A partir desta semana, a Trivela traz textos sobre a Copa do Mundo Feminina: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Lá pelos vinte e tantos minutos do primeiro tempo, Marta ajeitou a bola na marca do pênalti. Sem tirar os olhos do gol, deu alguns passos para trás, manteve o rosto sério e, com a canhota habilidosa, converteu. Antes do fim dos 45 minutos iniciais, o placar anunciava: 2 a 0 para o Brasil diante da Austrália. E até a metade da segunda etapa, as adversárias arrancariam o empate — um dos gols ainda antes do intervalo.

O resultado ficou em 3 a 2. Um gol de Marta, de pênalti, e outro de Cristiane. Faltou dizer que quem abriu a contagem foi Formiga e o jogo em questão se passou em 2007, pelas quartas de final da Copa do Mundo. A vitória brasileira após o primeiro encontro com as australianas em Mundiais colocava a Seleção Feminina nas semifinais de uma campanha que terminaria com o segundo lugar.

Doze anos depois, Formiga, Marta e Cristiane entraram em campo diante da Austrália novamente como protagonistas. O pênalti cobrado pela camisa 10 nesta tarde, em Montpellier, foi dessas coincidências gostosas do futebol. Deixou Marta na artilharia da história das Copas, com 16 gols, empatando com Klose no masculino. E saiu ainda mais saboroso para quem se recorda dos pênaltis perdidos pela alagoana diante das rivais na Rio-2016 e contra a Alemanha na final do Mundial de 2007. Se pênaltis não são o forte de Marta, na visão da primeira técnica que teve, Helena Pacheco, em entrevista ao UOL Esporte, nada mais divertido que um penal para colocar a seis vezes melhor do mundo no topo dos goleadores.

Mas o dia não terminou em comemoração. O trio finalizou o jogo no banco, encarando uma derrota de virada. O placar invertido de 3 a 2 fez jus à rivalidade entre as seleções, que se encontraram em todas as Copas seguintes e revezaram eliminações: as Matildas, como são conhecidas as australianas, tiraram as brasileiras do Mundial de 2015 nas oitavas. Já na Olimpíada de 2016, coube ao Brasil despachar as rivais nas quartas.

Formiga, Marta e Cristiane, decisivas no encontro inicial das seleções, foram as três substituídas por Vadão: as duas últimas poupadas, em recuperação física. Formiga, por sua vez, sofreu uma torção no tornozelo esquerdo – uma saída forçada, segundo Vadão, causada por uma pancada no pé. Com a experiência de quem tem sete Copas no currículo, a volante acumulou dois cartões amarelos desde o jogo com a Jamaica e já estaria fora diante da Itália, na terça.

O trio de ferro brasileiro, que possivelmente joga sua última Copa, garantiu a dianteira. E ficou de fora da etapa decisiva, que poderia ter classificado o Brasil para a próxima fase. A Itália venceu a Austrália num 2 a 1 apertado. E o que poderia ser um jogo mais tranquilo para a Seleção pode virar aquele deus-nos-acuda na luta pela classificação; seja pelo primeiro, segundo ou mesmo terceiro lugar do grupo. Tudo está em aberto.

Formiga, com sua ampla visão de jogo e facilidade na distribuição de bolas, assistirá da lateral do campo ao futuro do Brasil. Abriu aquele placar de 2007 com gol de fora da área, em chute de primeira enquanto chegava sozinha pelo meio. Era a campanha dos sonhos, barrada apenas pela força alemã. A composição do elenco ajudava de trás pra frente, com Aline Pellegrino e Elaine segurando a zaga, Maycon no meio de auxiliar e Daniela Alves esticando a bola nas laterais, subindo sempre que necessário. O time era mais ofensivo e, para Formiga, sobrava liberdade para fazer o que desse na telha: criar jogadas, bloquear as rivais e marcar os gols.

Sólida na marcação, de volta a 2019, foi a ausência mais sentida no segundo tempo. Ainda mantém todas as características citadas acima, mais o peso de ser a maior veterana em Copas. Sem o entrosamento das antigas companheiras — salvo Marta e Cristiane –, encontra nesta Seleção uma gama de boas jogadoras que não vêm atuando bem em coletivo, com escolhas táticas questionáveis e afobação diante de equipes contra as quais o time já havia deixado de tremer.

Vadão ainda não encontrou um modo de suprir a saída de Formiga. Nem a de Marta e nem a de Cristiane. E o que será do Brasil sem encontrar substitutas à altura?