Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Marta converte o penal e aponta para a chuteira sem patrocínio de marca esportiva e estampada com um sinal de cores rosa e azul, do coletivo Go Equal. Agora são 16 gols em Copas do Mundo, igualando a marca do alemão Miroslav Klose. “Meu novo recorde?”, questionou a atacante. “Isso é uma igualdade de todas as mulheres. Não gosto de falar, gosto de mostrar. Que a imagem possa falar por si só”, completou. A imagem deste Mundial é do caráter coletivo transcendendo o campo, como esporte mais praticado do planeta pode também servir de refúgio ou proteção para as mulheres.

Ante o empate contra o Japão, a celebração da Argentina não foi apenas pelo improvável ponto conquistado, mas também um grito unificado contra o descaso, despreparo e sexismo de sua Federação quando o assunto é a seleção feminina. Ingenuidade seria acreditar que isso bastaria para mudar a situação — e de ingênuas essas mulheres nada têm, deram um passo sólido, expondo as veias abertas de décadas de ostracismo social.

Marta aponta para a chuteira após marcar pelo Brasil (Foto: Getty Images)

“Os pesquisadores que estudam a resistência ao estresse constatam reiteradamente que o apoio social é um dos maiores fatores de proteção [ao uso de drogas]”, diz um trecho de Um preço muito alto, do neurocientista Carl Hart. O autor mescla a sua trajetória de vida com os estudos sobre a política de drogas nos Estados Unidos. Não que eu queira comparar futebol com narcóticos, porém acredito que algumas ponderações de Hart ajudem a compreender a importância do coletivo no futebol feminino.

“Naturalmente você já ouviu falar de estudos nos quais ratos ou até primatas continuamente pressionavam alavancas para conseguir cocaína, heroína ou metanfetamina até morrer, optando antes pelas drogas que por comida e água. Mas o que você decerto não sabe é que esses animais eram mantidos, a maior parte da vida, em ambientes isolados e nada naturais, e costumavam se tornar estressados, sem contatos sociais e sem nada para fazer”, explica. “Quando as recompensas naturais, como contatos sociais e sexuais e condições agradáveis de vida – também conhecidas como reforços alternativos – estão ao alcance de animais saudáveis, elas costumam ser as preferidas”.

O futebol como reforço alternativo para a juventude feminina ainda está aquém da expectativa. Piores ainda são as condições para aquelas que se aventuram, apesar dos prognósticos adversos. Ou seja, dê uma bola a uma menina carente disposta a jogar e acompanhe a diminuição das chances de ela se envolver com problemas.

Devo admitir: senti inveja da divulgação das atletas convocadas para representar a seleção inglesa nesta Copa. A FA fez um trabalho sensacional ao conectar uma personalidade, seja do mundo da bola ou não, a cada atleta. Além de bem editado, o vídeo é instigante e conclama um apelo singular e sincero de carinho dos torcedores com suas compatriotas.

Lar é onde estou com a bola

Uma das histórias mais encantadoras da Copa do Mundo da Rússia foi a narrativa do Three Lions. Was it going home? Sabemos como essa história terminou. Mas você sabia que as mulheres conquistaram o melhor resultado em Mundiais desde que Booby Moore ergueu a taça em 1966? O terceiro lugar no último Mundial, em 2015, veio no tempo extra, em cobrança de pênalti convertida por de Fara Williams, contra as bicampeãs alemãs (e número um do ranking FIFA).

Williams também é a jogadora que mais vezes atuou pela seleção, com 170 partidas. Até Jill Scott, do Manchester City, entrar em campo contra a Argentina, pela segunda rodada, Fara também detinha o recorde de jogos de Copa do Mundo pelas Lionesses, com treze aparições. Conquanto poderia integrar a equipe na França, após uma conversa com o técnico da seleção, Phil Neville, os dois acertaram pela não convocação, pois o passado exemplar não deveria vir à frente do nível apresentado por ela e pelas concorrentes de posição no momento da definição da lista. Phil ressaltou, no entanto, à imprensa que quando Fara decidir se aposentar, a Federação Inglesa deverá prestar todas as homenagens possíveis, já que ela é um dos maiores talentos a passar pelo Saint George Park, entre homens e mulheres.

Essa trajetória de recordes poderia, no entanto, nunca ter acontecido. Nascida em Londres, em 1984, ela foi criada por uma mãe solteira, com mais três irmãos. Aos 17 anos, Fara teve uma discussão familiar com sua tia, que fora morar com eles. A nova habitante do lar a expulsou de casa.

A meia central, que cinco anos antes passara a treinar no Chelsea, não tinha como se sustentar e foi morar na rua. “Isso me afetou profundamente. Mas eu estava muito envergonhada para contar a alguém e também não queria voltar para casa. Eu via o retorno como uma fraqueza e isso me faria pensar que eles venceram”, relatou a jogadora.

A estreia na seleção inglesa se deu no mesmo ano em que virou sem teto, quando havia saído dos Blues e ido ao Charlton. Ela conseguiu esconder a sua situação por um determinado tempo. Mas Hope Powell, ex-jogadora, comandava não só a seleção principal feminina desde 1998, como também as equipes de base. Depois de um torneio do sub-19, ela, já desconfiada, perguntou para onde a garota iria. A resposta de “não sei” foi o suficiente para a técnica levá-la a um centro de abrigo, um hostel em King’s Cross. “Eu não teria tido a coragem de ir sozinha, Powell foi como uma mãe para mim”.

