A partir desta segunda, a Trivela traz textos sobre a Copa do Mundo Feminina, personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Atlanta, 1996. O futebol feminino fazia sua estreia como modalidade olímpica. O único time representante da Conmebol tinha como pilar uma garota de 18 anos, com apelido de Formiga. Após avançar em seu grupo, o Brasil sucumbiu ante a China nas semifinais, perdendo a disputa pelo bronze para a Noruega, campeã mundial um ano antes.

Jogando com um imenso apoio, os Estados Unidos faturaram a medalha de ouro. Um avô, uma filha e uma neta estiveram presentes nas arquibancadas, acompanhando o mais perto possível cada movimento das atletas. Encantada, a criança de quase nove anos decidiu lá mesmo o seu futuro. Seria não só uma jogadora de futebol, como também representaria a sua nação.

A promessa

Portland, 2019. Ao atender a chamada de Jill Ellis, técnica da seleção americana de futebol feminino, Allie Long temia a repetição de quatro anos antes, quando recebeu a triste notícia de não estar entre as convocadas para o Mundial do Canadá. Se em 2015 Long, naturalmente abalada, chorou durante todo o voo entre Los Angeles e Nova York, agora ela honraria mais um capítulo daquela promessa feita consigo mais de duas décadas atrás.

Não é que a carreira da meio campista do Reign FC, clube americano, tenha sido, até aquele momento, morna ou de nível baixo. Ela foi multicampeã pelo Portland Thorns, a verdadeira líder em campo, transitando entre defesa e ataque incessantemente, protegendo e distribuindo a bola, sem perder um instinto de gol. Por essas características, o seu treinador do time da Universidade da Carolina do Norte a comparou a Frank Lampard. Ela disputou mais de cem partidas pela equipe, um feito ainda raro na National Women’s Soccer League, torneio disputado desde 2013, doze anos depois do primeiro modelo de competição feminina criado nos Estados Unidos.

Após cinco temporadas, Long deixou o Thorns, pois o técnico inglês Mark Parsons optou por Lindsey Horan e Amandine Henry como meias centrais, em uma formação diferente. A diretoria então a trocou pela atacante australiana Caitlin Foord, mais uma escolha de draft em 2020. Horan continua sendo a camisa dez do Portland, enquanto, Henry, a capitã da seleção francesa, está no Lyon desde 2018 — mesmo ano da estreia de Long pelo Reign.

As convocações constantes tampouco indicam uma ascensão meteórica. Ela trabalhou muito, e bem mais duro. O trauma de 2015 tornou a obstinada Allie obcecada por se aprimorar. Por isso, junto com o apoio familiar, a história dela me cativou. Sua mãe curte bater uma bola até hoje. Incentivada pelo tio, um croata que migrou aos Estados Unidos, Long cresceu brincando no jardim com a mãe e vendo-a jogar com homens.

Aos 11 anos, seu pai, um jogador amador de rugby, levou Allie para assistir a um amistoso da seleção. Após a partida, desafiou as probabilidades e driblou a segurança do estádio, até mesmo escalando uma grade, para conseguir o autógrafo de seu exemplo no futebol, Mia Hamm. A admiração pela eleita duas vezes melhor do mundo e segunda maior artilheira da seleção foi incentivada pelo avô de Long, que costumava espalhar artigos sobre futebol feminino pela cozinha, como “Be Like Mia”.

Being like Mia

Sua trajetória na seleção principal começou em 2010. Ou melhor, teria começado se não tivesse rompido o ligamento colateral medial no primeiro dia da concentração americana. Quatro anos depois, Jill Ellis a chamou para quatro jogos, mas, na sequência, fez-se silêncio. As boas atuações e o nível constante pelo clube não pareciam suficientes para fazê-la jogar. Allie sentia a necessidade de fazer algo diferente. Surgiu o futsal. Mas antes, uma outra história.

O ano era 2008 e lá estava Long, nas férias da Universidade da Carolina do Norte, pela qual jogava e seria campeã da liga universitária. Para se manter em forma, o treinador a convidou para jogar contra um time semiprofissional… masculino. A equipe de Allie perdeu os primeiros embates. Questionando o porquê de estarem perdendo, um adversário disse, jocosamente, que era porque eles estavam com uma garota em campo. Avance para hoje: Allie e o falador se casaram.

O nome dele é José Batista e, sim, seu palpite está certo: ele é filho de um brasileiro. Sua mãe é colombiana. Bati, como é conhecido, nasceu e foi criado nos estados Unidos. Surgida a chance, veio sozinho ao Brasil para tentar ser jogador profissional. Passou um curto período no Atlético Mineiro, mas a experiência aqui foi o suficiente para, de acordo com as regras americanas, não poder jogar futebol profissional por lá, na época.

