Eduardo Coudet transformou-se em sonho de consumo a muitos torcedores brasileiros, pela qualidade de seu trabalho no futebol argentino. Em cinco anos como treinador, Chacho protagonizou campanhas marcantes e exibiu um futebol ofensivo. Dentro das possibilidades acessíveis aos clubes do Brasileirão, o portenho se colocava como uma das mais interessantes. E, depois de longo namoro, o Internacional confirmou a chegada de seu novo comandante nesta segunda-feira. Coudet chegará ao Beira-Rio na próxima quarta, para assinar contrato de dois anos com os colorados.

Ao longo dos dois últimos meses, o acerto com Coudet era dado como certo pela imprensa no Rio Grande do Sul. As conversas se iniciaram ainda durante o Brasileirão, após a saída de Odair Hellmann, mas os compromissos do Racing no Campeonato Argentino retardaram o anúncio oficial. No entanto, com a conquista da Supercopa da Superliga neste final de semana, surgiu a deixa para que o técnico deixasse Avellaneda em alta. Foi confirmado no Inter, enquanto a Academia logo deve anunciar a contratação de Sebastián Beccacece para o posto.

O currículo de Coudet anima a torcida do Internacional. Apesar da carreira relativamente curta, Chacho emplacou dois grandes trabalhos em cinco anos. O início de sua trajetória começou no Rosario Central, onde também possuía um longo histórico como jogador. Em três temporadas, foi capaz de formar uma das equipes mais competitivas da América do Sul e colocou os canallas entre os principais candidatos ao título da Libertadores em 2016. Chamava atenção pelo futebol de alta intensidade, sobretudo pelo vigor ofensivo.

O impacto em Rosário levou Coudet ao Tijuana, mas o argentino durou seis meses no Campeonato Mexicano. A campanha mediana no Apertura de 2017, sem avançar aos mata-matas, e os problemas financeiros do clube custaram o seu emprego. No entanto, a volta por cima não demoraria a acontecer. Chacho assumiu o Racing semanas depois, em dezembro de 2017. Levou o time às oitavas de final da Libertadores 2018 e terminou o Campeonato Argentino 2017/18 com uma campanha de recuperação, na sétima colocação. Já na temporada passada, conquistou o seu primeiro título em alto nível.

O Racing campeão nacional em 2018/19 exibia a essência do futebol apreciado por Coudet. Era uma equipe em altíssima rotação, com futebol agressivo; amplitude para abrir o jogo, sobretudo pelo apoio dos laterais; qualidade para atuar com a bola no chão, com trocas de passes verticais; e pressão alta na marcação, com linhas adiantadas. A Academia apresentou bons talentos, em especial Lautaro Martínez, e também redescobriu alguns jogadores nestes dois anos, com a alta de Lisandro López. A conquista da Superliga veio com relativa tranquilidade e o time seguia com desempenho razoável na atual campanha, a quatro pontos dos líderes. Entretanto, Coudet preferiu aceitar a proposta do Internacional.

Durante um bom tempo, o Inter indicou o seu desejo de contratar Coudet. Os colorados sabem o que o treinador representa e quais são os seus predicados. Tal postura apresenta um alento à torcida, após as limitações de Odair Hellmann e a escolha sem muito sentido de Zé Ricardo para a reta final do Brasileirão – o que quase custou caro. Por mais que Chacho não tenha emplacado em sua única aventura fora da Argentina, era das melhores apostas possíveis à disposição.

É importante ter em vista, porém, que Coudet não resolve todos os problemas do Inter de uma só vez. Apenas sua contratação não é suficiente. Ao longo de 2019, os colorados pareceram um tanto quanto limitados pela falta de opções no elenco. O time engessado, sem muitas alternativas de jogo, carecia de um leque maior de possibilidades entre os seus atletas. A contratação de Chacho significa repensar a maneira como o plantel foi montado e, talvez, abrir mão de alguns nomes importantes que podem não se encaixar na nova filosofia.

Com ou sem perdas no atual elenco, o Internacional necessitará de novas adições. As contas do clube não indicam tanta margem de manobra, e por isso a saída de alguns medalhões pode ser útil. Além do mais, Coudet precisará recorrer às categorias de base. O bom trabalho que realizou no Racing, principalmente, o referenda nesta formação de talentos. Só não terá tanto tempo para trabalhar os prodígios, diante das cobranças imediatas do calendário.

A prometida “nova era” com Coudet, afinal, terá decisões em breve. O Internacional vai encarar a partir de fevereiro a disputa das fases preliminares da Copa Libertadores. Será importante aos colorados concederem não apenas liberdade ao argentino e as ferramentas necessárias, mas também paciência, caso algum problema ocorra durante este início. Não será simples realizar a remodelação do elenco com o perigo batendo à porta cedo. A diretoria do clube precisará respaldar a introdução dessa nova filosofia.

Coudet representa uma cisão dentro do Beira-Rio. A ideia de jogo muda em 180°, se comparada ao que se via nos últimos dois anos com Odair Hellmann. E se o passo mais firme foi dado pelos colorados com a contratação, é preciso ter consciência da importância da continuidade. Ao menos, depois de uma temporada na qual os treinadores estrangeiros fizeram as duas melhores campanhas do Brasileirão, o cenário é mais favorável à abertura. Chacho pode significar um ponto de virada aos colorados.