ATUALIZADO ÀS 14h12

A Conmebol anunciou que Corinthians e Fluminense serão os brasileiros cabeças de chave na Libertadores 2013. Uma decisão meio óbvia, considerando que se trata do atual campeão do torneio e do atual campeão brasileiro. Torcida fica feliz, empolgada, e tira sarro do rival. Mas… isso não tem valor algum, simplesmente porque a Conmebol segue avacalhando o sorteio da Libertadores por motivos políticos.

A ideia de cabeça de chave faz sentido para separar os times mais fortes, evitando confrontos diretos entre eles em fases prematuras do torneio. Faz ainda mais sentido se as demais equipes também forem separadas por grupos de acordo com seu nível técnico. Aí, ser cabeça de chave dá uma segurança de que o time terá menos adversários fortes pela frente, o que aumenta suas chances de classificação.

A Conmebol não faz isso. São oito grupos e, portanto, oito cabeças de chave. Até 2010, a entidade colocava os quatro times brasileiros e os quatro argentinos com vagas diretas na fase de grupo nessa posição. Não era uma maravilha total, pois o quarto argentino muitas vezes é um clube fraco e com menos tradição que um colombiano, uruguaio ou paraguaio. Mas era alguma coisa, e ainda dava a brasileiros a certeza de que só enfrentaria um argentino ou outro brasileiro se viesse da Pré-Libertadores. E vice-versa.

Desde 2011, a Confederação Sul-Americana piorou o sistema. Hoje, metade teoricamente é definida por nível técnico – Brasil 1 e 2, Argentina 1 e 2 –, mas a outra metade é puramente política. A entidade dividiu as demais oito federações filiadas (o México é convidado, não se esqueçam) em dois grupos. Nos anos ímpares, os representantes número 1 de Colômbia, Equador, Venezuela e Peru ficam como cabeça de chave. Nos pares, esse status é de Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.

Para piorar, em Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e Venezuela, o representante 1 da Libertadores não é o melhor time da temporada, mas o que se classificou mais cedo. Ou seja, o campeão do torneio do primeiro semestre. A equipe em melhor fase, que embalou e conquistou o título nacional no final do ano, entra como número 2.

Na Libertadores 2013, a Conmebol decidiu criar os potes separando os times para o resto do sorteio, mas continua sem muito sentido. A separação de potes 2, 3 e 4 continua não sendo técnica. O pote 2, que supostamente teria os times mais fortes que não são cabeças de chave, acabou reunindo os times de países que não ganharam a cabeça de chave. Com isso, mistura Uruguai, Paraguai e Chile, três forças continentais, com a Bolívia, país mais fraco da região. No pote 4, estão os convidados mexicanos e os classificados da Pré-Libertadores (pode vir São Paulo e Grêmio aí). E, no pote 3, está “o resto”, que vai de Atlético Mineiro e Boca Juniors até Real Garcilaso-PER e Caracas. O único direcionamento é evitar que dois clubes do mesmo país tenham vaga direta na mesma chave.

Com isso tudo, o fato de serem cabeças de chave dá a Corinthians e Fluminense a certeza de que não enfrentarão Arsenal-ARG, Vélez Sársfield, Barcelona-EQU, Independiente Santa Fé, Deportivo Lara e Sporting Cristal na segunda fase. Desses, só o Vélez seria um oponente realmente preocupante. No entanto, podem perfeitamente cair com Boca Juniors, Newell’s Old Boys, Millonarios, Tijuana, Olímpia, Cerro Porteño, Nacional-URU e Peñarol. Ou ainda Grêmio e São Paulo, se esses passarem pela primeira fase. Uma chave com Corinthians/Flu, São Paulo, Boca Juniors e Peñarol é perfeitamente possível. Assim como uma com Deportivo Lara, San José-BOL, Real Garcilaso e Iquique-CHI.

Não sou completamente contra a ideia de sorteio 100% aleatório, permitindo ao acaso desenhar chaves mortíferas e dando a pequenos o caminho livre para avançar e se tornarem zebras históricas. A FA Cup é assim. Só que, nesse caso, que se abra tudo e nem se criem os cabeças de chave. A justiça ficaria de lado para dar espaço à emoção. Mas, se é para dar uma cara de direcionamento por nível técnico, que se faça de modo sério. E não usando o título de “cabeça de chave” para bajular as federações menores do continente.