Por Nathalia Perez

Seja lá qual for o resultado decorrente do confronto entre Real Madrid e Juventus neste sábado, o nome de Cristiano Ronaldo já se faz assíduo na história da Champions League. Entre inúmeras páginas e tantos capítulos registrados no torneio desde 1955, o português aparece muitas vezes como protagonista absoluto ou adjunto de narrativas que terminaram em glórias para os lados por ele defendidos.

Além de maior artilheiro de todas as edições da competição com seus 103 tentos, Cristiano também é o garçom que mais serviu seus companheiros e os ajudou a encurtar os caminhos do gol. Não há como negar que é enorme sua contribuição para o Manchester United ter saído campeão em 2008 e chegado à final em 2009, o Real Madrid ter voltado à cena em 2014, superado novamente o Atlético de Madrid em 2016 e retornado à decisão em 2017, e, claro, para a classe de sumidades que já jogaram a Champions. A história de Cristiano no torneio já está basicamente completa, mas ela ainda pode ser amplificada neste sábado. E para fechar uma temporada individual do atacante bem incomum a todas suas outras.

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Muita coisa mudou sobre Cristiano Ronaldo em 2016/17, a começar pelo seu posicionamento em campo. Ele, que sempre exigiu muito esforço para marcá-lo, sobretudo de adversários que jogam no lado direito defensivo do campo, passou a atuar mais centralizado no ataque. Não como um centroavante propriamente dito, mas perfurando a defesa mais pelo meio e mais perto da área. O português já tinha jogado dessa maneira em outras temporadas, é verdade. Nesta, porém, isso começou a acontecer com mais frequência em função de suas lesões (centralizado, ele corre menos) e da ausência de Gareth Bale quase em toda a época, o que mudou o panorama do jogo do Real com Zinedine Zidane.

Na “nova posição”, Cristiano tem tido um aproveitamento excelente. E é aí que entra outro ponto que diferencia esta temporada do português das demais. Sua eficácia também está ligada ao fato de ele ter aceitado se resguardar fisicamente ao longo da campanha do Real na Champions e em La Liga depois de algumas contusões, para render mais no momento mais importante de 2016/17: sua reta final.

Devido às rotações impulsionadas por Zizou no campeonato e na liga, o camisa 7 chega ao fim da temporada mais forte, como ele mesmo assume, e com mais gás. Dá para ver isso pegando seus números durante a fase de grupos e no mata-mata da competição europeia. Cristiano estreou no torneio fazendo um gol contra seu ex-clube, o Sporting. Um tento de bola parada, em bela cobrança de falta, para deixar o marcador igual, já que os portugueses tinham largado na frente. No jogo seguinte, ante ao Borussia Dortmund, ele marcou novamente. Abriu o placar para os merengues no Westfalenstadion em uma partida que terminou empatada em 2 a 2.

Depois disso, ele só voltou a balançar as redes contra o Bayern de Munique. E isso não quer dizer que ele foi omisso nos jogos diante do Legia Varsóvia, ou nos outros diante de Dortmund e Sporting, ou ainda nos dois confrontos com o Napoli pelas oitavas de final. Foi neste período que Cristiano mostrou que a narrativa que vem escrevendo na Champions há anos não é só sobre gols, ultrapassando seu ex-companheiro Ryan Giggs no ranking de assistências em toda a história da Champions. Foram seis passes para gol em seis partidas.

Pode parecer que conquistar a Orelhuda sobre a Juventus signifique apenas mais um título para Cristiano Ronaldo somar em sua carreira. Mas uma possível vitória do Real Madrid neste sábado não se resume a isso, ainda mais se o camisa 7 brilhar na finalíssima. A taça representaria a resolução de uma temporada de adaptação para ele, de diversidade de funções, de dedicação e sacrifícios redobrados à sua condição física, que é um dos aspectos que ele mais preza, e, acima de tudo, seria sinônimo de recuperação.

O português não sofria mais de uma lesão na temporada desde 2013/14, e nunca havia ficado tanto tempo se reabilitando de problemas físicos como no início de 2016/17, quando estava tratando a lesão sofrida na Eurocopa. Hoje, Cristiano é mais forte em todos os sentidos, aliás. A gana de fazer história na Champions, no entanto, é a mesma da primeira vez que pisou no gramado para jogar a competição. A história dele na Europa talvez esteja, sim, completa, mas só para quem olha de fora.