Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela trouxe textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Antes da Copa do Mundo de 2018 começar, eu já havia completado meu álbum de figurinhas e ajudado diversas pessoas em suas árduas — mas prazerosas — missões de colecionar jogadores. Pela terceira vez lançando o álbum para o maior torneio feminino de futebol, a Panini fez brincadeira de mau gosto com os consumidores. Pelas ruas de São Paulo, por mais de duas semanas busquei pacotinhos, qualquer quantidade que fosse. Nada.

Ainda assim, perto da reta final, a distribuição deixou de ser pífia e consegui comprar. Em uma quinta-feira fria e sem sal, abri cautelosamente um pacotinho. Soltei um agudo involuntário, como um golfinho, e assustei a colega de trabalho ao lado. Logo, expliquei: havia tirado Alex Morgan, Sam Kerr e Marta no mesmo envelope!

A empolgação excessiva tem um fator inédito: pude acompanhar os jogos de uma Copa do Mundo feminina, de cabo a rabo. Meu uso de dados móveis nunca foi tão alto. Assistir a uma partida pelo celular gasta em torno de 2GB. Tive de comprar uma franquia extra para acompanhar as fases finais, usando um fone de ouvido discreto e enfiando o celular no meio da minha papelada de trabalho. Chefe, se vir isso, fique sabendo que eu já tinha terminado minhas obrigações diárias e, depois, tomada pelo sentimento de culpa, ainda ajudei outros setores. Talquei?

Antes de encerrar a minha última coluna, gostaria de agradecer a oportunidade dada pela Trivela. Essas cinco semanas foram divertidas e, principalmente, memoráveis. Também agradeço com gosto a você que leu ou compartilhou ou comentou ou fez tudo isso e mais um pouco junto. Embalada nesse ritmo eufórico, montei a minha seleção titular e a reserva desse Mundial.

Time titular: van Veenendaal (HOL); Bronze (ENG), Renard (FRA), Fischer (SUE), Dunn (EUA); Erzt (EUA), Spitse (HOL), Lavelle (EUA); Morgan (EUA); Rapinoe (EUA) e White (ENG).

Time reserva: Endler (CHI); Glas (SUE), Houghton (ENG), Dahlkemper (EUA), Bloodworth (HOL); Henry (FRA), Seger (SUE), Scott (ENG); Marta (BRA), Miedema (HOL) e Cristiane (BRA).

Evidentemente, não poderia simplesmente escalar sem comentar os motivos das escolhas, ao menos das titulares.

Sari van Veenendaal

Quando a zaga holandesa titubeava, lá estava a capitã para defender a meta. Principal responsável pelos avanços nas fases classificatórias — principalmente contra o Japão — evitou um placar elástico na final. Apesar disso, acredita que esta mulher está desempregada? Após quatro anos, deixou o Arsenal e está livre para assinar com outro clube. Interessados não faltarão.

Lucy Bronze

Tida como a melhor do mundo pelo técnico inglês Phil Neville, a lateral direita do Lyon deitou e rolou na parte ofensiva de sua seleção. Foram triangulações, infiltrações, assistências, além de ter marcado um golaço nas quartas de final. Defensivamente, deixou a desejar, principalmente no jogo contra os Estados Unidos. O prêmio de segunda melhor jogadora do torneio foi uma surpresa para mim.

Wendie Renard

Zagueira-artilheira. A sede de marcar gols era tamanha que até um contra fez, numa pane mental contra a Noruega. Mas ela chamou a responsabilidade ao marcar o gol solo da vitória contra a Nigéria e se esforçou para levar a partida à prorrogação contra os EUA. No entanto, a ineficiência ofensiva das francesas resultou na eliminação nas quartas de final.

Nila Fischer

Já há alguns anos, a veterana trocou o meio de campo pela zaga, ao atuar pela seleção sueca. Firme na defesa, quase foi a heroína no confronto da semifinal ante a Holanda, com seus cabeceios potentes. Usou a cabeça também para salvar em cima da linha um chute à queima roupa, sem goleira, da Inglaterra, assegurando a medalha de bronze para a equipe.

Crystal Dunn

Crystal Dunn foi a última a ser cortada da lista final para a Copa do Canadá e precisou ver de casa o título da seleção americana. Para ser titular, aceitou a mudança de posição: Dunn joga na NWSL como uma meia ofensiva, valendo-se de sua velocidade para quebrar defesas. Ainda assim, dada a concorrência no setor de ataque, Jill Ellis a emprega como lateral esquerda, como fizera ao treinar a seleção sub-20. Dado esse histórico, foi surpreendente a solidez de Dunn para proteger a defesa. Quando não bloqueou totalmente o ataque adversário, mitigou as chances das adversárias.

Julie Erzt

É fácil achá-la em campo. Busque pela jogadora com faixa azul no cabelo e que faz a transição entre a defesa e o ataque norte-americanos parecer moleza. A atuação defensiva de Erzt no Mundial foi excepcional. Quase não cometeu faltas, ditando o ritmo das partidas. E ainda surgiu em diversas oportunidades como um elemento surpresa num contra-ataque ou como alvo para jogadas de bola parada, marcando inclusive um gol de cabeça ante o Chile.

Sherida Spitse

Líder de assistências do mundial e de sua equipe, em campo. Esses dois títulos definem a melhor jogadora de linha holandesa na final, corroborando o seu já bom campeonato e justificando o fato de Spitse ser a atleta com maior número de convocações de sua seleção.

Rose Lavelle

Primeiro, ressalto que fisicamente Lavelle é uma cópia de Jodie Foster. Não que isso importe, apenas precisava desabafar. Com a bola, combina a sutileza de uma dançarina clássica com a velocidade de Usain Bolt para tomar as decisões corretas e dibrar as adversárias, criando chances outrora inimagináveis. Sua disposição física também a permite marcar e recuperar a posse de bola. É uma meia campista completa. O gol na final, seu terceiro na competição, coroou a atuação da, para mim, melhor jogadora do torneio.

Megan Rapinoe

Peço perdão pelo palavreado, mas que mulherão da porra. Peitou desde o presidente dos EUA ao presidente da FIFA (“um pouco de vexame público não faz mal a ninguém”, comentou sobre os gritos de pagamento igualitário dirigidos a Gianni Infantino). Artilheira, eleita melhor jogadora do certame e dona da língua mais afiada do mundo da bola. Antes, eu guardava um sentimento ruim por ela, já que Rapinoe foi quem cruzou para Abby Wambach fuzilar de cabeça e empatar a partida contra o Brasil, na Copa de 2011. Agora, só love.

Ellen White

Na pelada, ao conseguir marcar um gol, juntarei os dedos indicadores com os dedões e os levarei os olhos, esticando bem os outros dedos livres, a la Ellen White. E daí que ela imita o atacante francês Anthony Modeste porque ela e o marido gostam de acompanhar a Bundesliga e torcem pelo Colônia? Eu comemoro por ela, pelo o que a nova atacante do Manchester City mostrou com seus seis gols na competição, usando as duas pernas. Além da técnica, White deixou em campo também a emoção genuína do que significa essa chance de representar o seu país.

Alex Morgan

Do jogo contra a Tailândia vieram cinco dos seus gols e, olhando para os números frios, pode parecer que Morgan não fez uma excelente Copa, mas não se engane. Ela foi incrível, mesmo voltando mais para a infiltração das pontas Rapinoe (Christen Press) e Tobin Heath. Ela é a personificação do sonho americano: atitude, ambição e excelência. Tomaria um chá com ela a qualquer momento.