Corinthians começou a temporada com um plano (ou algo parecido) e tentará terminá-la com uma solução emergencial

O Corinthians tinha um plano. Ou algo parecido o suficiente. Contratou Tiago Nunes para mudar aquele estilo de jogo pelo qual ficou conhecido, o vamos-defender-bastante-e-atacar-só-se-der-tempo, que na verdade parecia assim apenas quando era mal executado. E o Athletico Paranaense de Nunes era mais equilibrado do que realmente um time ofensivo ou de posse de bola. Como podemos ver, não era um plano infalível – tanto que falhou. Agora, depois de um mês sem treinador até anunciar a chegada de Vágner Mancini, nesta segunda-feira, vemos também que não era exatamente um plano.

O futebol brasileiro precisa de narrativas porque são raros os dirigentes que conseguem explicar exatamente o que na metodologia e na filosofia de um treinador fizeram com que ele fosse contratado. Para não ficar apenas no “achamos que ele era bom” ou “não tinha ninguém muito melhor”, a história do Corinthians era que Nunes foi chamado para mover o time daquele estilo de Fábio Carille e Mano Menezes e em certos momentos até de Tite para outro mais moderno e vistoso e ofensivo.

Acontece que, uma vez contratado, o treinador precisa justificar a narrativa. Se ele chegou para, por exemplo, porque era o “xerifão”, pega mal se os jogadores começarem a aparecer nas manchetes com casos de indisciplina. Se a promessa, como no caso de Nunes, era um jogo mais bonito que o dos seus antecessores – que, repetindo, nem sempre foi feio ou ultra-defensivo -, a cada partida ruim a frustração crescia ao ponto em que, sem nenhum estilo e com resultados fracos, a demissão tornou-se inevitável.

Pode-se discordar ou concordar com a decisão da diretoria corintiana, mas, no país que pratica o mais alto nível de demissões de treinador, a de Nunes não deve pegar nem top 10 entre as mais absurdas de 2020. O que realmente chamou a atenção foi a maneira como o Corinthians passou um mês vagando pelos campos de futebol sem torcida do Brasil sem um comando, sem saber o que fazer, perdido – sem um…. plano.

O que é estranho porque havia um, não? Se Tiago Nunes não deu certo, o Corinthians deveria buscar outro profissional que pudesse fazer o que ele queria que Nunes fizesse. Mas, dias depois da demissão, Andrés Sánchez citou os nomes de Abel Braga e Dorival Júnior em uma entrevista coletiva. Dorival, curiosamente, o sucessor de Nunes no Athletico e que de fato costuma montar times mais expansivos. Abelão, nem tanto. Depois, começaram as especulações com Sylvinho, que em meia dúzia de partidas pelo Lyon nem chegou a definir um estilo. Chegou-se até a se falar de Dunga e Felipão, dois profissionais que são tão parecidos com Tiago Nunes quanto uma cadeira é parecida com um abacate.

E, depois de um mês, embora Sánchez tenha falado naquela entrevista que contrataria um novo treinador o quanto antes, chegou a Vágner Mancini. Seu estilo, veloz e reativo, é mais parecido com o anterior do que com aquele que o Corinthians buscava com Nunes. Na realidade, é uma solução emergencial. O mandato de Sánchez termina no fim do ano e ele gostaria de terminá-lo ainda na Série A do Campeonato Brasileiro. Mancini tem um currículo recente de trabalhos pelo menos razoáveis em que não demorou muito para pelo menos dar uma arrumada na casa e até experiência como quebra-galho, quando esquentou o banco do São Paulo à espera de Cuca.

Para o que o Corinthians quer neste momento – um pouco de tranquilidade em campo até a chegada da próxima administração – é um nome razoável. Pena que o plano foi tão rapidamente abandonado. Na realidade, a declaração mais repercutida de Sánchez naquela entrevista coletiva foi no fim a mais verdadeira: “Ter sorte, que o treinador venha com sorte, se não tiver sorte, infelizmente, nada vai para a frente”. É um jeito de dizer: preferimos os treinadores que ganham jogos aos treinadores que não ganham jogos. Esse costuma ser o único plano dos dirigentes brasileiros.

.