Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Você já deve ter ouvido, por diversas vezes, que a posição de goleiro é ingrata. Ser responsável pela meta é, às vezes, fechar o gol ao longo de 90 minutos de uma partida, para, nos acréscimos, uma mísera falha comprometer uma classificação. É passar uma temporada colecionando metas intactas, fazendo defesas que não se explicam, mas um lance em que saiu mal e resultou em um gol de cobertura ao final de um campeonato te marcar pelo resto da carreira. Mas não vamos falar sobre a ingratidão desta essencial função do futebol, e sim do destaque, da evolução e, sobretudo, do reconhecimento das arqueiras na Copa do Mundo de Futebol Feminino deste ano.

Elas estão escrevendo um capítulo à parte neste Mundial, roubando a cena rodada após rodada na fase de grupos. Na última sexta-feira, a Argentina, que volta a figurar na principal competição de seleções femininas do mundo após 12 anos de ausência, foi derrotada por 1 a 0 pela Inglaterra, o bicho-papão do Grupo D. O placar enxuto conquistado pelas Lionesses, uma das equipes favoritas ao título, se explica pela enorme atuação da goleira Vanina Correa, de 35 anos, que defende as cores do Rosario Central e é a única jogadora do elenco albiceleste a ter disputado as Copas de 2003 e 2007.

Aos 28 minutos primeiro tempo, Ruth Bravo impediu Alex Greenwood de fazer um cruzamento e a derrubou na área. A árbitra não hesitou em marcar pênalti. Nikita Parris foi para a cobrança e, com potência, chutou no canto esquerdo da arqueira argentina, à meia-altura. Correa acertou o lado e espalmou a bola, que ainda bateu na trave e, na sequência, acabou sobrando para uma jogadora da Inglaterra, que não conseguiu dominar e a viu saindo pela linha de fundo. E esta foi só uma entre as grandes defesas que a dona do gol argentino fez nos 45 minutos iniciais.

Correa não larga a bola de jeito nenhum (Foto: Getty Images)

Na etapa final, a goleira da Argentina continuou sendo bombardeada não só por Parris, mas também por Beth Mead, Jill Scott e companheiras, principalmente Jodie Taylor. As estatísticas não deixam mentir: foram 19 finalizações por parte das inglesas contra apenas três das argentinas. Uma tentativa de se jogar no ataque, no entanto, foi letal para o time comandado por Carlos Borrello, e, aos 17 minutos do segundo tempo, Taylor, de cabeça, conseguiu superar a arqueira argentina, sem chances de fazer uma defesa.

Os abraços e o carinho das jogadoras de linha com a grande heroína da partida após o pênalti defendido com maestria e depois de um jogo em que Correa mandou embora o fantasma dos 11 a 0 sofridos para a Alemanha, quando debutou em Copas, na estreia da Argentina em 2007, diziam tudo. Mesmo derrotada no resultado, a goleira foi eleita a melhor jogadora em campo, ofuscando a autora do gol e outras que fizeram e fazem da Inglaterra um time bastante superior tecnicamente. Até mesmo a agora comentarista Hope Solo se rendeu a Correa. “Atuação do torneio até agora? Da arqueira argentina Vanina Correa”, postou em seu Twitter.

A excelência no desempenho de um jogador de futebol é justificada por uma série de fatores. Não basta talento individual, e treinos que simulam jogos não são suficientes. A preparação específica para goleiros, feita por profissionais especializados na área, é primordial na modalidade atualmente. A camisa 1 argentina destacou a importância disso no pós-jogo. “Em geral, para as goleiras mulheres, as coisas estão mudando. Estamos sendo melhor treinadas. Na Argentina, nós não temos acesso a essa preparação desde jovens, só a partir de idades mais avançadas. Então, não é legal nos criticar, mesmo que, às vezes, nós cometamos erros”, afirmou a MVP.

