Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

A Espanha fez uma Copa do Mundo extremamente digna. Sai de cabeça erguida após ter sido despachada pelas americanas, melhores do planeta e culturalmente privilegiadas quando o assunto é futebol feminino. As comandadas do técnico Jorge Vilda guerrearam até o último suspiro neste Mundial, que, para elas, se encerrou nas oitavas de final. Mas o percurso das espanholas em Copas – e não somente a nível de futebol de seleções – ainda não chegou ao fim. E uma coisa é certa: elas pegaram a via certa para chegarem aonde pretendem.

Assim como a Itália, a seleção espanhola feminina é uma equipe em ascensão. Gosto de citar o time destes dois países porque, dando vantagem à Espanha, que começou o processo há mais tempo, ambos passam por revoluções na forma como a modalidade é tratada, jogada e vista internamente. Como consequência dessa investida em desenvolvimento, as duas seleções estão mostrando, nesta oitava edição de Copa do Mundo, que podem, agora, incomodar e bater de frente com times como Austrália, Brasil, Alemanha e Estados Unidos.

Das italianas já falamos brevemente neste texto que conta um pouco a trajetória da capitã Sara Gama. Mas você se lembra quem era a Espanha há quatro anos, no Mundial de 2015? Uma mera coadjuvante tentando sobreviver em sua estreia em Copas. Depois de desbancarem a própria Itália, Romênia, República Checa, Estônia e Macedônia do Norte nas eliminatórias, liderando o grupo de maneira isolada, as espanholas não conseguiram alongar a estadia no Canadá, tendo sido eliminadas como lanternas no Grupo E, composto ainda por Brasil, Coreia do Sul e Costa Rica.

Sem precisar ir muito distante na linha do tempo, eu pergunto: e há dois anos, na Eurocopa na Holanda? O que ficou de recordação da Espanha? Fato é que ficaram para trás os dois gols marcados em quatro jogos por Vicky Losada e Amanda Sampedro, as três partidas entre fase de grupos e quartas de final sem balançar as redes, as dificuldades diante de Inglaterra, Escócia e Áustria e a queda nos pênaltis que mandou para longe o sonho de uma semifinal. A Espanha, agora, é outra história.

E é fazendo história que, juntas aos esforços da RFEF, a federação espanhola, e jogando junto com os grandes clubes, da imprensa, do patrocinador oficial, a companhia espanhola de energia elétrica Iberdrola, e com todos os interessados no futebol feminino do país ibérico, as atletas estão construindo uma narrativa que será valiosa no futuro. Antes mesmo de Jenni Hermoso e suas companheiras entrarem em campo para a partida em que, no fim, acabaram derrotadas por 2 a 1 para os Estados Unidos, válida pelas oitavas, mudanças importantes já haviam sido anunciadas pensando à frente.

Olhando para o futuro

Alexia Putellas e Jennifer Hermoso, da Espanha (Foto: Getty Images)

Na temporada passada do futebol feminino espanhol, foi destinado à categoria um orçamento que era de cerca de dois milhões de euros para sua otimização. Este ano, com o Mundial ainda em andamento, a RFEF divulgou que, para 2019/20, o investimento será de 20 milhões de euros, o que equivale a 900% de crescimento em relação a 2018/19 e é uma cifra recorde para a modalidade. Além disso, a federação passa por uma reformulação em sua gestão, com o basco Iñaki Mikeo assumindo o cargo de coordenador de futebol feminino. O dirigente, por sinal, não perdeu tempo e, já em sua apresentação, formalizou a reestruturação pela qual a liga espanhola feminina passará.

A Primera Divisón Pro, que já era profissional na temporada passada e financiada pela Iberdrola, ganha uma aliada: a Primera Divisón B Pro, que equivale à segunda divisão. Nasce, com essa nova estrutura, o terceiro escalão do futebol nacional: a Segunda Divisón, que antes correspondia ao segundo patamar na hierarquia da liga. As três competições terão formato de acesso e rebaixamento, com os times que tiverem desempenhos ruins na terceira divisão caindo para os campeonatos regionais.

A outra novidade que deixou os espanhóis bastante animados é o novo acordo de transmissão de partidas da liga feminina. Todas as 30 rodadas da Primera Divisón Pro serão transmitidas via streaming e na televisão. A segunda divisão nacional não fica de fora, com, no mínimo, três de suas partidas tendo que ser transmitidas nestes mesmos meios semanalmente. A ideia é fazer crescer ainda mais o percentual de audiência, que já aumentou significativamente na temporada passada em relação à anterior (40%), com, pelo menos, um duelo da Liga Iberdrola, o nome comercial da primeira divisão, sendo televisionado.

E as reformas não param por aí: o secretário-geral da RFEF, Andreu Camps, prometeu que este é só o início de um novo modelo de ver o futebol feminino que está sendo implementado no país, e que os requisitos de agora são mínimos e não se manterão durante os próximos anos.

Adesão dos espanhóis

Público recorde para o futebol feminino de clubes no Wanda Metropolitano: Atlético x Barcelona (Foto: Getty Images)

Um dos pilares deste crescimento exponencial do esporte praticado por mulheres na Espanha é o interesse público e a adesão dos espanhóis. Em março deste ano, Atlético de Madrid e Barcelona estabeleceram um novo recorde mundial em termos de público no futebol feminino. Campeão e vice, respectivamente, da Liga Iberdrola, os times da capital espanhola e da Catalunha levaram 60.739 pessoas às arquibancadas e demais setores do Wanda Metropolitano, com direito a ingressos esgotados antecipadamente e torcedores fervorosos apoiando, antes de tudo, a modalidade e o esporte feminino.

Algo semelhante já havia acontecido em janeiro, no San Mamés, em Bilbao, em jogo que valia vaga na semifinal da Copa de la Reina. Athletic e Atlético de Madrid atraíram 48 mil espectadores ao estádio, que lotou com tanta gente. Na época, foi a maior audiência presencial de um acontecimento esportivo protagonizado por mulheres. Mas como os espanhóis já davam indícios de que o evento não seria um fato isolado, o marca de público foi superada dois meses depois.

O jogo entre Espanha e Estados Unidos, pelas oitavas de final do Mundial na França, também foi histórico. As espanholas debutavam em mata-mata de Copa e um total de 1,8 milhões de espectadores acompanharam o embate pelo canal de televisão Gol. Nas redes sociais, o engajamento também foi grande, e a hashtag #MundialFemeninoEnGol alcançou os trending topics do Twitter, se mantendo, até o final da partida, como um dos assuntos mais falados no país.

Com Atlético de Madrid figurando entre os favoritos temporada após temporada no campeonato espanhol feminino e faturando o títulos nos últimos anos, e o Barcelona levando a Espanha à decisão da Champions League da categoria pela primeira vez, o Real Madrid notou o interesse que os dois times estão gerando e decidiu, ainda que tardiamente, montar uma equipe feminina. Os merengues, inclusive, anunciaram nesta terça a fusão com o CD Tacón, clube criado em 2014 com foco total no futebol das mulheres (e das meninas também).

A Espanha celebrou o inédito na Copa do Mundo deste ano. Foram três gols a favor e dois contra na fase de grupos, uma classificação em segundo lugar na chave, uma ida às oitavas de final e uma eliminação que não amargura; pelo contrário, dá esperança, sobretudo pela atuação. São inúmeros os motivos para os espanhóis acreditarem na continuação e potencialização de um trabalho que não começou da noite para o dia. Lá, a mudança está acontecendo de dentro para fora, e é impossível pensar que ela não vai levar a seleção espanhola a patamares elevados no futuro, onde merecerá estar por todo o empenho do presente.