[Critério de Desempate] Alinhando expectativas com a Força da Tabela

O Brasileirão 2020 começa no próximo sábado. Normalmente seria uma ótima notícia. A data prevista para o início do campeonato nacional era 3 de maio. No dia 19 de maio, o Brasil superou a marca de 1000 mortes em um dia pela COVID-19. Hoje, já são 80 dias convivendo com números assim, sem previsão de queda. Cem mil brasileiros não vão acompanhar a estreia do Brasileirão, e outros milhares não conhecerão o campeão. É com essa dor, com esse pesar, com esse constante luto, que falo sobre uma análise que há tempos venho querendo destacar.

Quem é mais familiarizado com esportes americanos conhece bem o conceito de Força da Tabela. Lá, os jogos são mais regionalizados, de tal modo que nenhum time tem a mesma tabela que o outro. Na NFL, por exemplo, um time pode jogar contra um rival duas vezes na mesma temporada, enquanto enfrenta um outro time a cada quatro anos. Assim, é normal observar que a sequência de jogos tem grande influência nas expectativas de uma equipe.

No futebol, onde a maioria dos campeonatos – inclusive o Brasileiro – é disputado em turno e returno, esse conceito não é intuitivo. Mas é possível extrapolar. Vejam o Coritiba, por exemplo: todo ano, ele começa em desvantagem, porque é o único time que não joga contra o Coritiba.

Outras diferenças, ainda que sutis, podem pesar. No ano passado, o adversário mais temido nas primeiras rodadas era o campeão Palmeiras. Ao longo do ano, o Flamengo foi tomando esse posto. Quem jogou contra o Palmeiras na largada e contra o Flamengo na reta final, sentiu isso diretamente, enquanto o oposto reduziu essa impressão de dificuldade. Além disso, quem jogou contra o Cruzeiro no início do campeonato certamente tinha outras impressões de quem encarou a Raposa na reta final.

A proposta aqui é, então, avaliar a dificuldade da tabela em momentos pontuais do campeonato. Essa métrica será útil para justificar expectativas para a sequência dos jogos. Não é uma análise preditiva, mas uma ferramenta de acompanhamento do desempenho. Até porque o índice não considera o time que está sendo analisado, e sim os seus adversários. Isto é, uma tabela é mais forte ou mais fraca para qualquer time, independente do quanto ele é capaz de se aproveitar disso.

Funciona assim: a Força da Tabela (que eu pensei em chamar de FdT, mas se o leitor tiver uma ideia melhor, sinta-se à vontade para sugerir) de um time é a média de pontos dos próximos 6 adversários, considerando os desempenhos como mandante e visitante. É verdade que o fator casa tende a ter menos peso com jogos sem público, como alguns estudos já mostram – e é provável que o tema pinte aqui no Critério de Desempate em breve.

Nas primeiras 6 rodadas, a Força da Tabela será calculada apenas com base nos desempenhos de 2019 – no caso dos promovidos, todos “herdam” o desempenho do 17º como referência. Após isso, os resultados das últimas 6 rodadas vão alimentar os cálculos, atualizados a cada rodada. Por esse levantamento, a tabela mais fácil possível teria esse índice aproximadamente igual a 1, e a tabela mais difícil possível ficaria em torno de 2. Mas vamos para os gráficos para entender como vai funcionar a interpretação.

Força da tabela da primeira rodada do Brasileiro 2020

Força da tabela da segunda rodada do Brasileiro 2020

Já ficou claro que quanto menor a Força da Tabela, mais fácil é a sequência de jogos. A leitura então é que o futebol cearense foi agraciado pela tabela. De cara, o Ceará larga com a sequência mais fácil: Sport(F), Grêmio (C), Atlético-MG(F), Vasco(C), Bahia (C) e Atlético-GO(F). Você que não torce para o Vozão, pode pegar a sequência de jogos do seu time e ver que ela não será mais fácil que essa. Que o diga o Santos, que começa com Bragantino(C), Internacional(F), Athletico-PR(C), Sport(F), Palmeiras (F) e Flamengo (C) – os dois últimos campeões em sequência.

Isso de forma alguma significa que o Ceará vai chegar líder na sexta rodada, ou que o Santos será o lanterna. O que se pretende é dosar expectativas. Se o Ceará for o líder, será uma surpresa, mas já conhecendo este fator de Força da Tabela, podemos esperar que ela vá dificultando nos jogos seguintes. O problema é se o Ceará chegar na sexta rodada na zona de rebaixamento: pode ligar o sinal vermelho, que o futuro não é promissor. Da mesma forma, um Santos líder depois dessa sequência vai criar expectativas enormes no torcedor.

O dinamismo do cálculo vai aparecer conforme o campeonato corre. Já na segunda rodada, algumas mudanças ficam bem claras ao se excluir a primeira e incluir a sétima rodada. Para o Fortaleza, a estreia em casa contra o Athletico-PR sai da conta, e entra o clássico contra o Ceará, na sétima rodada. É o suficiente para reduzir a Força da Tabela de 1.342 para 1.079.

Para o Bahia, a estreia contra o Botafogo no Rio conta para dar ao time a segunda tabela mais fácil. Depois disso, entra o jogo contra o Flamengo, também no Rio, e torna a Força da Tabela tricolor a terceira mais difícil. Esse olhar futuro mostra que uma vitória na estreia é muito mais importante para o Tricolor do que normalmente se espera.

Então, a proposta é essa. Um possível acréscimo aqui é fazer uma análise retroativa, e buscar quem foi azarado de pegar mais times em melhores fases, por exemplo. É certo também que vai aparecer uma comparação com o esperado, ou seja, rever essas tabelas lá na sexta e sétima rodadas. E assim ter mais argumentos para avaliar o momento de cada time.

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