A partir desta semana, a Trivela traz textos sobre a Copa do Mundo Feminina: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Há 20 anos cravados, diversos fanáticos por futebol exaltavam e debatiam o lendário Manchester United de Alex Ferguson, que acabava de alcançar o ‘treble’. Muitos, porém, ainda não poderiam imaginar a façanha conquistada pelo México, campeão da Copa das Confederações de forma inédita. Na Itália, enquanto torcedores do Milan festejavam o 16º título nacional, os da Udinese rezavam de joelhos para não perder Amoroso, artilheiro da Serie A na temporada. Era junho de 1999, e a seleção italiana estava de volta, após cinco anos, ao palco em que se produziram memórias envolvendo disputa de pênaltis que já não convinham mais ser rememoradas. Mas não era a mesma Itália de Roberto Baggio, Franco Baresi e outros. Nem mesmo reformulada. Era a Itália de Patrizia Panico, Rita Guarino, Tatiana Zorri.

Em Pasadena, no Rose Bowl, a Azzurra estreou na Copa do Mundo Feminina de 1999, a última em que participou até se classificar à deste ano. As italianas enfrentaram a Alemanha diante de um público de mais de 17 mil pessoas e seguraram um empate por 1 a 1 com uma das seleções mais fortes na modalidade – e isso saindo na frente no placar. Brasil e México completavam o Grupo B e foram os compromissos na sequência. No segundo embate da Itália, contra a seleção brasileira, 65 mil espectadores prestigiaram uma das partidas com maior audiência no estádio da competição sem que o time da casa estivesse em campo. O resultado? Um revés por 2 a 0. Na última rodada, uma vitória por 2 a 0 em cima das mexicanas não foi capaz de levar a Nazionale feminina à fase seguinte, e, assim, se despediu de Mundiais por duas longas décadas.

Capitã da seleção italiana nos dias de hoje, Sara Gama era apenas uma garotinha, com seus recém-completos 10 anos de idade, quando essa equipe de jogadoras, que tinha, ainda muito distante, o sonho da profissionalização, colocou a Itália na Copa da categoria pela última vez antes de 2019. Naquela época, contrariando a marca registrada da Bota de ser uma fábrica de notáveis defensores, sobravam referências no ataque, mas faltavam exemplos na retaguarda nos quais ela pudesse se espelhar.

(Tullio M. Puglia/Getty Images )

Em entrevista recente à Sky Sport, uma das mídias que estão colaborando – e muito – para a revolução pela qual passa o futebol feminino italiano desde o ano passado, a zagueira disse que, provavelmente, ela aprendeu a chutar antes mesmo de conseguir dar seus primeiros passos. “Estava escrito nas estrelas”, descreveu ela sobre as razões que a levaram ao futebol.

Filha de um imigrante do Congo e uma italiana de Trieste, multicultural e principal cidade da região de Friuli Venezia-Giulia, próxima à fronteira com a Eslovênia, a zagueira, nascida no mesmo lugar que sua mãe, não foi influenciada por seus pais a dar suas primeiras bicas na bola. Aliás, por ninguém de sua família, que tem mesmo paixão por esportes a motor. Os primeiros contatos com o futebol vieram por conta própria. Como se fosse algo intrínseco.

Um empurrãozinho de um amigo levou Gama ao encontro do gramado. E para ficar. Seus anos iniciais no esporte foram como os de muitas mulheres que vivem em países historicamente e ainda culturalmente alheios ao futebol feminino. Jogou em times masculinos e mistos até fazer parte de uma formação de fato feminina, passando por clubes pequenos até chegar no Tavagnacco, que, há anos, aposta integralmente na modalidade.

Em 2008, a defensora compôs a equipe da Itália que faturou o ouro na Eurocopa sub-19. Passados quatro anos, ela se transferiu para o Brescia, onde viu o brilho de uma taça resplandecer bem em frente aos seus olhos e em suas mãos pela primeira vez, na temporada 2015/16. No entanto, antes disso, teve uma passagem pelo PSG. Foi na França que, enfim, Sara pôde sentir o gosto de ser reconhecida como uma jogadora profissional. Mas, em contrapartida, acabou não se firmando e pouco atuou devido a uma lesão.

Assim como no caso de algumas companheiras de seleção nesta Copa do Mundo, o apogeu da  trajetória da capitã da Itália dentro das quatro linhas começou tardiamente. Ele acompanha o projeto ambicioso da Juventus, iniciado há dois anos, quando ela se aproximava da casa dos 30. Em duas temporadas com a Juve, a zagueira já empilhou três taças: duas da Serie A e uma da Coppa Italia.

Mas o maior êxito não foi angariado somente graças à sua técnica e suas características atléticas.  Pouco tempo após o momento em que Vecchia Signora adquiriu os direitos esportivos do clube amador Cuneo e montou sua esquadra feminina, foi atribuída a Gama a braçadeira para liderar o recém-criado time da mais tradicional agremiação italiana. E a quem mais a ex-atacante das Azzurre, Guarino, agora técnica da Juve, poderia ter confiado esse papel?

