Hernán Crespo se consagrou no mundo do futebol como um atacante muito letal. Jogou por diversos times importantes ao longo da sua carreira. Formado nas categorias de base do River Plate, jogou também pelo Parma, Lazio, Internazionale, Chelsea e Genoa. Aos 44 anos, se tornou técnico e está em um trabalho ainda recente no Defensa y Justicia. Em entrevista ao Olé, ele confessou que não gosta de rever seus próprios jogos pela seleção argentina pelas dores das derrotas e nunca ter tido campeão do mundo. Também comentou sobre Lionel Messi e sua relação com a albiceleste.

O jogador foi perguntado sobre o seu estilo de treinador e suas inspirações na área. “Sou um técnico que quer propor, que quer que sua equipe jogue no campo adversário, que gosta de gerar situações de gol e que não gosta que chutem para o seu gol. Um técnico que coloca ordem e disciplina a serviço do jogo”, descreveu o ex-centroavante.

“A verdade é que me custa eleger um [técnico de referência] porque eu trato da mesma forma de quando jogava: nessa época olhava muitos atacantes, mas sabendo que não podia ser igual a eles, ia olhando e somando coisinhas a cada ano, enquanto tento me atualizar além do que vivenciei na minha carreira, mas sempre tentando fazer o que penso e do jeito que gosto”, continuou.

Crespo trabalhou, como jogador, com José Mourinho, tanto no Chelsea quanto na Internazionale. E embora elogie muito o treinador, seu estilo de jogo é bastante diferente. “Não sou do time que me enclausuro, quero tratar bem a bola. José tem muitíssimo prestígio, assim como muitos outros, como Guardiola, Klopp ou Cholo. Ele me ensinou a metodologia do seu trabalho, sempre foi muito didático e isso eu gosto muito”, afirmou.

“De alguma maneira, ele rompeu com isso que se pensava que o técnico só escolhe 11 que jogam; demonstrou ser um treinador universal, com uma maneira determinada de se dirigir aos treinadores, fala muitos idiomas e se ocupa um pouco de tudo… Mas são coisas que vão notando à medida que vão crescendo”, descreveu ainda Crespo.

No Banfield, Crespo tentava jogar um futebol ofensivo, mas os resultados não foram bons. No Defensa y Justicia, o início tem sido promissor. “Na realidade, não há uma fórmula que te garanta a vitória, eu trabalho da mesma maneira e trato de dar uma identidade da equipe para não me trair a mim mesmo. No Banfield, criávamos muito e sofremos pouco, mas não convertíamos e contra nós, convertiam. No Defensa, vemos sendo muito efetivos e isso se vê refletido nos resultados. Acredito que o balanço é mais positivo, chegamos sem fazer pré-temporada e em seguida a equipe mostrou sua ideia, isso tem muito a ver com a pré-disposição dos rapazes e isso nos deixa muito felizes”, disse o ex-atacante.

Crespo também foi perguntado se pensa em dirigir o River Plate, um clube que tem muita ligação pela sua carreira, ou o San Lorenzo, clube que sua família é torcedora. “Olhe, antes de surgir o Defensa, houve conversas com diferentes clubes, graças a Deus equipes grandes, não só da Argentina e de toda América do Sul, mas é algo natural. Depois quando apareceu a proposta concreta do Defensa, não tive dúvidas para aceitar, porque eu gostava do plantel que havia, a ideia, o objetivo da Copa”, respondeu o ex-jogador.

“Sinceramente, acredito que não é uma questão de sonhar, porque quando você sonha está dormindo, e aqui estou desperto e trabalhando. Hoje estou no Defensa, depois o tempo dirá para que estou aqui. Trato de viver e desfrutar o dia a dia e não me distrair pensando no futuro”, afirmou o técnico.

“Não concebia outra coisa que não fosse ser campeão do mundo”

“Veja a seleção com grande entusiasmo, porque conheço as pessoas que estão lá, conheço muito bem Lionel [Scaloni], também Ratón [Ayala], Samuel, Aimar, Placente… São pessoas que amam muito a seleção e isso me faz sentir muito feliz que eles estejam lá. E [Claudio] Tapia, neste caso, deu a ele tranquilidade de seguir até o Catar, que é importantíssimo. É muito difícil no dia a dia e nos últimos tempos, temos visto trocar de técnico a cada momento”, opinou Crespo.

