Aos 38 anos, Peter Crouch anunciou sua aposentadoria do futebol nesta sexta-feira. O veterano permaneceu por quase duas décadas atuando na elite inglesa. E se termina sua trajetória longe de ser lembrado como um craque, acaba marcado como um interessante personagem da Premier League. Mesmo com os estereótipos gerados por seu porte físico, o centroavante teve sucesso em clubes importantes e deixou sua marca na seleção inglesa. Com média superior a 0,5 gols por partida, disputou duas Copas com os Three Lions. Além disso, registrou a proeza de ser eleito o “jogador da temporada” por quatro clubes diferentes. Fica o carisma de quem soube conquistar os torcedores com seu jeito e sua personalidade.

A altura de Crouch sempre foi um recurso ao atacante, mas também um desafio. No início da carreira, o garoto precisou aceitar que era “diferente” e também lidar com as brincadeiras constantes. As cobranças e as vaias pesavam contra o centroavante, muito lembrado por seus erros, mas também autor de grandes jogadas. Se não era exatamente um poço de habilidade, o inglês se aprimorou como um finalizador eficiente não apenas de cabeça, assim como sabia aproveitar inteligentemente suas características. E o bom humor virou uma válvula de escape.

“O futebol para mim era uma fuga. Todo mundo passa por problemas. Quando criança, eu era diferente do jogador de futebol comum. E tinha problemas com isso, pensava que ‘ninguém se parece comigo e joga futebol’. A maneira como combati esses problemas foi pelo humor. Quando eu era criança, era diferente de quem conhecia, e sabia que essa pessoa ia me provocar, então eu sempre devolvia”, afirmou, em programa recente da BBC no qual discutia a saúde mental. “Os torcedores podem ser impiedosos. Eu possuía esses complexos. Costumava chorar quando tinha 14, 15 anos. Eu teria sofrido muitas dificuldades se não conversasse com outras pessoas. Teria pensado: ‘Isso é para mim mesmo? Para que eu quero me expor na frente de 40 mil, 50 mil pessoas tirando sarro de mim?’”.

Crouch não demorou a demonstrar sua força mental. Cria da base do Tottenham, o garoto não se firmou de início em White Hart Lane e rodou por empréstimos, inclusive pela Suécia. A maneira de provar que merecia seu espaço era uma só: anotando gols. E foi isso o que ele começou a fazer a partir de sua transferência ao Queens Park Rangers, em 2000. Acumulou seus tentos na Championship, depois também pelo Portsmouth, embora não tenha aproveitado sua chance no Aston Villa. Reergueu-se sobretudo após a boa passagem pelo Southampton em 2004/05, seu primeiro bom ano pela Premier League. De lá, assinou com o Liverpool, reforçando o elenco que acabara de conquistar o título europeu.

A passagem de Crouch por Anfield teve seus altos e baixos. Não seria exatamente uma unanimidade entre os Reds, apesar de anotar seus gols e de se projetar à seleção inglesa, garantindo presença na Copa do Mundo de 2006. Se a camisa do clube parecia muito pesada ao centroavante, ele ao menos deu grande contribuição à caminhada até à final da Champions em 2007. Apesar de algumas secas de gols, chegou a ser reconhecido com cânticos da torcida.

De volta a mais uma temporada de destaque no Portsmouth em 2008/09, Crouch seguiu depois ao Tottenham. Conseguiu dar a volta por cima no primeiro clube, não apenas por se manter como peça útil, mas também por contribuir diretamente no retorno dos Spurs à Champions após quase cinco décadas. Por lá, pôde ser convocado a outra Copa do Mundo, reserva em 2010. Já a partir de 2011, Crouch se fixou no Stoke City. Parecia o homem perfeito ao estilo de jogo praticado no Estádio Britannia. Seriam 261 jogos e 62 gols pelo clube, até uma rápida passagem pelo Burnley no último semestre, que o levou a pendurar as chuteiras. Aposentou-se como um dos 28 jogadores a superarem os 100 gols pela Premier League – em registros desde 1992/93.

Curiosamente, a melhor média de gols de Crouch foi exatamente com a camisa da seleção inglesa. Balançou as redes 22 vezes em 42 partidas. Teve participação vital na agonizante vitória sobre Trinidad e Tobago na Copa de 2006, além de anotar tentos importantes na classificação ao Mundial de 2010. Mesmo sem ser titular absoluto, colocou-se entre os 20 maiores artilheiros da equipe nacional, à frente de Kevin Keegan e atualmente na mesma prateleira de Harry Kane. Não é pouco, a quem chegou a ser tratado como “atração de circo” durante uma partida pelos Three Lions em Old Trafford.

“Depois de muitas discussões neste verão, eu decidi me aposentar do futebol. Nosso lindo jogo me deu tudo, sou muito grato a todos que me ajudaram a chegar tão longe e a seguir em frente por tanto tempo. Se você me dissesse, aos 17 anos, que eu jogaria a Copa do Mundo, disputaria a final da Champions, ganharia a Copa da Inglaterra e superaria os 100 gols na Premier League, eu te evitaria a todo custo. Foi um sonho absoluto que se tornou realidade”, declarou o veterano, em seu anúncio.

Talvez a grande marca de Crouch no futebol inglês seja mesmo o seu carisma. Das chacotas no início de carreira, o centroavante se refez com respostas inteligentes nas entrevistas e bom humor perene, bem como pelo esforço que imprimia dentro de campo e pelas doses de qualidade. Se ele mesmo via com desconfiança seu futuro no futebol, chegar à seleção inglesa e garantir a adoração em tantos clubes é um sinal claro de sucesso. O personagem resistirá com o tempo. E deixará como lembrança um punhado de belos gols.

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