Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

A última vez que chorei pela seleção brasileira eu era uma pré-adolescente, ultrajada com a falta de respeito de Tevez e companhia, nos minutos finais da famosa decisão da Copa América 2004. Logo após a chapa de Henry, dois anos mais tarde, parei de acompanhar o jogo e fui pro Orkut despejar minha indignação. O elo umbilical entre mim e a seleção se rompeu.

Não dediquei tempo e atenção à seleção feminina. Claro que conhecia as melhores jogadoras da equipe pois via uma ou outra partida. Porém, não passava de um conhecimento raso. Mesmo distante emocionalmente do time masculino, eu sempre soube onde os titulares e reservas jogavam, um por um. Eu tinha uma opinião pois os via atuar, seja na TV aberta ou fechada, e também porque jogava diariamente Winning Eleven (anos depois, FIFA).

Voltei a chorar ontem. Em praça pública, aproveitando um wifi aberto, ouvindo a transmissão de rádio pelo YouTube, já que o sinal da transmissão oficial do Brasil não funciona no exterior. Estive em Santiago para o feriado prolongado e percebi, pelas ruas e pelas conversas, que não só a aceitação do futebol feminino como o apoio à seleção são maiores do que aqui. Christiane Endler, a goleira, está quase em toda esquina do centro da cidade, perdendo apenas para Alexis Sanchez.

A ferida (in)visível

A falta de investimento no futebol feminino é fato notório e minha opinião sobre a situação do futebol feminino não saía desse senso comum. Era como uma conversa de elevador. Tudo bem? Tudo. Fim, cada um segue sua vida. Só fui saber que a prática do esporte foi proibida durante décadas quando já tinha passado dos vinte e tantos anos. Por mais que entenda que meu desconhecimento até então seja o fruto do próprio círculo vicioso do banimento, ainda me envergonho. Sou mulher. Não deveria saber tudo sobre futebol feminino?

Não. Não deveria. Levantar o embargo dessa proibição em 1979 não significou um crescimento da modalidade. Sim, mulheres jogavam bola, em times ou nas sedes dos clubes sociais, desde a virada do século XIX para o XX. Sim, a proibição de cunho machista e eugenista, não impediu que todas mulheres jogassem. Algumas continuaram, secretamente. Outras peitaram e se tornaram resistência. Mas resistir à injustiça é um pecado. Independentemente, todas perdemos.

Como escrevi na Revista Relvado, “(a)s mulheres, em resumo, foram extirpadas do direito de praticar futebol. A ilegalidade gera, num primeiro momento, instabilidade. A dúvida, medo. Poucas são as pessoas que têm estrutura — física, mental, social e financeira — para prosseguir em meio a tantas adversidades e preconceitos. Desistem, pois. O tempo acaba por normalizar a ofensa e gerações crescem acreditando que futebol não é coisa para mulheres”.

Eu acreditei que futebol não fosse para mim. Costumava brincar com meu pai até meus oito anos. Não só futebol, eu fazia todos os esportes, reais ou não, com aquela pelota amarela da companhia do gás. A família no geral já me achava diferente por outros motivos, ser uma criança que gostava de jogar bola não agregaria mais. Ganhei luvas de boxe no aniversário de três anos. Pedia lego e playmobil no lugar de bonecas.

Porém poder continuar a jogar livremente futebol é uma prerrogativa para poucas. Claro, ninguém iria me impedir fisicamente de chutar a bola. Mas conforme ia crescendo, os comentários aumentaram. Já era chamada de Maria macho/moleque na escola porque adorava correr e pular e no calor usava bermuda no lugar da saia. Mas receber o primeiro “sapatão” é diferente. Você se vê sozinha, estranha. Não entende.

Não contei pros meus pais que a mãe de uma menina que estudei junto da primeira à quarta série me chamou assim, quando fui à casa dela fazer trabalho escolar, junto com outras gurias. Tampouco mencionei a pergunta daquela senhora, se eu gostava de fazer xixi em pé. Quase vinte anos depois eu percebo que ela confundia homossexualidade com transexualiade. E tinha medo de eu infectar a sua filha. Como um vírus mortal. Ela tinha uma certeza sobre mim que nem eu compreendia. Me calei, me recolhi e fui mudando. A cada troca de colégio, apesar de futebol ser meu esporte favorito, eu praticava primeiro handebol, visto como mais feminino, e depois de mais de ano expunha o interesse na paixão, sempre de forma comedida. Meu medo do julgamento coletivo só passou aos 26, quando conheci o JogaMiga (todas deveriam participar).

Pragmatismo

As comparações com o futebol masculino sempre existirão, daquela parcela rústica que parece ainda viver nos 40. É do tipo que pensa “Por que investir, se as mulheres não vencem como os homens”? O investimento só vêm com resultados? A seleção estadunidense é a mais vitoriosa, com três títulos mundiais e quatro ouros olímpicos. E mesmo assim as jogadoras, com uma liga e condições inimagináveis no cenário brasileiro atual, entraram com ação judicial contra a Federação Americana de futebol, por conta do tratamento desigual com seus compatriotas masculinos apesar de trazer maior retorno financeiro. Perguntados um a um, nenhum jogador da seleção masculina quis comentar sobre o caso. Quando da propositura, a associação dos jogadores se posicionou a favor com uma nota simples e impessoal em seu site.

E se as partidas de clubes das quatro divisões femininas fossem antes das masculinas? Alguns poderiam achar um demérito, um sinal de inferiorização. Para mim, o futebol feminino precisa ser pragmático para crescer. Além dos óbvios investimentos estruturais necessários, os clubes poderiam testar esse formato de “sanduíche”. Quem quisesse, entrasse antes no estádio para ver as mulheres. E depois, a partida principal. A criação do hábito é fundamental para a manutenção do interesse e do engajamento do público.

O que, por exemplo, Palmeiras e Flamengo fazem com o futebol feminino é vexatório, humilhante, enojante. É apenas cumprir uma determinação para não prejudicar o jogo dos homens, pois a ausência de um quadro feminino os impediria de disputar a Libertadores. Eles não são os únicos nem no Brasil, mas a capacidade financeira dos dois ressalta o descaso ao terceirizam a modalidade, achando que muito o fazem já de usarem o manto deles. Por vezes o time de São Paulo esquece até do básico, de passar informações sobre a partida feminina. O Corinthians por sua vez tem dado mais atenção às mulheres. Num universo tão carente, o esforço mínimo do clube é visto com bons olhos, ainda que elas não possam jogar na Arena, tendo de mandar os jogos na Fazendinha.

As atletas não querem a compaixão do público e sim que possam manter uma carreira digna, na esfera social e econômica. Me expus para mostrar que a própria identificação de torcedoras com o futebol feminino pode ser viciada. Ontem eu me curei. A sensação de culpa ficou para trás. Não acabou, só começou. Já choramos demais. Que venham os sorrisos.