“Eu vejo que há um projeto, uma ideia. Não importa qual, podemos discutir, alguns podem gostar, outros não, mas sabemos onde vamos. Acredito que o erro era que vínhamos aos solavancos e hoje há pessoas que sabem que vão continuar até a Copa do Mundo. Vão errar e vão acertar, mas sabemos de que estamos falando e não vamos descobrindo no caminho”, continuou o ex-jogador.

Um dos aspectos que Lionel Scaloni tem trabalhado é o da renovação do elenco argentino. “Era preciso fazer, mas paulatinamente. Não é que todo veterano esteja mal, nem que todo jovem seja melhor. Acredito que se fez com muito critério. Esta situação que obrigou a adiar a Copa América vai ser boa para chegar com mais rodagem e acredito que a equipe vai bem quando começarem as Eliminatórias, porque precisam conviver, estar juntos”, analisou.

Crespo também já foi a renovação da seleção argentina um dia. “Sim, no começo, com Daniel [Passarella], que fez uma renovação no meio das Eliminatórias do Mundial de 1998 e colocou eu, Verón, Piojo [López]. Foi uma decisão forte para nós, estivemos à altura, ainda que não tenha sido fácil conviver com esta situação”.

Um momento que acabou sendo uma desilusão imensa foi a Copa do Mundo de 2002, com o técnico Marcelo Bielsa. Ele foi perguntado se entendeu o que aconteceu para o time, que era um dos favoritos, ter caído ainda na primeira fase. “Não, nunca pensei. Fechei a porta e segui em frente. Essa equipe voava, havia muita esperança, mas não correu bem para nós na Copa do Mundo. Depois, conquistamos a medalha nos Jogos Olímpicos, mas terminei com muita dor, porque não concebia outra coisa que não fosse ser campeão. Na verdade, eu nunca assisti aos jogos”, afirmou o ex-jogador.

Ele nunca quis rever os jogos para entender o que aconteceu. “Não, na realidade uma outra vez um amigo me fez ver um pouco, mas antes que isso, jamais havia visto. A dor da derrota sempre foi tão grande que nunca quis voltar atrás. Nesses momentos, chorava o que tinha que chorar, ou o que fez falta, e depois arrancava para construir os quatro anos seguintes para a próxima Copa, com a mesma esperança de ser campeão”, afirmou o jogador.

Apesar das derrotas doídas, Crespo se diz satisfeito com a sua trajetória na seleção. “Sim, eu aproveitei muito minha experiência na seleção e lembro das Copas com muito orgulho, mas não agradavelmente, porque queria ser campeão. A jornada e durante foi realmente bonito, com situações que só a seleção pode te dar. Sou agradecido por viver isso, mas ficou um sabor amargo”, contou Crespo.

“Messi vai além do título de Copa, não vai deixar de ser imenso”

“É muito difícil ser Messi, ninguém pode se colocar no lugar dele, como ninguém poderia, na época, se colocar no lugar de Maradona. É impossível saber o que eles pensam e o que vivem. Fico feliz em vê-lo jogar na Seleção, eu adoraria, como argentino, vê-lo campeão do mundo. Leo é um cara que está em um nível muito alto há muitos anos, recebe pontapés, se levanta e enfrenta, sempre trabalhando. Ele vai muito além do jogador ou atleta, ele é um exemplo de profissional, com seriedade, honestidade, sempre correto. Messi transcendeu mais do que acreditamos em todo o mundo e acho que ele é muito mais que um grande jogador de futebol”, analisou Crespo.

Messi tem 32 anos e, na próxima Copa, terá 35. Tudo indica, portanto, que deve ser a última Copa do craque do Barcelona. Perguntado se seria injusto que o jogador se aposente sem ser campeão do mundo, Crespo não teve dúvida. “Sim. Na verdade, se você pensar sobre isso, de alguma forma, é o futebol que deve a Messi. Mas isso não vai tirar a sua grandeza. Para mim, vai ser algo anedótico. Somos argentinos e queremos que ele seja campeão do mundo, quero de todo coração, mas ele vai além do título e não vai deixar de ser imenso”, afirmou o ex-jogador.

Crespo jogou na seleção argentina de 1995 a 2007, com 64 jogos e 35 gols marcados. Lionel Messi já se tornou não só o maior artilheiro, com 70 gols, mas também já é o terceiro jogador com mais partidas, com 138 jogos. O recordista é Javier Mascherano, com 147 jogos. Javier Zanetti tem 143 jogos.