Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

A Copa do Mundo está acabando, vem batendo aquele vazio costumeiro, aquela nostalgia de ver as melhores do mundo em ação… mas há um assunto latente que precisa ser posto na mesa. Já faz quase duas semanas que lamentamos a eliminação do Brasil e ainda não há qualquer esclarecimento da CBF sobre o futuro da seleção feminina. Uma reunião da cúpula da entidade com a comissão técnica e o coordenador Marco Aurélio Cunha estava prevista para ocorrer nesta semana, mas até a última quinta-feira o encontro não havia se concretizado devido aos “compromissos do presidente Rogério Caboclo”.

Questionado sobre a expectativa de permanecer no cargo, Marco Aurélio deixou o futuro do treinador e o seu próprio nas mãos de Caboclo: “Se [os dirigentes] acharem que nosso tempo deu, a gente vai entender. Se quiserem que a gente prossiga, a gente prossegue.”

Vadão, por sua vez, mostrou otimismo em seguir pelo menos até a Olimpíada de Tóquio, em 2020. O treinador exaltou a confiança que a CBF sempre depositou no seu trabalho, pontuando que a decisão seria tomada com “calma e tranquilidade”, segundo ele o modus operandi da entidade. Só que não é bem assim. A CBF não costuma se mostrar tão benevolente com fracassos quando se trata da seleção masculina. Após a eliminação do Brasil para o Peru na Copa América de 2016, por exemplo, não levaram mais do que dois dias para demitirem Dunga e encaminharem a contratação de Tite.

Comparações com o masculino nem sempre são saudáveis, mas é preciso, sim, exaltar a diferença de tratamento da CBF entre o futebol feminino e o masculino. Ainda mais porque a principal bandeira do coordenador Marco Aurélio sempre foi ser capaz de oferecer “condições iguais” para homens e mulheres. Discurso que, mais uma vez, fica só na teoria.

Vadão já chegou à Copa do Mundo contestado pelos maus desempenhos e resultados nos amistosos preparatórios. Foram dez derrotas em 11 jogos — nove delas consecutivas, a pior marca da história da seleção feminina —, inclusive para seleções abaixo do Brasil no ranking da Fifa, como Espanha e Escócia. Considerando a cultura do futebol brasileiro, não há técnico que se manteria no cargo de qualquer clube ou seleção (masculina) com esse retrospecto às vésperas de uma grande competição.

A paciência da CBF com os tropeços da seleção feminina só parece se esgotar mais depressa quando o treinador em questão é uma mulher. Por muito menos, Emily Lima caiu. Em 2017, ela passou apenas dez meses no cargo, não disputou competições oficiais, teve 56% de aproveitamento e acabou demitida, segundo contou em entrevistas posteriores, por “resultado”.

No Mundial, Vadão também não foi capaz de mostrar evolução do trabalho. Repetindo erros da preparação, a equipe verde e amarela se classificou em terceiro lugar do grupo, e apesar da entrega das jogadoras contra a França, perdeu nas oitavas mais uma vez. O treinador então recorreu às velhas justificativas e desculpas de sempre, com bem pontuaram as dibradoras: lesões, falta de preparo físico e de tempo para treinar — problemas comuns a todas as seleções do planeta.

Além disso, Vadão usou e abusou de clichês generalistas como “jogamos de igual para igual” e “perdemos no detalhe”, em vez de explicar, por exemplo, por que recuou o time nos minutos finais contra a Itália, quando sofrer o empate não faria diferença, mas um gol a mais poderia tirar a seleção da rota da favorita França no mata-mata.

Os problemas do discurso de Marco Aurélio vão além da seleção principal. As equipes femininas do Sub-17 e Sub-20 estão paralisadas, como mostra reportagem do Planeta Futebol Feminino. Luizão, que até então todos pensavam ser técnico da seleção feminina Sub-17, foi identificado por uma reportagem do jornal Lance! como treinador da base masculina do Juventus. A situação da Sub-20 é ainda mais grave. Com 20% de aproveitamento no Mundial da categoria, Doriva Bueno foi demitido em setembro do ano passado e até agora não anunciaram o substituto. Faz dez meses que a equipe está parada, sem comando técnico ou planejamento para as próximas competições.

O descaso com a base também passa pela esfera dos clubes. A CBF divulgou na semana passada o calendário da primeira edição do Brasileirão Feminino Sub-18. Na primeira fase, as 24 equipes participantes terão que disputar seis jogos em dez dias. Apesar da escolha pela sede única para evitar desgaste com deslocamento, o risco de lesões de uma maratona como essa preocupa os preparadores físicos das equipes. O principal sintoma de que o futebol feminino está acostumado com as migalhas veio da fala do ex-diretor de futebol do Iranduba, Lauro Tentardini, hoje responsável pelo time sub-18: “Tem que valorizar, porque se meter o pau, no ano que vem eles não fazem mais”.

Deveria ser óbvio, mas não dá para ter uma seleção forte sem uma base estruturada. Não dá para pensar no fomento à modalidade sem campeonatos de base estruturados, com calendários que respeitem os limites físicos das jogadoras. Não dá para falar em renovação se as categorias de base seguem abandonadas enquanto a CBF prega a igualdade de condições.

Só há margem para esses absurdos porque o futebol feminino nunca teve visibilidade. A CBF sempre agiu de acordo com seus interesses porque nunca foi massivamente cobrada por explicações, nunca se sentiu pressionada pela mídia ou pelos torcedores. Mas agora é diferente. A Copa do Mundo da França colocou o futebol de mulheres nos holofotes como nunca antes na história. Mostrou que há, sim, potencial de atrair público, grandes marcas e o interesse da imprensa. E que este é um caminho sem volta.

Se o objetivo da CBF é esperar a poeira baixar para tomar as decisões, que fique claro que nós, que acompanhamos a modalidade, não vamos deixar isso acontecer. Continuaremos de olho, questionando, exigindo esclarecimentos e brigando sempre por mais respeito com o futebol delas.