Cristiane: a goleadora a quem só falta o ouro

Maior artilheira dos Jogos, ela brilhou com a geração mais forte do Brasil, que ganhou duas medalhas de prata e encantou o mundo, mas não conseguiu chegar ao alto do pódio

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast. 

Centenas de jogos e gols, cinco Copas do Mundo, quatro Olimpíadas, duas medalhas de prata, um casamento recém-celebrado no último fim de semana. Aos 35 anos, Cristiane Rozeira de Souza Silva talvez já não tenha muitos sonhos na vida. Um deles provavelmente é a medalha de ouro com a Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos – que passou muito perto em duas ocasiões. Mas as presenças entre Atenas-2004 e Rio-2016 já garantiram a ela um feito: é a maior artilheira da competição entre as mulheres, com 14 gols marcados.

[foo_related_posts]

Ela tinha 11 anos e já dava seus chutes em campinhos na Grande São Paulo quando o futebol feminino estreou nos Jogos Olímpicos, em Atlanta-1996, e o Brasil ficou em quarto lugar. A posição foi repetida em Sydney-2000. Em 2003, o Brasil tinha uma agenda cheia, com Copa América no Peru, Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, na República Dominicana, e a Copa do Mundo, nos Estados Unidos. Eram tempos esquisitos, em que Milene Domingues, então a “rainha das embaixadinhas” e esposa de Ronaldo, foi convocada para a Seleção, mesmo sem um currículo à altura das colegas. Quem se impôs mesmo foi Marta, de apenas 17 anos, autora de quatro gols na conquista da Copa América. Cristiane, perto de completar 18, teve participação discreta: fez o décimo gol na goleada por 12 a 0 sobre a Colômbia, no último jogo do quadrangular final que selou o título.

Cristiane celebra seu casamento com a advogada Ana Paula Garcia (Foto: Reprodução/Instagram)

Cristiane seguiu como opção de banco no Pan, em agosto, quando Marta já começava a se firmar como estrela. E foi dela, Cristiane, o gol de ouro, literalmente, na decisão contra o Canadá> aos 26 segundos da prorrogação, recebeu um lindo passe de Formiga nas costas da defesa e encobriu a goleira (veja abaixo o vídeo com os gols do jogo). O gol valeu festa, mas não lugar no time: ela seguiu no elenco para a Copa, e entrou nas quatro partidas, sempre saindo da reserva, mas não fez nenhum gol. O Brasil caiu nas quartas de final, diante da Suécia. E, a partir dali, não houve mais Brasil sem Marta nem Cristiane.

Se Marta era habilidade e talento puro, Cristiane era a velocidade e o fato de artilheira. As duas se complementaram e deram show no berço dos Jogos Olímpicos: o Brasil estreou com vitória por 1 a 0 sobre a Austrália, depois perdeu para os Estados Unidos por 2 a 0 e, precisando de uma boa vitória para não depender de outros resultados, fez 7 a 0 na Grécia, com três de Cristiane.

Nas quartas, ela deixou mais dois contra o México, na goleada por 5 a 0. A experiente Pretinha decidiu o 1 a 0 contra a Suécia, nas semifinais, e veio a decisão. O Brasil jogou muito, talvez uma de suas melhores partidas contra as americanas em todos os tempos, mas o ouro não veio: 2 a 1 para os Estados Unidos, na prorrogação.

O ciclo seguinte talvez tenha sido o auge dessa geração ainda tão jovem: Cristiane e Marta foram reconhecidas pelo Maracanã lotado com a conquista do ouro no Pan de 2007 – Cris deixou dois da final, um 5 a 0 sobre o time sub-20 dos Estados Unidos. Na Copa do Mundo, na China, vingaram anos de freguesia contra as sobrinhas do Tio Sam com um sonoro 4 a 0 nas semifinais, mas faltou a taça: na final, derrota por 2 a 0 para a Alemanha.

Um ano depois, de volta a China, o Brasil voltou a sonhar com o ouro. Cristiane deixou três gols na primeira fase, todos contra a Nigéria. Mais dois contra a Alemanha, um vingativo 4 a 1 nas semifinais. Mas, de novo, faltou o último passo, de novo contra os Estados Unidos, de novo na prorrogação: 1 a 0, gol de Lloyd.

O tempo passou, as medalhas foram ficando mais distantes e os gols, mais escassos, mas sempre presentes: em Londres-2012, Cristiane fez dois na primeira fase, um contra Camarões e outro contra a Nova Zelândia. O Brasil foi embora mais cedo, nas quartas de final. No Rio-2016, foram outros dois, contra China e Suécia, ambos na primeira fase, e o quarto lugar ao final da campanha – uma lesão tirou a camisa 11 da fase final.

Se estiver bem fisicamente em 2021, Cristiane ainda é nome provável no time de Pia Sundhage para os Jogos de Tóquio. Quem sabe mais alguns golzinhos para ampliar o recorde e, por que não, o danado do ouro? Para quem saiu de Osasco e rodou o mundo jogando bola, sonhar é só um passo a mais até o sucesso.

.