Correa já havia feito história com sua seleção contra o Japão, na primeira rodada, quando garantiu manteve o zero no placar contra as asiáticas. Foi a primeira partida de Copa do Mundo que a Argentina não foi vazada. De fato, este Mundial está sendo especial para ela, que abandonou o futebol por mais de seis anos por conta das péssimas condições de trabalho oferecidas a jogadoras de futebol na Argentina nos últimos anos. Quando Borrello reassumiu o cargo de técnico, em 2017, ele a pediu que voltasse a vestir as luvas albicelestes. A arqueira, no entanto, relutou em retornar. Mãe dos gêmeos Luna e Romeo, de cinco anos, Correa hoje concilia sua carreira nas canchas com a maternidade e seu emprego como operadora de caixa em um supermercado em Rosario.

Seria a água das sul-americanas?

Endler fechou o gol contra os Estados Unidos (Foto: Getty Images)

Outra goleira que bebeu da água de Correa, ou melhor, assim como a argentina, certamente anda tendo uma preparação à altura do torneio que está disputando, é Christiane Endler. Contratada pelo Paris Saint-Germain em 2017, logo depois de ter feito uma temporada irretocável pelo Valencia e ter sido nomeada a melhor arqueira da Liga Iberdrola (primeira divisão feminina da Espanha), com apenas nove tentos sofridos em 23 confrontos, a chilena está praticamente jogando em casa esta Copa do Mundo. No PSG, é uma das estrelas do time. E com razão. Atualmente, para alguns, poucas goleiras no mundo se equiparam a seu nível. Para mim, nenhuma bate Endler.

Em oito edições desde que o Mundial foi criado pela Fifa, esta é a primeira participação do Chile. A esperança de conseguir beliscar uma vaga na fase eliminatória da Copa foi abalada no momento do sorteio das chaves, que colocou as chilenas no mesmo grupo de Estados Unidos, Suécia e a inexpressiva Tailândia. Em duelo válido pela segunda rodada do Grupo F, no último domingo, as chilenas enfrentaram as atuais campeãs do mundo. O placar de 3 a 0 saiu barato para a seleção da América do Sul, que só não foi goleada impiedosamente e humilhada, assim como as tailandesas na primeira rodada, graças ao paredão que atendia pelo nome de Christiane Endler.

Antenada no jogo da seleção que defendeu por anos e venceu tudo, Hope Solo também se impressionou com a atuação de gala da goleira chilena e rasgou elogios a ela em texto publicado no Guardian: “Ela é a melhor goleira do mundo. Estava animada para vê-la jogar contra os Estados Unidos e o mundo ver o quão boa ela é. Ela alcança as traves muito bem e mostra como as goleiras do futebol feminino devem ser. Poderia ter sido uns 8 a 0 para os Estados Unidos, mas Endler segurou um 3 a 0. Ela deu orgulho ao seu time e sua nação. É o tipo de atleta espetacular que todo país deveria procurar para cuidar das redes. Estamos procurando ‘uma em um milhão’. Para mim, Endler é exatamente esta ‘uma em um milhão'”.

A arqueira americana ainda tocou em um ponto que vira debate e é constantemente sugerido em quase todas as vezes que uma goleira falha no futebol feminino: que o gol deveria ser adaptado para um tamanho menor para as mulheres, sob o argumento de que somos, geralmente, mais baixas que os homens. Hope Solo relembrou que, em muitas equipes profissionais, o preparador de goleiros costuma ser o último a ser contratado para a comissão técnica.

“Isso se resume a falta de recursos. Quando eu comecei a jogar em uma liga profissional depois de ter saído da universidade, eu esperava ter um treino de qualidade. Em vez disso, nós não tínhamos nem preparador de goleiros. É importante ressaltar que, muitas vezes, não colocamos o melhor atleta para jogar no gol. Os goleiros no futebol masculino quase sempre são atletas incríveis, mas nem sempre é o caso das mulheres. As atletas que, muitas vezes, não têm as melhores capacidades atléticas são colocadas no gol”, escreveu a americana, que também salientou a leitura de Endler em bolas aéreas e a descreveu como uma arqueira completa.

