Vinte e três anos depois de um dos mais violentos protestos campais no estádio Maksimir envolvendo Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, os ânimos voltam a ficar exaltados. Está chegando a hora do primeiro confronto da história entre Croácia e Sérvia, nesta sexta-feira, pelas eliminatórias da Copa de 2014.

Em 1990, pouco antes de um plebiscito que decidiria pela independência da Iugoslávia, um dérbi entre dois dos principais clubes da região acontecia pela liga iugoslava. Toda a tensão étnica contribuiu para uma batalha entre duas facções de torcidas: a Bad Blue Boys, do Dinamo, e os Delije (heróis, em sérvio), do Estrela Vermelha.

Uma luta política que durou 50 anos por parte dos croatas fez com que a independência finalmente fosse aprovada em 6 de maio daquele ano, para desgosto dos outros integrantes da Iugoslávia, em especial a Sérvia. A Eslovênia também quis passar pelo mesmo processo, enfrentando ferrenha oposição do líder comunista sérvio Slobodan Milosevic.

Zvonimir Boban, ídolo e capitão do Dinamo Zagreb, briga com policial que agredia torcedor croata: ato elevou o jogador ao status de herói nacional e odiado pelos sérvios
Zvonimir Boban, ídolo e capitão do Dinamo Zagreb, briga com policial que agredia torcedor croata: ato elevou o jogador ao status de herói nacional e odiado pelos sérvios
Quando o nacionalismo se mistura ao esporte

Três mil torcedores do Estrela Vermelha viajaram até o Maksimir, em Zagreb, no dia 13 de maio, e horas antes do pontapé inicial, começaram a receber pedradas vindas setor destinado aos azuis, que estavam em maioria. A polícia não conseguiu reprimir a violência e pouco depois os sérvios contra-atacaram invadindo a área e agredindo os rivais com cadeiras arrancadas e facas, bradando gritos nacionalistas contra a Croácia. 60 pessoas ficaram feridas e outras tantas atingidas pelo gás lacrimogêneo lançado pelas forças militares.

Um evento significativo também chamou a atenção após a batalha campal. Zvonimir Boban, ídolo croata e capitão do Dinamo, chutou um policial que estava tentando levar um torcedor em detenção. Boban se tornou um herói nacional pelo ato, sendo uma pessoa pública que lutava pelas causas da Croácia, gerando ódio por parte dos sérvios. Ironicamente, o policial agredido era muçulmano e bósnio. Refik Ahmetovic posteriormente perdoou Zvonimir pelo ato.

O motim marcou o início da guerra de independência croata, que só foi reconhecida em 1992. Em 1995 os militares da Croácia recuperaram grande parte de seus territórios na Iugoslávia. Somente em 1998, com interferência das Nações Unidas, os iugoslavos devolveram as províncias restantes.

Novos tempos, velhas feridas

Duelando por uma vaga no Mundial do Brasil, os vizinhos entrarão em campo em Zagreb numa partida que vale muito mais do que três pontos ou uma esperança de se classificar de forma direta ou pela repescagem. Em busca de uma relação pacífica dos dois países, os dois governos estão engajados em missões diplomáticas para tentar amenizar a pressão de grupos nacionalistas, ainda fortes em ambos os lados.

Durante os anos 90, a relação entre Belgrado e Zagreb viveu em meio a uma guerra que tirou a vida de milhões de civis. E é com essa sombra que as duas bandeiras vivem atualmente. Será que o passado ainda determina os rumos do que virá pela frente? O ressentimento pelos anos sangrentos parece ainda ser mais presente do que uma tentativa de reconciliação.

Em 1999, ainda como parte da Iugoslávia, a Sérvia realizou duas partidas contra a Croácia, pelas eliminatórias da Eurocopa de 2000. Foram dois empates em 0 a 0, no Marakana, em agosto e 2 a 2 no Maksimir, em novembro. Não houve registros de violência.

Graças a estes dois pontos, a campanha iugoslava alcançou a fase de grupos da Eurocopa sob o comando de Vujadin Boskov. Mais adiante no torneio, a eliminação veio diante da Holanda nas oitavas de final, com uma goleada acachapante de 6 a 1 para os laranjas.

Favoritismo croata contrasta com frustração sérvia

Futebolisticamente falando, a Croácia tem sido bem superior com a sua seleção. A presença nos Mundiais de 1998, 2002 e 2006, boas campanhas em Eurocopas, além dos talentos formados no país, certamente falam mais alto do que os fiascos sérvios, como a eliminação na primeira fase em 2006 (ainda juntamente com Montenegro) e em 2010, quando chegaram como campeões de seu grupo, à frente de França e Áustria, mas naufragando contra a Austrália. Nem mesmo uma surpreendente vitória diante da Alemanha tirou o ar de “não foi desta vez” da torcida.

Pela primeira vez disputando pontos, os vizinhos estão em situações distintas na chave A. A Bélgica desfruta do favoritismo no agrupamento, somando 10 pontos e ao lado dos croatas, que não titubeiam contra seus adversários diretos. Os sérvios, na contramão, ameaçaram decolar após uma goleada em cima do País de Gales, porém as derrotas para belgas e macedônios abalaram a moral do elenco para o clássico desta sexta-feira.

Sabendo da atmosfera que envolve o compromisso no Maksimir, os treinadores Igor Stimac e Sinisa Mihajlovic, que foram companheiros na seleção de base da Iugoslávia ao fim dos anos 1980 enfatizam que não há nenhuma animosidade por parte das delegações. O jogo terá torcida única por parte da Croácia e a Uefa já alertou que se algum episódio de violência acontecer, os dois países sofrerão sanções em competições internacionais.

Em campo, uma vitória dos axadrezados não parece nenhum absurdo. Modric, Jelavic e Mandzukic atravessam grande fase e devem conseguir impor seu ritmo de jogo sem dificuldades diante da renovada Sérvia de Tosic, Kolarov e Ivanovic.