Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

“Eu estou jogando com muita confiança e determinação agora. Sinto-me bem. Quero dar tudo de mim na Copa porque acredito que faremos um bom torneio. Como sempre, é um sentimento surreal defender a seleção e eu quero deixar os torcedores orgulhosos.”

Ajara Nchout proferiu estas palavras pouco antes da Copa do Mundo da França, em entrevista à BBC Sport. Relendo-as hoje, parecem carregar um tom premonitório. Saberia Nchout que estava prestes a fazer história?

A camaronesa definitivamente não teve o início que sonhava no Mundial. Sofreu uma lesão na estreia contra o Canadá, precisou ser substituída e viu sua equipe perder por 1 a 0. Na segunda rodada, contra a Holanda, só entrou no segundo tempo e não conseguiu evitar a derrota por 3 a 1. Para alívio do técnico Alain Djeumfa, contudo, ela se recuperou e ajudou a levar Camarões às oitavas de final pela segunda vez consecutiva.

No jogo decisivo contra a Nova Zelândia, ontem, Nchout foi a estrela. Ofuscou o brilho da craque Onguéné e colocou a seleção na frente com um gol no início do segundo tempo. Poucos depois, viu a companheira Awona mandar contra a própria rede e empatar o jogo – resultado que eliminaria as africanas.

Foi quando a confiança e a determinação de Nchout falaram mais alto e ela cumpriu a promessa de dar tudo de si. A dez segundos do fim, quando tudo parecia perdido, a jogadora recebeu a bola de Onguéné, deu um baile na marcadora e bateu certeiro no canto direito da goleira para garantir a vitória e a classificação. A emoção foi tanta que ela precisou receber atendimento médico depois do gol.

Aos 26 anos, Nchout está em sua segunda Copa do Mundo. Ela integrou o plantel que debutou no torneio em 2015 e surpreendeu ao conseguir a classificação para as oitavas, eliminado pela China. Naquele ano, a jogadora também marcou no apagar das luzes contra o Japão, na fase de grupos, mas Camarões acabou derrotado por 2 a 1.

Hoje ela joga pelo Valerenga, da Noruega, que foi buscá-la no rival Sandviken após a temporada brilhante apresentada em 2018. Ela também acumula passagens pelo futebol russo, sueco e americano, mas, a exemplo da maioria das mulheres que “ousa” ocupar um espaço historicamente dominado por homens, sua trajetória foi repleta de percalços. Nascida em uma família muçulmana na pequena cidade de Njissé, no oeste do país, Nchout disse ter sido constantemente censurada por querer jogar bola.

“Minha família acreditava que a educação deveria vir antes da minha paixão, o futebol. Eu insisti e em diferentes momentos da carreira fui repreendida por membros da família, mas permaneci fiel ao meu sonho e trabalhei duro. Significa mais do que ganhar algum dinheiro. Futebol é a minha vida”, disse a atleta, ao jornal inglês The Guardian.

A futebolista também levou sua luta para fora do campo e é conhecida por apoiar diversas causas sociais em seu país. Entre um gol e outro, criou um fundo para ajudar orfanatos, apoia meninas carentes com bolsas de estudo, luta pelo fim do casamento forçado – problema que afeta milhares de crianças e adolescentes, principalmente no norte de Camarões – e ainda fundou um programa que dá assistência para presidiários e oferece apoio para que eles se reintegrem à sociedade.

Em 2018, após fazer 15 gols em 19 jogos pelo Sandviken, Nchout achou tempo e energia para visitar dois presídios no fim do ano para distribuir itens de necessidade básica e socializar com os presos.

“Tenho a oportunidade de colocar um sorriso nos rostos dos meus colegas camaroneses. É um período festivo e eles precisam celebrar também. Quando saírem da prisão, serão capazes de servir à nação com diferentes capacidades”, disse à época, em entrevista ao site Football 256.

Mulher de muitas potências, a jogadora terá agora o desafio de passar pela Inglaterra, adversária de Camarões nas oitavas de final – e considerada uma das favoritas ao título. O jogo será domingo (23), às 12h30, em Valenciennes. E se existe alguma esperança das camaronesas irem às quartas de final e alcançarem um feito inédito na Copa, ela certamente passa pelos pés e pela determinação de Ajara Nchout.