sua própria história e sobre a concepção do Futebol Total, intercalado pelas crônicas primorosas de Galeano.