A zaga brasileira deve ter pesadelos com Kadidiatou Diani por um bom tempo. Na derrota para a França nas oitavas de final da Copa, a atacante deu assistência para Gauvin abrir o placar, assustou a goleira Bárbara e infernizou a vida das marcadoras — principalmente de Tamires — até o apito final. Contra os Estados Unidos não foi diferente. As anfitriãs foram eliminadas ao perder por 2 a 1 na tarde desta sexta-feira, mas a jovem francesa merece destaque por ter sido uma vez mais o coração do ataque da equipe no Mundial.

Diani protagonizou uma briga boa com a americana Dunn pela ponta. Oscilando entre marcar e ser marcada, a atacante mostrou visão de jogo, imprimiu velocidade na transição para o ataque, driblou e transpirou vontade de bola. Só que a marcação estava apertada e anulou as outras atacantes, e as donas da casa se despediram em pleno Parque dos Príncipes diante de 45.595 torcedores.

Esta foi a segunda Copa do Mundo da versátil Diani. Ela disputou o Mundial Sub-17 em 2012, quando marcou quatro gols e ajudou a França a conquistar o título, e foi bem na campanha do bronze do Sub-20 em 2014, além de disputar a Olimpíada do Rio. Filha de migrantes do Mali, a atleta cresceu no subúrbio de Paris e começou a jogar bola com os meninos da rua, aos dez anos de idade. O talento chamou a atenção de um vizinho do bairro.

“O nome dele era Serge, era um entusiasta de esportes no centro de lazer da Vitry [bairro de Diani]. Ele me disse que eu tinha potencial e que eu tinha que participar de um clube”, afirmou a jogadora ao jornal francês Paris Match.

O pai de Diani não aprovava que ela estivesse em um ambiente “masculino” como o futebol, mas a mãe via na bola um caminho para a filha ter uma vida melhor e decidiu apoiá-la. Quando tinha 11 anos, ela se juntou à escolinha do bairro, o ES Vitry, e era a única garota do time. Ganhou tanto destaque nos campeonatos regionais que, aos 15 anos, foi parar em Clairefontaine, o moderno complexo esportivo francês que tem como premissa desenvolver o futebol no país e garimpar talentos. Por lá, passaram nomes como Henry e Mbappé. Também foi o lugar onde a jovem descobriu o futebol feminino.

“Foi lá que eu joguei só com meninas pela primeira vez e onde comecei a ter o sonho de ser jogadora. Quando eu era jovem, não conhecia a seleção feminina da França, nem sabia que existia. Não era divulgado, uma pena, mas isso mudou muito hoje, o que é ótimo para quem quer ser jogadora”, disse ao site Europe1.

Diani passou a dividir o tempo entre a escola, os treinamentos no CT e os jogos pelo Juvisy FC, time amador de mulheres que foi comprado pelo Paris FC em 2017. Na temporada de 2015/16, marcou dez gols pela pela equipe e chamou atenção do Paris Saint-Germain, que aceitou desembolsar 150 mil euros para contar com a jogadora e fez dela a contratação mais cara do futebol feminino francês até então.

Descrita pelas companheiras como uma pessoa reservada, Diani é comparada a Mbappé pelo estilo de jogo e tem se destacado com a camisa da seleção, como se viu na Copa, mas já levou broncas públicas da técnica Corinne Diacre pela pouca efetividade nas finalizações. Por outro lado, foi líder de assistências do PSG na última temporada e conseguiu mostrar a potência de quando está com o pé calibrado, ao marcar duas vezes na vitória da França por 3 a 1 sobre as americanas, em janeiro.

Se não teve a mesma sorte no jogo de hoje, ao menos Diani conseguiu inspirar outras meninas a mudarem sua sorte. Na entrevista ao Paris Match ela contou que sua irmã Habie, de apenas oito anos, quer seguir seus passos e ser jogadora profissional. E ao site da Fifa, a camisa 11 comemorou que agora as pessoas saibam desde cedo da existência do futebol feminino. “Espero que muitas garotas vejam a Copa do Mundo e sonhem em jogar pela seleção francesa algum dia.”