Na lista de jogadores brasileiros campeões do mundo, há um que nunca vestiu amarelo em Copas do Mundo. Filó se tornou o primeiro graças às suas raízes italianas, embora tivesse bola para ter feito muito pela Seleção. O ponta direita veloz e goleador disputou apenas seis jogos com o Brasil, todos durante a excursão à Copa América de 1925. Não teve mais espaço, tanto pelo hiato da equipe nacional a partir daquela competição, com apenas quatro amistosos disputados até 1929, assim como pelo litígio entre paulistas e cariocas no Mundial de 1930. Um ano depois, o craque partiu ao futebol italiano. Marcou seu nome na Lazio e também na Azzurra, um dos campeões em 1934. Uma ídolo que completaria 110 anos neste sábado, se ainda tivesse vivo.

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Embora seu sobrenome italiano, Guarisi, seja o mais conhecido no futebol,  o paulistano também tinha raízes lusitanas. Filó começou a carreira na Portuguesa, clube no qual seu pai era o presidente. Mas não dava para dizer que as costas quentes abriram espaço ao garoto. Antes de completar 20 anos, se transferiu ao Paulistano, uma potência na época. Emplacou no time que brilhou em excursão invicta pela Europa naquele mesmo ano. Conquistou três títulos do Campeonato Paulista, servindo de coadjuvante a ninguém menos do que Arthur Friedenreich, o maior jogador brasileiro até então.

Em 1929, Filó transferiu-se ao Corinthians, se destacando na breve passagem pelo Parque São Jorge. Em tempos nos quais o Paulistão tinha dois campeonatos, fruto das divisões na organização, o atacante fez parte de mais um time campeão, após já ter participado da conquista do Paulistano naquele ano. E ergueu a sua quinta taça estadual em 1930. A fama do craque alvinegro ia além das fronteiras. Atraiu o interesse da Lazio, que passou a contar com uma legião brasileira graças ao presidente Remo Zenobi, empresário com negócios no país. Ao longo do início da década, os biancocelesti passaram a recrutar uma legião de “oriundi”, os descendentes de italianos. Amílcar Barbuy era o líder dos estrangeiros, levado para ser técnico e jogador. Tinha a companhia de nomes célebres como Niginho, Nininho, Del Debbio, De Maria e Rato, formando a “Brasilazio”.

Filó disputou seis temporadas na Lazio, cinco como titular absoluto. Por mais que o clube tivesse Mussolini como sócio desde 1929 e fosse o mais popular de Roma naquele momento, apenas aparecia como mero figurante na Serie A. Seu início, ainda assim, não foi dos mais fáceis. Criticado após as primeiras partidas, o atacante se desculpou dizendo que esperava um par de sapatos feitos sob medida, a ser trazido de São Paulo. Dito e feito: no primeiro jogo com os novos calçados, anotou dois gols na vitória por 3 a 2 sobre o Bari. A partir de então, deslanchou com os laziali.

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O sucesso era tanto que levou o ponta direita às convocações do técnico Victorio Pozzo na seleção italiana. “Guarisi” disputou seis jogos pela Azzurra e marcou um gol, contra a Grécia pelas Eliminatórias – partida na qual Nininho também balançou as redes. Porém, só o paulistano acabou chamado à Copa do Mundo, único jogador da Lazio no elenco nacional. Titular na estreia, contra os Estados Unidos, o atacante perdeu a posição na sequência do torneio para Guaita, mas se consagrou como campeão.

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Ídolo da Lazio, Filó chegou a usar a braçadeira de capitão. Mais do que a famosa eficiência na ponta, o atacante também era reconhecido por sua simpatia. Além disso, tinha facilidade para marcar gols. Quando se despediu do clube, era o maior artilheiro em partidas oficiais, com 43 bolas nas redes – todos anotados pelo Italiano. Acabou superado poucos anos depois pelo lendário Silvio Piola, a quem ofuscou na estreia ao anotar uma tripleta, mas depois ajudou com muitas assistências. Contudo, o brasileiro não pôde contribuir tanto nos maiores sucessos do time na década. Na temporada em que perdeu a posição de titular, os biancocelesti ficaram com o vice da Serie A, assim como foram finalistas da Copa Mitropa.

De qualquer maneira, a história de Filó já estava escrita. O veterano ainda voltou ao Brasil, passando por Corinthians, Portuguesa Santista e Palestra Itália (o futuro Palmeiras) em seus últimos dias como jogador. Faleceu em 1974, aos 69 anos, em uma data que serviu também para recontar a sua trajetória: 27 dias depois do primeiro Scudetto da Lazio, e apenas dois dias antes do 40º aniversário do primeiro título mundial da Itália, aquele do qual fez parte.