A titular da meta do Chile, apesar do revés sofrido para os Estados Unidos ter sido por um placar mais elástico que o da Argentina para a Inglaterra, também foi eleita a melhor da partida. “Tive um preparado intensivo neste último ano para chegar ao Mundial e desempenhar o meu melhor. Nossa liga no Chile ainda é amadora e muitas jogadoras tiveram que deixar o país para jogar profissionalmente. Apesar do resultado, só de estar aqui já é uma grande conquista para nós”, disse Endler ao ser premiada.

O futuro é próspero

A jovem Schneider da Jamaica (Foto: Getty Images)

Se tem alguém que merece ser chamada de Muralha da China nesta Copa do Mundo, este alguém é Peng Shimeng. A goleira chinesa é uma das atletas mais promissoras do certame. Com apenas 21 anos, ela compete seu primeiro Mundial e torneio de grande porte. A pressão, no entanto, parece ser nula para ela. A seleção da China também não teve vida fácil em um grupo (B) dividido com a tarimbada Alemanha, a progressiva Espanha e a estreante África do Sul. Mas conseguiu tomar apenas um gol nesses três confrontos, perdendo apenas um deles. Esse feito passa, literalmente, pelas mãos de Shimeng.

Na última rodada da chave, no empate com a Espanha por 0 a 0, a jogadora asiática foi a terceira arqueira da competição a receber o troféu de melhor em campo. Seu trabalho debaixo das traves beirou a perfeição e fez seu técnico, Jia Xiuquan, derrubar lágrimas sem ser um emotivo de carteirinha. Ao final do jogo, Shimeng confessou que nunca havia visto o treinador chorar. É fácil desvendar um dos segredos da performance histórica dela, e a própria não esconde qual é: a calma e a tranquilidade. As espanholas tiveram um total de 24 finalizações. Nove dessas tentativas de gol foram bloqueadas pela chinesa, que fez milagre e estabeleceu um novo recorde de defesas em uma mesma partida em toda a história da Copa.

Outra jovem que promete ter seu nome ainda muito escutado no futebol feminino pelos próximos anos é Sydney Schneider, a goleira jamaicana que encantou até Galvão Bueno. Embora tenha nascido e more nos Estados Unidos, a arqueira escolheu servir a seleção do país de seus avós maternos após receber diversos convites, desde que começou a jogar no gol, para representar as Reggae Girlz. Schneider é a mais nova entre as goleiras deste Mundial: completa 20 anos em agosto. Estudante de Ciência do Exercício na University of North Carolina Wilmington, seu sobrenome alemão deriva de seu pai, que nasceu no país germânico (assim, aliás, como o pai de Endler).

A número 1 da Jamaica nem sempre teve o desejo de ser goleira. Ela, na verdade, foi “empurrada” para a posição por um treinador, quando tinha por volta de seus 14 ou 15 anos. Se ela se arrepende de ter ali ficado? Espero que não, porque ela está no caminho certo. Os 3 a 0 para o Brasil, resultado que só não teve caráter de goleada pela proteção de Schneider ao gol jamaicano, e os 5 a 0 para a Itália não são capazes de ocultar a habilidade e a segurança de uma arqueira de 19 anos competindo uma competição contra as maiores seleções do mundo como se fosse sua décima vez fazendo aquilo.

Ainda tem chão até o fim do Mundial, mas já é nítido o quanto o nível das goleiras deu um salto na França, com as donas da meta decidindo jogos e tendo atuações que estão sendo uma grata surpresa a todos. A posição de goleiro é ainda mais ingrata e visada quando se trata do futebol feminino, com muita gente opinando incisivamente sobre a dimensão do travessão e a distância entre as traves relacionadas a estatura das mulheres, e só algumas, ainda, procurando entender que a fórmula para reduzir as falhas está, como bem apontou a goleira brasileira Aline Reis em entrevista às dibradoras, no investimento em preparação física e técnica e no desenvolvimento das arqueiras.