Repletas de latinos, as quadras de futsal no bairro do Queens, em Nova York, mostraram a Allie um novo mundo, colorido, rápido, intenso e furioso. O fato das equipes competirem por dinheiro adicionava um tempero explosivo aos confrontos. A americana gostava de acompanhar o seu então noivo jogar.

A expulsão de um jogador do time de Bati, durante uma partida em 2015, fez com que ele recorresse a Allie para ajudar, pois estavam perdendo de um a zero e só teriam metade da partida para virar o placar. Ela já havia cogitado entrar em quadra, porém achava que não levariam a sério seu pedido. Mesmo assim, mantinha um par de chuteiras de futsal no carro. E foi para lá que se dirigiu no intervalo.

Logo no primeiro toque a arquibancada foi à loucura. LA BRANQUITA, LA BRANQUITA, ecoava pelo estádio. Faltando dois minutos para o fim, a mulher branca, de rabo de cavalo loiro, meteu uma bola enfiada açucarada para Bati empatar. Quando o seu goleiro ficou com a posse, ela partiu pro ataque. Recebeu uma bola longa no canto e emendou um chute forte de primeira. Gol. Gol da virada. Gol da vitória. E foi assim, então, que Allie Long se viu jogando duas, três, até cinco partidas de futsal numa mesma noite, por diferentes times, em diferentes lugares.

“Eu vou conseguir ou vou morrer tentando”. Esse foi o mantra de Allie após a rejeição para a Copa de 2015. “Eu precisava ser mentalmente mais forte. Acho que foi por isso que deixei [a vaga] escapar”, disse em entrevista. Jogar contra homens em um ambiente atípico a forçou a melhorar em todos os aspectos, sejam físicos, técnicos e, principalmente, mentais.

Externamente, a cabeça também é bastante utilizada por Long. Dos seis gols marcados nos 42 jogos pela seleção, cinco foram dessa forma. Em cobranças de bola parada ou em corridas de apoio, como uma atacante, lá está Long disposta a se meter entre adversárias e escorar com seu 1,73m – a título de comparação somente quatro jogadoras compatriotas de linha são mais altas do que ela.

Fincando raízes

Em março de 2016, no camp, período de treinos e jogos da seleção, Jill Ellis precisou convocar uma nova atleta para substituir Morgan Brian. Assim, Allie Long pôde treinar com o grupo e iniciar o amistoso contra a Colômbia, partida esta que mudou a trajetória dela com a camisa dos Estados Unidos.

A técnica substituiria Long no intervalo, quando já havia feito um gol, porém mudou de ideia e a deixou por mais tempo. Foi o suficiente para ela não só marcar seu segundo no jogo, como assegurar uma vaga para o Jogos Olímpicos de 2016, seu primeiro torneio pela seleção principal.

A disputa no Rio representou a pior campanha dos Estados Unidos até então. As mulheres foram eliminadas pela Suécia nas quartas de final, em disputa de pênalti. A forma como a equipe europeia jogou, abdicando de atacar e estacionando o ônibus como um José Mourinho encapetado, causou revoltas nas atletas. Hope Solo, a goleira, reclamou publicamente dessa atitude, chamando o time adversário de covarde e criticando a treinadora, sua ex-comandante na própria seleção norte-americana, Pia Sundhage.

O fracasso no Brasil não atingiu Long. Pelo contrário, a camisa 20 passou a ser sempre convocada e a jogar.

Seu entrosamento fora de campo com as outras atletas é digno de nota. Ela adora assustar as companheiras na concentração (e filmar), assumindo por vezes o controle do Instagram da Federação Americana. Em especial, possui uma ótima relação com as suas madrinhas de casamento, Alex Morgan e Tobin Heath, com direito a brincadeiras para os fãs. Ela forma com Morgan a dupla Las Alejandras, por ambas se chamarem Alexandra. Já Long e Heath se referem uma à outra como Harry, celebrando gols, ou simplesmente o que der na telha delas, sempre juntas. O motivo do nome? Nenhum. Só alegria.

Susto calculado

Quando tudo parecia excelente e finalmente ela estava cotada para disputar uma Copa, rompeu parcialmente o ligamento posterior cruzado no fim de 2018, somente sendo convocada para o último período de testes, em abril deste ano. Allie entrou na lista final, sendo uma dos onze nomes diferentes com relação à Copa no Canadá, em 2015.

Em recuperação, entrou no intervalo nos amistosos preparativos para o Mundial contra África do Sul, Nova Zelândia e México. Na França, a sede da edição vigente, quando Jill Ellis precisar de alguém que manipule o tempo de jogo, enfie bolas longas, proteja a defesa, lidere, e se arrisque no ataque, ela sabe que pode contar com Long.