Era setembro de 2014, e o vírus do grito de bichas nas arquibancadas era epidêmico no futebol brasileiro. O Corinthians teve uma gigante atitude de desafiar o ambiente altamente tóxico para homossexuais no qual está inserido e publicar um manifesto contra a homofobia. Havia um elemento de evitar punições, como aparece no fim do texto, mas o teor geral era duro e preciso:

“Aqui é o Time do povo. Do povo e para o povo. Desde 1910, aqui se combateu o elitismo e o racismo. Aqui houve pioneirismo na inclusão social e racial. Aqui não tem pobre, rico, negro ou branco. Aqui somos todos Corinthians. Aqui nos engajamos para ir às ruas e brigar pelas ‘Diretas Já!’ em movimento inédito e histórico que uniu futebol e democracia. Como fazemos na arquibancada e em campo, aqui lutamos até o fim para que todos sejam iguais. E aqui não há, e nem pode haver, homofobia. Pelo fim do grito de ‘bicha’ no tiro de meta do goleiro adversário. Porque a homofobia, além de ir contra o princípio de igualdade que está no DNA corinthiano, ainda pode prejudicar o Timão. Aqui é Corinthians!”.

A diretoria era outra, comandada por Mario Gobbi à época, mas o Corinthians continuou com importantes posicionamentos contra a homofobia. Em maio do ano passado, no Dia Internacional do Combate à Homofobia, enviou uma mensagem pelo Twitter. Em agosto, outra espécie de manifesto em seu site: “Os clubes da série A do futebol Brasileiro se unem pelo combate à homofobia, não somente dentro do campo de jogo, mas no nosso dia-a-dia. (…) São absolutamente inaceitáveis práticas discriminatórias ainda existentes em nossos estádios: temos que dar um basta!”

Além disso, o Corinthians tem se engajado em outras lutas contra o preconceito, como a campanha “Respeita as Minas”que não ficou sem suas controvérsias – ou o apoio a Dentinho e Taison, quando ambos sofreram racismo na Ucrânia. O discurso é importante, não é feito sem seus riscos, porque ainda há uma quantidade infelizmente alta de pessoas que se incomoda com o que chamam de “politicamente correto” ou “tentativa de lacrar”, mas não tem sido incomum hoje em dia que empresas e entidades adotem esses posicionamentos, nem que seja apenas para parecerem legais, mesmo que não acreditem neles.

A genuinidade pode ser testada quando chega a hora da prática.

O volante colombiano Victor Cantillo foi apresentado pelo Corinthians nesta sexta-feira e recebeu a camisa número 8, supostamente uma homenagem ao compatriota Freddy Rincón. Teria sido uma versão muito aceitável, não tivesse sido acompanhada pelos comentários do diretor de futebol, Duílio Monteiro Alves – “Vinte e quatro aqui não” – e do próprio jogador, que usava o número 24 no Júnior Barranquilla: “Sim, me explicaram que não poderia usar o 24, usei muito no Junior”.

O número 24, no jogo do bicho, representa o veado. E nenhum jogador quer ser associado ao veado porque nenhum jogador quer correr o mínimo risco de ter sua masculinidade desafiada por alguma piada homofóbica, e nenhum clube quer correr o mínimo risco de ter um jogador associado à homossexualidade, e se tudo isso estiver parecendo demais com a sua sala da quinta série, você está absolutamente correto.

E quando digo nenhum, não é uma hipérbole. Em 2015, o UOL fez uma matéria e descobriu que apenas dois clubes – Cruzeiro e Internacional – utilizavam o 24 no Campeonato Brasileiro e era porque os jogadores carregaram o número da Libertadores, cuja organizadora, a Conmebol, obriga que os times sejam numerados do 1 ao 30. Quatro anos depois, o IG constatou o quão pouco o futebol brasileiro evoluiu nessa questão porque apenas o Grêmio tinha um número 24, o jovem goleiro Brenno Fraga.

Então nem de longe o Corinthians é o único que se preocupa com essa bobagem, mas é o que teve um dos seus diretores explicitamente afirmando em uma entrevista coletiva que de fato se preocupa com essa bobagem e, entre os clubes brasileiros, um dos que tem o discurso mais forte contra o preconceito.

Diante da repercussão, Duílio gravou um vídeo com um dos pedidos de desculpas menos convincentes dos quais se tem registro e cheio de furos:

“Boa tarde a todos. Em primeiro lugar, quero me desculpar da brincadeira infeliz e informal que fiz antes da apresentação do atleta Victor Cantillo. O Corinthians é o time do povo, o time das minorias, o time de todos, e sempre usa sua marca a favor de campanhas contra qualquer tipo de preconceito. Não temos nenhum problema com o número 24. Em 2012, quando também era diretor de futebol, fomos campeões invictos da Libertadores, e nosso goleiro Cássio, um dos maiores ídolos de toda nossa história, usou essa camisa. Cantillo usará a 8 em homenagem a Freddy Rincón, meio-campista, também colombiano, campeão do mundo em 2000, um grande ídolo da nossa torcida. Quero deixar claro que tenho total respeito a tudo e a todos. Um grande abraço”.

 

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Minhas desculpas pela brincadeira infeliz e meu respeito a todos! #PreconceitoNão #RespeitoSim

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Querem ir por partes? Não se trata de uma “brincadeira infeliz e informal”, mas de um comentário que reforça que tem algo errado em ser “veado”, e é sintomático que nenhuma das 127 palavras usadas pelo diretor em seu pedido de desculpa tenha sido “homofobia”.

“Não temos nenhum problema com o número 24”, mas quem o colocou nas costas ano passado, em competições em que não era obrigatório utilizá-lo? E no ano anterior? Quem será este ano? Por que nenhum jogador corintiano o utiliza na Copinha? O que “foi explicado” a Victor Cantillo em relação ao número 24?

É verdade que Cássio usou o número 24 na Libertadores de 2012. A Conmebol não reconhece o jogo do bicho como um motivo razoável para pulá-lo. Cássio era o terceiro goleiro na época da inscrição e é comum que eles fiquem com o número 24 porque são os membros do elenco com menos chances de entrar em campo. Logo depois da final, mudou a sua camisa para a 12.

O pedido de desculpas de Duílio foi insuficiente, para ser brando. O clube ainda deveria se posicionar institucionalmente sobre o assunto e, junto com seus colegas, acabar com esse patético veto ao número 24, sob o risco de a verdadeira intenção por trás de todos os seus posicionamentos, passados e futuros, ser colocada em xeque como meras tentativas de parecer um clube gente boa.