Em campo, a capitã se doa por completo para evitar gols adversários. Fora dele, ela não tem medo de marcá-los. Com um senso de justiça que a acompanha desde jovem, Sara é uma voz pujante dentro da causa do futebol feminino e nunca hesitou em encabeçar a luta pelos direitos das mulheres que praticam a modalidade no país. Desde 2017, ela constitui o Conselho Federal da FIGC, a federação italiana, e tem dedo em relevantes decisões como representante da AIC, a associação dos jogadores profissionais da Itália. Hoje, junto a ela, apenas três mulheres integram esse quadro de conselheiros.

No mesmo ano em que foi eleita para conciliar sua influência trajando uniforme e chuteiras com a de representar a classe de jogadoras na FIGC, a camisa 3 concluiu sua graduação em Língua e Literatura Estrangeiras na Università degli Studi di Udine.

Reprodução/Rai

Nesta Copa, ela poderia tranquilamente fazer uma reclamação detalhada sobre algum lance sofrido durante um jogo ou falar sobre qualquer outra coisa com as atletas dos elencos da França, Estados Unidos, Inglaterra, Escócia, Nigéria, Espanha, Argentina, África do Sul, Austrália, Camarões, Jamaica, Canadá, Chile e Nova Zelândia. E no idioma oficial de cada uma dessas nações. Sara é fluente em italiano, inglês, francês e espanhol.

Apesar de todos os atributos que a colocam em um lugar especial no Calcio, a capitã da Juventus e da Nazionale não é unanimidade entre os italianos. Mesmo que a Itália, em um ato heroico, chegue à grande decisão deste Mundial e, nos acréscimos, com um gol de cabeça de Sara, se sagre campeã, a zagueira ainda tende a ser alvo de desconfiança, racismo, xenofobia e sexismo por parte de ignorantes. E olha que eles constituem uma parcela considerável (e incômoda) da população da Bota.

Descendente de africanos, Gama tem a pele negra e cabelos crespos, nos quais ela costuma usar uma tiara durante as partidas. Suas características físicas e de onde vem seu pai jamais deveriam influenciar a opinião pública sobre ela, mas isso acontece. E muito. Na estreia da Itália na Copa após 20 anos no ostracismo, na vitória, de virada, por 2 a 1 sobre a Austrália, uma chuva de comentários questionando sua “italianidade”, ofendendo sua cor e zombando suas origens tomaram conta das redes sociais.

Ali, o retrato de uma Itália em que se registram casos de racismo e se ouvem cânticos dessa natureza reiteradamente em rodadas da Serie A, em partidas decisivas da Coppa Italia e em diversos jogos disputados em território nacional. Uma parcela do país que possui uma visão deturpada sobre estrangeiros, como aponta o relatório da Comissão Parlamentar Italiana sobre Intolerância, Xenofobia e Racismo, divulgado em julho do ano passado. Segundo o estudo, os italianos pensam que a taxa de imigrantes no país é de 30%, quando, na verdade, não passa de 8%.

Até o fato de Sara cantar o hino Fratelli d’Italia e aparecer na foto oficial da seleção italiana para o Mundial deste ano com a mão no coração gera incômodo e leva à intolerância. “Quando eu canto o hino, é o hino e ponto. Não há dúvidas, não há influências de outros lugares. Tenho uma família que, por parte de mãe, vem da Ístria. E tem a parte do meu pai, que é do Congo. E eu nasci em Trieste. Então, é uma bela mistura. Uma mistura que termina de uma única forma e com uma única palavra, que é ‘Itália’. Isso é suficiente para me definir”, falou a jogadora também à Sky.

Símbolo de força e antagonismo àquilo a Itália ainda exprime e corrobora até mesmo na esfera política, ela foi homenageada, no ano passado, pela Mattel. A companhia americana lançou uma coleção da Barbie especial do Dia Internacional da Mulher, com bonecas de 17 personalidades femininas de diferentes nacionalidades consideradas inspiradoras. A defensora foi a única jogadora de futebol lembrada pela marca e foi reproduzida no brinquedo como vai a campo pela Juventus.

Sara Gama é a única mulher negra na Nazionale feminina. E ela não é nem mais e nem menos italiana do que Martina Rosucci, que nasceu em Turim e é filha de pai e mãe italianos. Nem mais e nem menos italiana que o presidente da república da Itália, Sérgio Mararella, que se emocionou com seu discurso de resistência durante a celebração de 120 anos da FIGC, em 2018, em pleno Quirinale, o palácio do governo. Italiana, e poderia ser independente de jus sanguinis.  E, mais importante do que isso, capitã da Itália, doa a quem doer.