É compreensível que Fara não queira dar detalhes desse período. Nas raras oportunidades em que tocou no assunto, mencionou ter aprendido a se fazer de louca na rua, para que ninguém mexesse com as coisas dela e, principalmente, com ela. Depois, passou a viver em diversos hostels, enquanto conciliava a sua paixão. Não falou com sua família por um longo período. Por não ter uma residência fixa, não assinou contrato profissional até os 25 anos. À época, havia outras prioridades. “Eu queria ser uma finalista da Copa da Inglaterra, eu queria subir a escadaria do Wembley. Queria vencer a liga. Eu continuo querendo apenas vencer troféus. Não importa o que aconteça com o nosso jogo, dinheiro não será uma motivação para mim”. Esse ponto, confesso, trouxe a lembrança da ingenuidade de Garrincha e da personagem de Kate Winslet, no filme O Leitor.

Ao longo de sua carreira, a atleta conseguiu tudo isso. Aliás, ainda pode conseguir mais, visto que continua a jogar, aos 35 anos, no Reading. A camisa quatro precisou de várias oportunidades para finalmente conquistar o título da Copa da Inglaterra. Depois de perder três finais seguidas, de 2003 a 2005, venceu com o Everton em 2010, após um vice no ano anterior, e com o Arsenal, em 2016. Títulos da Women’s Super League são dois com o Liverpool, 2013 e 2014.

Depois de Hope Powell, outra treinadora teve um papel fundamental na vida de Williams. Mo Marley a acolheu quando a jogadora se transferiu para o clube que dirigia, o Everton, em 2004. Primeiro, a ajudava com os custos de transporte por toda a cidade. Depois, conseguiu um emprego para ela, na Federação Inglesa. Fara trabalharia como uma treinadora da comunidade, fazendo trabalho social semanal com mulheres que se encontram em situação de sem teto. “Ter a oportunidade de ajudar essas garotas é algo que eu não poderia recusar. Eu queria compartilhar a minha história com elas e mostrar que há um caminho para sair da situação em que se encontram”, comentou a atleta sobre o seu outro trabalho. “Elas erguem uma barreira mas a coisa mais importante é tratá-las como pessoas normais, sem desprezo”.

Williams acolheu uma dessas garotas como sua assistente. Becca Mushrow presenciou violência doméstica desde a tenra idade. Seu pai era esquizofrênico e batia na esposa. Mas com o suicídio dele aos 14 anos, ela viu sua progenitora se entregar às drogas. Desde então, precisou assumir a responsabilidade de cuidar de seus dois irmãos mais novos. Não tardou para se ver fora de casa. Aos 18 anos, representou a seleção inglesa na Copa do Mundo dos Sem Teto, edição de 2012, no México. Os relatórios da Federação Inglesa indicam o aumento exponencial da confiança dos atletas, com 60% saindo da situação de rua e metade largando o uso de substâncias tóxicas após a experiência do programa.

A chegada aos Toffees também significou outra mudança radical. Apoiada pela sua companheira de equipe Amy Kane, e pela família dela, Fara voltou a viver numa casa, seis anos depois da fatídica expulsão. Elas então começaram a namorar. Williams se assumiu lésbica em dezembro de 2015, quando foi a público expor seu casamento com Kane. O término repentino da união, logo depois, marcou a passagem rápida pelo Arsenal, de onde saiu em 2017 para o seu atual clube, como visto, o Reading.

Faltava então reatar o contato com a família. Sua mãe, Tanya, acompanhou a carreira da filha pela televisão. Após assistir à final da Euro 2009, em que a Inglaterra foi atropelada pela Alemanha por 6 a 2, conseguiu o número celular da filha e lhe mandou uma mensagem. A meia não quis nem ler, deletando-a.

Dois anos depois, Fara marcou contra a Suíça, literalmente no apagar das luzes, o gol classificatório ao Mundial de 2011. Tanya novamente assistia ao jogo e de novo enviou mensagem para a filha distante. Dessa vez, a jogadora leu. E então reatou o contato com sua família. “Sabe, depois de um tempo você percebe que a vida é curta. Você não tem muito tempo aqui. Então eu queria estar com ela de novo. Nunca falamos sobre o que aconteceu mas o importante é, para mim, que a minha mãe foi uma heroína na minha criação”, explica sobre o assunto.

Conectividade

Sim, em termos de bola jogada, o Mundial da França ainda há que melhorar. Com o mata-mata por vir, os embates entre equipes mais equilibradas trarão uma disputa para nocautear tanto os céticos quanto os críticos, ao passo em que a audiência deverá bater mais recordes do que os atuais já quebrados. A jornalista Marina Heyde, em artigo no Guardian, indica que o torneio feminino tenha o ibope de ¼ do masculino. Ainda assim, o prêmio total do Mundial da Rússia foi de 400 milhões, uma fortuna absurda, sobretudo ante os 30 milhões a serem distribuídos na França.

Por todos os prismas técnicos e extracampo, o futebol praticado por mulheres está a uma distância considerável do que estamos acostumados a ver diariamente com os homens. Menos em um. Como futebol não é só técnica — é ser humano e trazer a luta para o campo, apesar das mazelas — deixo a estrela dessa matéria explicar e concluir:

“Nosso jogo é muito aberto e o objetivo sempre foi nos conectarmos com os fãs, para que possam conhecer um pouco sobre nós e nos entender como pessoas. Cada uma no elenco tem uma história de vida distinta e é muito sincera sobre ela. Isso ajuda as pessoas se conectarem a nós. O lado ruim para os homens é que eles não têm oportunidades o suficiente para mostrar às pessoas como eles de fato são”.